A vida anda complicada para mim. Todo dia tenho que ir a uma imobiliária no bairro do Bom Retiro onde a maldita Gilda tenta foder meu rabo com mentiras sem base. Pensa que eu sou algum tipo de alienígena.

O bairro do Bom Retiro é formado por uma vizinhança judaica e coreana, localizado em São Paulo e perto do antigo Dops. Caminhar por lá é como estar em Madagascar rodeado por pessoas loirinhas e amarelas. As informações vêm rápido demais na mente e não dá para processar direito. Pessoas andam correndo demais e seu cérebro manda as informações lentamente, então você começa a ver uma coreana branca com barba, ou uma baiana com farda de policial comendo uma cabeça de porco com uma mão e tomando cerveja com a outra, tem uma cartola preta colocada meio de lado... como um chapéu de malandro. Crianças obesas por lá. É esse o local da imobiliária. Gilda é a corretora mais pilantra que já pude conhecer. Deveria entrar com uma microcâmera e filmar e gravar tudo, depois vender para algum programa policial. O Datena ia ficar feliz comigo. Porém essas câmeras são caras e eu arrumei um gravador de voz. São três da tarde e chegamos lá. Eu, Flávio e o microgravador. Hoje vamos pegar essa pilantra. Quero mostrar o gravador no final da conversa e fazer uma cara de “te peguei espertona” mas o meu sócio me proibiu de fazer isso tendo medo de represálias dos seguranças tipo armário que trabalham lá. Gilda é grande e gorda... com suas tetas e uma bunda completamente disforme. Seu cabelo é alisado ou sei lá o quê. Ela é bem arrogante. Todos os dias anteriores que fui lá, fui usando roupas mais arrumadas. Hoje resolvi ir como um verdadeiro mendigo. Nem escovei os dentes pois queria que ela sentisse meu bafo de merda. Na verdade queria dar um soco na cara dessa vigarista. Mas vamos usar os meios legais para fodê-la. Legais nada... os meios chatos. Legal seria bater com uma cadeira na cara dela.

Entramos... gravamos todo o diálogo... ela nos prometeu uma saída boa e saímos como duas crianças enganadas sobre o Papai Noel. Para comemorar (na verdade nem sabíamos bem o quê) fomos tomar apenas “uma” cerveja... nada mais que “uma” cerveja.

Sempre é o mesmo diálogo na porta do bar: "Uma Antártica... bem gelada". "Olha, só tem Skol e não está tão gelada assim." "Obrigado." Entramos em outro e a mesma coisa: "Uma Antártica... bem gelada... blábláblá". Até que um tinha... Antártica e bem gelada... Ali mesmo Flávio e eu sentamos no balcão e começamos a falar merda. O bar era habitado por cerca de uns seis ou sete tiozinhos bêbados.

A cerveja ainda não tinha acabado quando entrou uma menina linda... uns 15 anos... calça de escola... escola Renascença. Meu amigo Flávio ficou meio maluco com a presença da menina. Começou a me chutar a perna e fazer sinal com os olhos para que eu reparasse na mocinha. Ela era loirinha, branquinha, olhos claros e seus seios ainda não tinham terminado de crescer. A menina cumprimentou todos no bar. Dava a mão para todos os velhos mais alcoólatras. Para nós não... nem sequer olhou mais que três segundos. Flávio estava realmente ouriçado. Não parava de olhar. Flávio: Cara... olha essa menina. Ela está dando a mão para todo mundo... Deve ser filha do dono do bar. Ela é linda! Ih... a última vez que vi você dizendo isso não deu em um final bom... Hahahahaha. Realmente meu amigo estava hipnotizado. Não falava nada com nada. Eu perguntei sobre sua faculdade e ele me respondeu que uma menina com voz de matraca havia pedido sexo oral para ele, depois de um mês, teve herpes bucal ou bocal sei lá. A nossa lolita começou seu jogo maluco entrando no banheiro de mãozinha dada a um sujeito que deveria ter pelo menos 50 anos e era velho e era sujo e era bêbado. Ficamos reparando na porta do banheiro sem acreditar no que víamos. Parados e calados. O tiozinho saiu. A menina ficou lá dentro. Entrou outro. E depois outro. Ela deu pra três caras num banheiro sujo no tempo de trinta ou quarenta minutos... Flávio não podia acreditar nisso. Nem eu podia. A menina saiu do banheiro escoltada pelo último malandro e ganhou um suco de laranja do dono do bar. Ficavam batendo nela com a chavinha do banheiro e ela ria rodeada por uns quatro ou cinco.

