|
|
|
Há coisas em minha vida das quais eu não guardo memória ativa. Especialmente dos tempos em que morei nas ruas de São Paulo. Foi um tempo duro e, segundo uma antiga psiquiatra, é natural que se formem bloqueios sobre coisas que não conseguimos administrar. Entretanto, vez por outra, um “gatilho” dispara alguma coisa e eu me ponho a lembrar de detalhes, reminiscências e até mesmo de eventos inteiros... Mesmo agora, enquanto escrevo sobre isso me veio à memória o porquê desta cicatriz na minha mão direita... Mas isso é coisa que não vou detalhar posto que me faria corar... Estou com um projeto em andamento lento: um livro. Minhas memórias, escritas a quatro mãos com o apoio de Marcelle, que está tornando possível um sonho, o livro. E foi numa conversa por telefone com ela que este gatilho disparou e eu me lembrei de Vera. De Vera e de muitas outras coisas. O fato é que depois de aproximadamente quatro anos nas ruas (dos doze aos dezesseis), eu atingira um elevado grau de sofisticação para um habitante das ruas. Fazia alguns bicos no mercado municipal e descarregava alguns caminhões. Isso me dava uma compleição física avantajada para a idade. E me rendia alguns trocados; não era muito, não era o bastante para alugar um quarto de pensão. Daria para uma vaga. Mas as vagas para diaristas são como ratoeiras e eu preferia dormir na rua, com minha gangue, a correr alguns riscos onde o menor seria acordar e se descobrir sem sapatos... Tomava banho na rodoviária, ou pagava pelo banho em algum hotel de quinta; algumas garotas de programa lavavam minhas roupas em troca, sempre, de alguma coisa e eu vivia relativamente bem. Tinha algumas brigas, noites passadas em distritos (fui um habituê do Terceiro Distrito na rua Aurora, sempre para averiguação ou vadiagem...), tinha alguns problemas de convivência e, naturalmente, não escapava da selvageria das ruas. Mas saía quase sempre ileso e, quando não saía, a Santa Casa era muito útil, apesar das perguntas. Foi nesse tempo, gozando de ampla liberdade e de uma boa aparência, que descobri uma discoteca chamada Toco lá na Vila Matilde onde era um desfilar-sem-fim de patricinhas e mauricinhos que podiam pagar para entrar. Mas muita gente ficava de fora, casa cheia, ingresso alto, curtindo a noite ali mesmo. Excelente campo para caça, afirmo. E foi ali que conheci Vera, que é o escopo deste pedaço de minhas memórias. Vera era cinco anos mais velha que eu e, sinceramente, não sei como a conquistei.
Só sei que ela me deu telefone, endereço da escola e seus horários. E malhávamos. Naqueles tempos, o termo era “dar um malho”. E malhávamos bem, por sinal... Eu ficava com ela desde a saída da terceira aula até a hora do último trem. Isso se repitiu por cerca de um mês. Até que veio o dia fatídico: de repente ela me perguntou: “Cláudio, quais são suas intenções comigo?” Que poderia eu, com 16 anos, morador de rua, responder? Hoje eu sei a resposta. Mas na época eu não sabia e disse, pura e simplesmente: “Estou aqui, gosto de você.”
