Prefácio

 

Existe, de fato, uma espécie de roedor tão articulado que busca mulheres amamentando para se favorecer do seio que sobra. Eles chegam furtivamente e tomam posse, sendo quase que impossível de serem arrancados sem machucar o mamilo.

A presa fica na obrigação de amamentar o animal em um seio e a criança no outro. As mães escondem esta realidade das proles e dos maridos. Só as vítimas sabem. Talvez você já tenha mamado com uma ratazana peluda.

 

Texto

 

Aqueles dias do final de abril estavam ótimos, tirando o trabalho. Tinham me fotografado segurando uma placa escrita “putas caras” para publicar junto com uns textos e eu tinha ficado com cara de durão com aquele cigarro no canto da boca. Segurava uma cerveja na mão, também. Era para uma revista independente onde iriam algumas poesias e ensaios e textos.

Eu andava por aí orgulhoso, cheio e inflado. Pisava em nuvens e já podia me imaginar escritor: todo dia bebendo, acordando tarde e mandando meu chefe catar coquinho.

Tinha recebido cerca de quinze mil reais em comissões e comprei um carro, um Tempra 94 que custou nove mil. Depois de um mês o carro fundiu e tive que consertá-lo gastando mais três mil e uma semana depois tive que arrumar a suspensão gastando mais dois mil. Bem, ainda tinha mil e um amigo que me odiava, pois sempre quebrava. Era uma bosta, mas gostava dele.

Já estava há um ano na empresa e seis meses sem mulher nenhuma. As épocas de seca são horríveis. Não desejo para ninguém. Você começa a atirar para tudo quanto é lado. Nada escapa. Num desses tiros, conheci uma garota na Internet. Só as fotos. Era linda. Uma bailarina de um programa de televisão que passava aos domingos de tarde. Cobrava duzentos paus por duas horas, às vezes três conforme disse por telefone. Era uma bela quantia, mas resolvi conferir. Pense: já que é para gastar, que seja bom e que valha a pena. Foi a pior cagada do mundo ter ido lá. Fiquei apaixonado por ela e era como uma droga cara. Passava os dias pensando em nós dois, casados. Eu escrevendo, um belo escritor conceituado e ela uma ex-dançarina deliciosa e ex-puta bem-sucedida. Na verdade, ela foi a melhor mulher que conheci. Ela me ouvia, tratava-me bem e não ligava se eu estivesse um completo pau d’água. Eu a admirava, gostava do seu cheiro, do seu rosto, do seu sabor e da sua total inocência. Ela era inocente. Era um anjo, uma freira sem pecados e vivia sozinha e chorava às vezes e não tinha família, não vestia aquelas armaduras que colocamos para esconder nosso interior. Ela era seu interior, era meu interior. Todo meu amor para a santa prostituta chamada Danielle.

O dinheiro foi acabando e eu já não podia fazer tudo o que queria. Tinha que começar a me limitar. Mas sempre foi assim. Com a Dani, falava ao telefone e ela perguntava se estava tudo bem. Um dia ela chorou ao telefone, chorou para mim que estava do outro lado. Parecia uma criança. Aquilo doeu fundo, apertou meu coração. Por que ela chorou para mim? Ela confiava em mim? Eu merecia aquelas lágrimas? O problema era a morte de seu pai com quem ela não falava havia cinco anos. Conversei e combinamos que eu iria lá em sua casa. Eu levei uma pizza e um Concha y Toro para aliviá-la. Ela chorou mais ainda... abraçada a mim. Não parava de chorar. Deus do céu!

– Mora comigo?! Fica comigo – disse, e ela aceitou.

Abril se foi e chegamos ao mês de maio. Ela me acompanhava em tudo. Foi comigo ao lançamento da revista, assistia televisão enquanto eu teclava novos contos na sala ao lado, ia comigo ao trabalho alguns dias e tinha deixado de ser puta.

Eu estava mandando algumas coisas para editores e um dia chegou um e-mail de uma tal de Marta Andrade. Marta era editora e pediu que eu escolhesse cinco contos para serem publicados em uma coletânea. Fiquei muito feliz. Quem escolheu os contos foi ela, a Dani. Nós explodíamos de tanto amor. A gente trepava durante quase todo meu tempo livre. Eu ganhei três mil e quinhentos pelos textos. Pronto, era tudo perfeito, tinha um amor e um sonho realizado. Pedi demissão no dia seguinte.