Eu num acredito!! Você tá vendo???

Eu parei. É isto que a vida faz com as pessoas.

Ela nem deve ter feito dezesseis...

Acho que é algum tipo de tara maluca.

Só pode ser... ela nem olhou para a gente...

É.

Eu nunca fui bonito... mas esses tiozinhos...

Foda.

Mesmo assim, ela prefere dar para eles.

Tarada.

Maluca.

Putinha loka.

Lolita suja.

Eu vou lá, ó.

Você está maluco, Flávio???

Fica vendo...

Os caras vão quebrar tua cara!!! A puta é deles...

Isto é o que veremos...

O Flávio levantou-se e caminhou em direção da menina. Eu separei uma garrafa vazia para eventual confronto. Não podia ver a expressão dele pois estava de costas, mas via a da menina, olhando para Flávio... ela ria sem graça. Os bêbados que rodeavam a carniça de 15 anos não tiravam seus olhos do meu amigo. Lembro no que pensava no momento, era algo como: ”Esse cara tem culhão! Ignorou todos e as regras locais para foder com uma lolita semimenstruada”. Algumas meninas são magras... mas ela tinha corpo de criança. Chegava a ser brutal pensar em uma menina daquelas dando em uma cabine suja de banheiro.

O diálogo entre eles parecia turvo e complicado. Ela desviava os olhos e abaixava a cabeça. Parecia estar ouvindo uma bronca. Os abutres satisfeitos pouco a pouco debandavam e a carniça ficava cada vez mais à mercê do urubu louco. Porém, ainda acredito que possa acontecer uma catástrofe. Não desgrudo da garrafa. É uma arma. Cheia ou vazia. O cara pegou no braço da garota indo com ela ao banheiro. Era meu último gole da garrafa. Acabou. Psiu psiu... outra breja!

 

Nesses bares, salgadinho não é a melhor coisa. Existe muita gente que fala merda e comecei a prestar atenção nas conversas (quem não faz isso?) tomando a cerveja cheia.

Eaí!

Hahaaa!

Beleza, cara? Quanto tempo.

É, meu! Saí da Fatec há cinco anos.

Puta... eu lembro...

Você está gordo, hein?

Foda. Que é isso aí? O que você está fazendo?

Ah... Esse caderno... contas... vou tentar um concurso para engenheiro de minas.

Eu estou trabalhando como barman. (Mostra sua camiseta escrita Bacardi.)

Sério? Legal. (Por favor... uma coca cola com gelo e limão.)

(Para mim um suco de laranja e um steak <sério... ele disse steak> de frango.) Tô com fome.

Namorando com a Sil ainda?

Não. Terminamos esse ano. Mas já tenho outra! (Tipo orgulhoso).

É? Eu tô sem nenhuma.

Ela trabalha com o Ed Banana na TV. Sabe? Ed Banana?

Sei sei. Tipo caribeño.

É. Ela joga garrafas para cima e pega.

Haha.

Faz uns drinques de suco. Não alcoólicos. Para as crianças...

Legal... Eu iria adorar... Nunca bebi na minha vida! (Orgulhoso também.)

Eu só de vez em quando. Adoro esses de frutas que ela faz... Mas aí misturamos com um pouquinho de vinho suave. Nem gosto de bebida “azeda” tipo vinho tinto...

Eu também não...

Cerveja já acho horrível!

Eu também.

Sabe nas eleições?

Quais?

Governador... presidente...

Agora. Esse ano.

Isso

Lula presidente... Votei no Serra.

Eu fui presidente.

Como assim?

De sala de votação.

Nossa... bem loco, hein?

