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No final do terceiro ato, a platéia prendeu a respiração para não perder um detalhe do epílogo da peça. No palco, sentado a uma pequena mesa, o ator principal se preparava para assinar o testamento onde contemplava dois filhos que tivera fora do casamento com alguns apartamentos de sua propriedade. Nesse momento surge a esposa, gananciosa e irada, portando um revólver. – Eu o avisei de que você não vai deixar nada para aqueles bastardos filhos daquela cadela. Ela que vá arranjar outro trouxa para dar o golpe do baú! Sem dar tempo de resposta ao sujeito, disparou o tiro a menos de vinte centímetros de sua orelha direita. Nesse instante, surge um oficial militar ofegante, acompanhado de uma jovem que, chorando, grita: – Mamãe! Eu lhe disse para não cometer nenhuma loucura. Nosso patrimônio é suficiente para todos nós por mais de cem anos. Aquelas crianças não tiveram culpa de terem nascido. Por que você fez isso? Não a ensinaram a perdoar? O oficial recolhe a arma da mulher e coloca as algemas em seus pulsos. Enquanto o sangue pinga da mesa, o cenário escurece, a cortina desce, ao som das calorosas palmas do público de pé e de narizes fungando devido ao choro emocionado. O diretor da peça abraça a todos, pela inspirada representação, que terminava a temporada na capital após dois anos consecutivos de sucesso total de bilheteria. Na semana seguinte iriam começar uma turnê pela Europa, pois o texto traduzido já estava pronto. – Venha cá, Bento. Pode se levantar daí, pois a encenação já terminou. Será que o nosso herói está dormindo ou desmaiou de emoção? Bento não se moveu mesmo depois de balançado pelos colegas. Suzana (a esposa na peça) chamou o médico. Dr. Boris afirmou que o homem estava morto. De verdade! Duas horas depois, quando o delegado Paranhos acabou de ouvir todos os depoimentos, resumiu assim seu entendimento inicial: – Tenho seis suspeitos de terem colocado uma bala verdadeira na arma: Suzana já tivera um flerte com Bento e sugeriu que ele se separasse da esposa para ficar com ela. Bento se recusou, deixando-a irada. Paulo, o contra-regra, há um ano levou um esculacho de Bento devido a uma desavença num dos ensaios e prometeu vingança. Carlos, o diretor, tinha uma enorme simpatia por Helena, a real esposa de Bento. Não deixava de paquerá-la nem na presença do marido. Jorge, o oficial militar, achava que deveria ter sido escolhido para ser o ator principal do espetáculo. Nelma, que fazia o papel de filha, nunca negou que considerava Bento um pedante e mal-agradecido. Dona Jurema, que faz a limpeza dos camarins, lhe devia trezentos reais há mais de seis meses e alegava que só poderia quitar a dívida ao receber o décimo terceiro salário. Portanto, peço que nenhum de vocês se ausente da cidade durante as nossas investigações. Agora, queiram se afastar para que o fotógrafo e o perito possam trabalhar com mais liberdade. Quando o corpo estava sendo colocado na maca do rabecão, caiu um pedaço de papel do bolso da camisa de Bento. O delegado o recolheu e o desdobrou para ler seu conteúdo. As letras eram firmes e claras.
“Caros amigos. Espero não ter causado muita confusão neste último ato de
minha vida. Eu mesmo coloquei a bala real na arma. Deixei para nossa
última apresentação para não interromper o sucesso da peça. Não tinha
coragem para puxar o gatilho. Creio que tremeria e erraria o tiro. Imagino
que todos ficarão felizes com minha partida. Reconheço que não agradei a
muitos enquanto estive vivo. Foi melhor assim, do que de forma dolorosa e
vergonhosa mais adiante. Certamente eu não viveria mais de três meses,
pois a Aids já dominou meu organismo por completo. Bento”. |
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Haroldo Pereira Barboza |