Agora era oficialmente escritor. Remunerado pelo minha produção. As malditas nuvens carregadas tinham ido embora e um belo céu azul pairava sobre mim.

Os dias foram indo assim, escrevendo e amando. A natureza tinha criado um presente para a humanidade e ele era só meu. Os meses correram, as páginas do calendário foram sendo viradas e as novelas que Dani assistia foram acabando e, no lugar, começavam outras. Dani engravidou no mês de outubro, quero dizer, foi em outubro que soubemos. Sua barriga foi crescendo. Meu carro vivia quebrando.

Quando passaram os meses da gestação e a data do nascimento foi chegando, fomos à uma médica para um check-up de rotina. Tudo perfeito. Marcamos a cesariana e esperamos confiantes. Seria em maio. Perto da data, Dani morreu sangrando na nossa cama. Nosso filho morreu também.

Após o enterro, muito simples e somente comigo presente, peguei meu carro e completei a água que pingava freqüentemente e fui ao mercado. Comprei cinco cervejas para mim e água mineral para ele. Bebemos juntos nos corredores do estacionamento do mercado. Eu chorava e ele pingava água.

 

São Paulo
6 de setembro de 2004

 
 

 
       
     
 

 
       
       
   

Normalmente, as segundas-feiras de verão em São Paulo carregam uma chuva enorme de alagar as Marginais. O mesmo acontece na época do Natal e Ano Novo. Nesta segunda a bandeira do Jóquei Cidade Jardim estava a meio-pau e, fora a chuva corriqueira, isto não seria o único diferencial.

Madbeat, Mota, General e Tim resolveram apostar as calças na prostituta filha da égua Lark Luciana. Sempre as éguas estragam tudo de bom que um homem pode ter. Aposto que o presidente morreu nas mãos de uma.
 
 

 
       
     
       
       
   

A chuva em São Paulo é forte no verão. Sol... Sol... Depois chuva infernal. Quarta-feira, junto com a chuva e seus trovões, ouviam-se tiros de revólver. Era o imbecil do Marquinhos puto da vida por ter perdido sua garota para um pintor famoso. Marquinhos era um cretino viciado em crack e tentava acertar baratas com seu 22 cano cerrado. Quando a polícia chegou a chuva estava no auge. Já era noite, pouco depois das oito. As luzes dos faróis causavam um efeito de cor em sua cabeça. Parecia uma boate ao ar livre. Marquinhos colocou o 22 na cabeça e atirou. Ele não morreu e vive numa cama alimentado pela mãe. O único movimento dele é para apertar aquelas bolas idiotas. A mãe dele dá comida na boca e prepara suas cachimbadas de crack para evitar convulsões no debilóide. Marquinhos, seu filho da puta... queime no inferno com um tridente no cu.
 
 

 
       
     
 

 
       
       
   

Isabel... você é a coisa mais bonita que eu vi na vida.

Mentira (inclusive o coelho que meu tio matou e pôs no jantar quando tinha apenas cinco malditos aninhos... um bebê cagão...)
 
 

 
       
     
 

 
       
       
   

A música não parava dentro do meu Galaxy 73. Azula. A garota do meu lado não parava de mexer no meu corpo. Ela era bonita e tinha resolvido dar uma carona. Esperava sexo grátis. Muitos fazem isto. Dão carona para as putas esperando sexo na faixa. No farol da Augusta com a Paulista ela pulou fora do carro e fugiu. No começo não liguei, mas aí vieram alguns pensamentos depressivos. Parei num posto de gasolina para abastecer e fui comprar uma cerveja e um Marlboro. Eram três da matina e eu estava de terno, como de costume. Queria impressionar alguém.
 