Flávio sai do banheiro arrumando a calça e o cabelo. A garota ficou. Quando ele passa pelo balcão, o balconista segura em seu braço e o puxa para perto. Está bravo com o garoto. Só vejo a boca mexendo coisas como filho da puta claramente. Caralho... vai ter treta... sabia que não era pro bico dele. Peguei a garrafa discretamente. Mas ele conseguiu tirar o braço das mãos do atendente. Veio até mim a sentou-se, o outro entrou no banheiro. Flávio pegou um copo. Encheu. Olhou para mim. Estava pálido e mexia a mão de um lado para o outro com a palma virada para baixo. Mexia a cabeça fazendo uma negação. Fez isso calado por uns dez segundos.

Sabe uma história do Nelson Rodrigues...

Aquela da mãe da garota?

Não... é uma que o cara liga pro amigo e fala sobre uma mina.

Aaaaaaa batata?

Batatíssima éééééééééééééé

Puta mano... comédia.

A pequena é boa...

Ah não... agora você pensa que é um personagem dele... a pequena é boa... vê se pode.

Não... falando sério... aquela menina...

Você chegou a... .

Você não vai acreditar...

Acho que você enlouqueceu...

A gente acabou não fazendo nada.

Eu parei! O que você fizeram então????

A... só alguns beijos.

Não é você. Trocaram no banheiro.

Foi um beijo maluco... nunca beijei ninguém assim! Aiaaa...

Mas... você saiu arrumando a calça... pensei que...

Tinha mijado antes da sair... ela ficou olhando. Sorria para mim enquanto eu mijava...

Fodeu.

Nessa hora o balconista sai do banheiro arrumando a calça e vem até nós segurando uma faca e uma laranja.

Olha aqui, seus merdas. Fiquem longe da minha Verinha. Entenderam? (Gesticulando com a faca e apoiando uma laranja no balcão.)

Acorda amigo. Eu não fiz nada! É, e ela gostou de mim de verdade cara. Não fiz nada com ela. Apenas dei carinho. (Entra outro no banheiro. Velho também. Carregando um copo.)

Tô avisando... ela é nossa! (Espremendo uma metade de laranja na máquina.)

Tá bom... Traz outra Antártica pra gente.

A menina saiu do banheiro e ganhou mais um suco de laranja.

A segunda-feira amanhecia por volta das duas da tarde. Meu telefone toca e é Flávio.

Alô.

E ai, viado?

Fala, Flávio... beleza?

Não.

Caralho... minha cabeça está explodindo e você ainda fala que tem mais merda... que porra é essa?

Lembra daquela menina... do bar...

Hã?

Estou maluco. Não parei de sonhar com ela. Três dias. Vamos lá comigo?

Não acredito nisso, cara. Você está maluco! Vai tomar no meio do seu cu.

Desliguei o telefone em um movimento seco e forte até a base do aparelho. Foi uma desligada do tipo um plá em vez do clic. Meu amigo experimentou um pouco do meu mau humor e eu fui tomar um café da manhã. Macarrão e uma coca-cola em lata. Só dei umas três garfadas e constatei que estava com o estômago embrulhado. Bebi a coca e fui tomar um banho.

No banho sempre penso parado, em pé, com a água caindo sobre minha cabeça. Lavo meu corpo e penso se preciso lavar minha mente ou meus pesos na consciência. Foi inevitável o arrependimento sobre meu mau jeito com quem havia acabado de me ligar. "Quando sair daqui eu ligo pro Flávio..."

Saí do banho e fui direto secar o corpo. Telefone de novo.

Alô.

Eae, boneca.

Caralho! André! Beleza?

Hehehe, beleza...

Manda.

Que você está fazendo? Ocupado como sempre?

Não... acabei de sair do banho.

Vamos lá no Joaquim.

Agora?

É.

Tá bom... me espera por lá mesmo.

Falou.

Falou, viado.

Eu não sei bem o que aconteceu mas não lembrei de ligar para o Flávio esse dia inteiro. Esqueci completamente. ”Amanhã eu falo com ele.”

“Telefone... uma e meia da manhã. Quem será?” Estava esperando pelo pior, certo de que seriam más notícias. Corri tropeçando em muitas coisas.

Alô. Quem é?

Cara... snif... sou eu.

Flávio? Você está chorando?

Você não podia ter feito aquilo comigo anteontem.

O quê? Cara, o que te fiz?