 

 
       
     
 

 

 
       
       
   

Sou um pintor famoso. Tenho um atelier próximo da Paulista e moro com uma garota mexicana de 15 anos. Chama-se Perla e seus peitinhos cresceram mais neste ano. Perla trabalha na frente de uma loja de conveniência. Eu estava bebendo quando ouvi a gritaria lá embaixo. Olhei para saber o que era e vi um garoto com uniforme de loja de conveniência berrando Perla! Perla! O garoto tinha um pacote. Ela saiu pela janela e mandou o garoto embora. Não sei quem ele era mas fiquei com ciúmes. Ouvi tiros. Três tiros, para ser preciso. Olhei de novo e o garoto estava morto na rua. Tinha polícia ao lado do corpo. Foi a polícia que atirou. Ao lado do garoto tinha um ramalhete de rosas caído.
 
 

 
       
     
 

 
       
       
   

Todos os dias eu a via. Bonita. Seu corpo sempre foi insinuante. Suas roupas sempre delineavam a escultura mais bela que já pude contemplar. Morena, porém sua pele clara como a cor branca mais pura, seus cabelos cacheados pela altura dos ombros ou um pouco mais eram algo que realmente me atraía. Seus olhos negros puxados faziam-me chorar pitangas para qualquer dos vagabundos que me acompanhavam. Eu até tentava maneirar na bebida perto dela, mas ela bebia muito, fato que causava-me uma liberdade custosa de aceitar. O perfume dela era o cabelo. Seu nome: Isadora. Isadora...

A garota de vinte e poucos não parava de tomar vodca pura ou cerveja. Eu sei que ela dançava com os piores tipos. Sempre me disseram que ela era um espécie de frígida. Uma viciada em drogas. Todos os dias, estava pontualmente às 11... meia-noite no buteco. Uma menina de classe. Um docinho de pessoa.

Conheci mais de vinte vadias em bares. Vadias mesmo. Cadelas sanguinárias capazes de matar por bebida ou trocados. Cadelas capazes da colocarem o papa João Paulo segundo ajoelhado na frente de uma latrina imunda pronto para chupar uma buceta suja e mijada. Isadora era diferente, ela tinha seu jogo próprio. Isadora jogava boxe e era filha de espanhóis. Isadora cheirava a salvação, além de outras coisas mais.

A primeira vez que a vi, ela vestia uma saia curta, coturno, meia-calça de xizinho (aquelas... sabe?) e uma camiseta vermelha e justa do ramones. Nesse dia ela tomava vodcas... uma atrás da outra. Lembro de tê-la visto pedir umas quatro ou cinco para o garçon. O fato que mais marcou à primeira vista foi seu rebolado e o jeito que ria para suas amigas. Isadora sempre estava com elas, um batalhão feminino pronto para derrubar Bush ou Saddan. Existem mulheres de peito, Isadora era mulher completa. Nessa época, foi quando comecei a vê-la e foi quando tudo começou. Foi quando começou o meu declínio.

Raramente ela olhava para mim. Ficava concentrada nas suas loucuras que até então não imaginava. Quando ganhava um olhar, por mais rápido que fosse, ganhava um round contra a moça. Pensar em uma aproximação era nocaute. Mas os dias correram... a vida mudou... suas amigas foram embora e sua droga acabou. Isadora continuava ali. Invicta. Lutava contra Orloff e Smirnoff. Eu lutava contra minhas próprias bolas que não paravam de doer perante a campeã. Para aliviar as tensões, aproveitava a imagem fresca e usava o banheiro do bar para bater uma rapidinho. Lembro-me até de uma vez que a própria fonte de imaginação tentou abrir a porta do banheiro. Eu estava com o pau duro na mão. Caso ela abrisse a porta, eu seria capaz de tudo. Eu mostraria meu pinto para ela e diria “Isto é culpa sua... tá vendo??? Tá vendo como ele está envergado??? É culpa sua!!!!” ODEIO FLASH DE COLA.
 
 

 
       

 

 

 

     


 

 

Daniel Wiegel
Nasci em Bonn, Alemanha e vim para o Brasil com um ano e meio. Atualmente trabalho durante o dia e escrevo quando tenho tempo, ou seja, quando não estou trabalhando ou bebendo. Dificilmente faço mais de uma coisa por vez, porém o que escrevo é a junção de tudo. Nunca fui bom aluno e não completei faculdade alguma. Evito missas e acredito que não exista nada melhor que um par de belas pernas sob uma saia justa ou belos seios pulando fora do decote... É difícil ou quase impossível passar batido.