Desligou o telefone. Não ouviu uma palavra.

Foi mau. Não queria ouvir toda ladainha sobre aquela Lolita maldita.

Eu amo essa menina. Mas não devia ter feito as coisas como fiz.

O que você fez? Onde você está agora? O que aconteceu?

A culpa foi toda sua... tudo culpa sua.

Porra cara! Fala logo. O que está acontecendo?

Eu estou no atelier. Ela está comigo.

Ela está aí?

É. Não vem pra cá não.

Como ela está aí? Você está chorando... liga uma hora dessas... reclama de uma coisa que eu não sei o que é... joga uma culpa de não sei o que em mim e...

Caralho, cara. Você não iria entender.

Olha, eu estou indo aí. Ainda tenho a chave.

Nã...

Desliguei na cara dele. Como eu iria lá se não tenho carro? Agora fodeu tudo. Resolvi tocar na vizinha e dizer que era uma urgência. ”Vizinha gente boa, eu vou tentar.”

Oi Alê...

Oi... (Cara de dúvida ou sei lá o quê... deve estar pensando no que teria acontecido.)

Olha só... é uma emergência.

Nossa... quer entrar?

Não... preciso do seu carro. Depois eu te explico.

Ah... vai à merda. (Plum, bateu a porta.)

Fiquei com muita raiva, mas sei entender coisas que até Deus duvida. Resolvi roubar uma bicicleta e consegui.

Pedalei feito um maratonista e cheguei por lá uns trinta minutos depois. Guardei a bicicleta no subsolo e fui chamar o elevador. Não acendia nenhuma luz. Nem quando está subindo nem quando desce. Nenhuma. Nada de luz. Encarei a realidade: sete andares correndo. Comecei a subir. Quando estava pelo quinto ou sexto, senti um forte cheiro de maconha. Conforme subia o cheiro aumentava. Imaginar o Flávio andando sozinho em círculos com um baseado numa mão e uma cabeça de menina na outra foi inevitável. Não parava de correr. Parecia uma cena de corra, Lola, corra. Mas corra, idiota, corra encaixaria melhor. Parecia um videogame.

Sétimo andar. Até que enfim. Quase tive um infarto e minha primeira ação depois de pedalar e subir essa maldita escadaria foi acender um L&M. O cheiro de erva estava muito forte e, ao chegar na porta do atelier tive certeza de que o cheiro era de lá mesmo. "O que será que esse maluco aprontou?” O silêncio dentro do apartamento me matava de curiosidade. Fiquei parado ali até terminar o cigarro, tentando ouvir alguma coisa.

A última tragada deu coragem. Enfiei a chave bem devagar na fechadura e virei bem rápido. Duas voltas seriam o suficiente para abrir mas tinha alguma coisa atrás da porta. O barulho atraiu Flávio para lá.

Vai embora.

Não, cara... Vamos conversar.

Não toma nenhuma atitude. Promete?

Não. Abre logo esta merda.

Ok.

Ele abriu a porta. O que eu vi ali foi uma repugnante maquinaria cromada. Coberta com pele humana. Flávio estava todo enfaixado e havia sangue pela sala. Ele desmontou tudo do atelier só para fazer uma escultura ou uma merda qualquer. O que tive certeza é que ele estava maluco. Seus olhos vidravam.

Aê, seu burro. Olha o que você fez.

Escultura... é ela.

Cromada? Isto está completamente disforme.

É ela. Minha nenê.

Você já tentou fazer uma escultura antes?

Eu desmontei o elevador.

Cara. Você está maluco.

E a geladeira.

Sobrou alguma cerveja?

A cama...

Aiaiai.

Estante.

Puta, cara...

Uma moto da garagem e a pele é minha.

Notei nessa hora que a pele da boneca cromada era peluda como ele.

O cabelo ainda vou arranjar. Vou cortar da vizinha da frente.

Não tem nada para beber mesmo?

Tem uma pinga. Quer fumar um?

Quero. Vamos conversar. Você está precisando de ajuda.

Espera um pouco. Preciso fazer uma coisa.

Fiquei sentado no chão esperando a próxima atitude. Esperava tudo, até uma atitude lúcida. Ele foi até a cozinha e voltou com uma colher suja de alguma coisa. Aproximou-se da boneca cromada e bateu a colher, dizendo “PARLA BONECA! PARLA!”.

Dormir no atelier é sempre algo como um teste de humildade ou sobrevivência porque não existe nenhum alimento lá. Principalmente depois de a geladeira ter sido desmontada pelo “Flávio delirante”. Acordar em um lugar onde não tem uma privada boa, qualquer merda para comer, nada para escovar os dentes e, o pior de tudo, não ter nada potável (nem água) é horrível. Mas essa noite que passei lá foi normal, tirando a destruição do meu amigo e meus sonhos que são sempre malucos (sempre são), foi normal. O duro é sempre o dia seguinte mas sou craque em dias seguintes. Tirei de letra. Quando acordei, vi o Flávio ainda andando pela casa e resmungando coisas como: Laia... laia. Thcururu ruru ru. Cantarolando! Ele estava cantarolando. Pensei: "Será que ele ainda está acordado ou que acabou de acordar?" Mas o principal é que era ele quem eu via.

Cara... você não dormiu?

Nem um minuto.

Você está bem?

Estou. Levanta logo... precisamos encontrar a Vera.

O quê?

Acorda, cara.

Olha, Flávio, vou levantar pois estou morrendo de fome e aqui é um inferno. Vamos comer logo.

Isso!

No caminho você conta tudo.

Certo. Agora agiliza.

Chegando em uma padaria, pedi um café puro e um pão com ovo. Nós ficamos calados durante todo o tempo que passamos naquele lugar. Fiquei folhando o jornal do balcão. Flávio estava com a barba por fazer e não havia se lavado. Fedia e tinha ainda as ataduras cheias de sangue nos braços. Flávio não pediu nada para comer.

Eu comi bem rápido e guardei o café para o cigarro. Fumei lendo o jornal. Não vou escrever as manchetes porque não convém. Nenhum de nós falou durante todo este tempo.

A rua estava cheia de gente subindo e descendo. Pessoas indo trabalhar. Nós estávamos correndo atrás de uma loucura.

Pegamos o metrô. Estava cheio. Um inferno. Mas esses trens são ótimos. O metrô é a melhor parte de São Paulo. Flávio estava inquieto e não parava de contar seus planos. Nenhum batia com o outro. Eram coisas como "vou tirar as medidas dela para ver se ela cabe na boneca..." ou "vou tentar comprá-la!"

Metrô parou na Tiradentes e saímos rápido. Meu amigo corria e eu corria atrás dele. Esbarrávamos na multidão. Empurrávamos todo mundo. Da porta do trem até o bar da menina foram apenas uns 15 minutos. Chegamos lá e pedimos uma cerveja, foi quando Flávio agarrou na minha camisa. Ele olhava fixamente para um ponto. Segui sua visão e vi uma mulher de vestido preto. Loira e muita maquiagem. Muita maquiagem. Abaixei a cabeça, pensando: “Não toma jeito! Será que vai cortar os braços por esta também?” Mas eu tive um lampejo de sobriedade e percebi que a mulher era VERA. A Lolita dele era uma mulher maluca. Chegou no balcão e falou com uma voz firme, voz de mulher, “suco de laranja, José... estou atrasada para o trabalho.” “Trabalho, Vera? Emprego novo?” “É... analista financeira numa multinacional renomada. Vai logo... sem lenga-enga... tô sem tempo!”

Flávio atirou-se no chão, e, de joelhos, chorou arrancando suas bandagens. Vera apenas olhou para ele e perguntou para mim:

Ele está bem?

Está... ele é assim mesmo.
 
 

 
       

 

     

 

 


 


 

 

Daniel Wiegel
Nasci em Bonn, Alemanha e vim para o Brasil com um ano e meio. Atualmente trabalho durante o dia e escrevo quando tenho tempo, ou seja, quando não estou trabalhando ou bebendo. Dificilmente faço mais de uma coisa por vez, porém o que escrevo é a junção de tudo. Nunca fui bom aluno e não completei faculdade alguma. Evito missas e acredito que não exista nada melhor que um par de belas pernas sob uma saia justa ou belos seios pulando fora do decote... É difícil ou quase impossível passar batido.