Sabei jovens que estar aqui e gostar de você não são motivos fortes o bastante para cimentar uma relação. É preciso bem mais e no dia seguinte Vera se afastou de mim para nunca mais voltar. Ontem, sonhei com ela. Sonhei que ela estava vestida com uma de suas saias, linda, caminhando, partindo, para nunca mais voltar. E no sonho eu constatava isso, que ela não mais voltaria, que eu não mais a veria, que eu não mais a beijaria, que eu não mais a tocaria, que eu jamais a possuiria... E essa consciência, recém-adquirida no sono, me trouxe, em lágrimas, para a vigília. Levantei-me, tomei um copo de vinho, brindei à Vera às três da madrugada e pedi silenciosamente que me perdoasse. Que me perdoasse pelo sonho desfeito. Espero, Vera, de coração, que você tenha conseguido encontrar algo melhor e mais sábio que eu e que ele tenha te dado a resposta certa, que, a meu tempo, seria esta: “Vera, eu sou jovem, e você não sabe, mas eu moro na rua. Me viro como posso e mato um leão por dia para poder estar aqui com você. Você tem sido, para mim, alívio, porto e esteio e, de alguma forma, sinto que começo a te amar. Mas, Vera, compreenda, eu ainda não posso te prometer nada, pois nada tenho e tudo me falta; não me falte você também, suplico com humildade. Vera, pudera eu e faria vida contigo; namoraria, noivaria, casaria e formaria família com filhos, netos e bisnetos se nos fosse dado viver para tanto; mas, Vera, eu não posso te prometer nada. Só posso pedir. Pedir que não vá, não agora, pois só tens me dado alegria e felicidade, muito embora eu ainda não compreenda bem estes conceitos... Assim, Vera, eu insisto em que não me abandones, por favor, e me permita lutar para tentar realizar tudo isso que eu disse que gostaria de fazer... Sim, Vera, sim, você pode, com sua simples presença, tornar este menino de rua em homem e este homem, em contrapartida, certamente a realizará como mulher”. Se eu tivesse dito isso talvez ela fosse embora, talvez ela ficasse. Se ficasse, minha vida teria sido outra e eu não estaria aqui, agora, perto do Horto Florestal, escrevendo a esta hora da noite. Estaria em outro lugar, não portaria HIV, não teria conhecido Gabi, Cecília (Cecília, vou te amar por toda a vida, exatamente como te disse ao telefone, poucos dias atrás) e tantas outras. Mas, possivelmente, teria sido feliz com Vera. Ou não. O futuro-do-pretérito a Deus pertence e nós nunca saberemos como seria se não fosse. Se você me lê, Vera, e consegue reconhecer-se nesta história, saiba que eu guardei você em meu subconsciente por 24 anos e ao lembrar de você a sensação é de perda e de luto, como em quase tudo em minha vida.
E, sinceramente, me perdoe. |
|||
|
|
|
Segunda feira foi dia de analista. E eu estava um bocado perturbado com o relembrar-me de Vera. Ficou uma sensação de elo perdido, um leque de possibilidades inexplorado e, enfim, por conta da minha imaturidade se criou um abismo. Cheguei ao consultório atrasado, mas mesmo assim dei o texto anterior para Éline ler. Ela leu e conversamos. Aí ela me demonstrou que eu ainda interpretara mal os fatos. Não fora um relacionamento meramente sexual. Se assim o fosse, ela não me perguntaria sobre minhas reais intenções para com ela. E não se afastaria por eu não ter dado a resposta adequada. Por outro lado, observando-se a mim e à tristeza com que eu narrava os fatos e a dor que senti na época (era um tempo em que eu era orgulhoso e não clamaria pelo amor de uma mulher. Hoje, bem, as coisas são outras...) e saltava à vista que eu encontrava nela um verdadeiro suporte emocional que me dava carinho, atenção, colo e até mesmo sexo, dentro das limitações impostas por Vera e que eu acatava silenciosamente. Isso tudo era bom para mim e a perda da época, reeditada muitas vezes até um passado recente e doloroso, impõe limites à minha capacidade de ação. De certa forma, eu diria, o medo de novas perdas tem sido a bússola de minha vida. Péssimo norteador. Baseados no medo é que cometemos os mais graves equívocos. E no desespero decorrente desses equívocos vêm erros clamorosos que eu jamais poderei confessar. Nem mesmo à Marcelle, minha escritora. Carregarei alguns destes erros em minha consciência para o túmulo e para além dele. E junto com eles a vergonha. Há algumas pessoas que eu não posso olhar de frente, não posso sustentar o olhar. E tudo isso se fundamenta no terror de cometer mais um erro como o cometido com Vera. Com Vera eu não disse a coisa certa. Com outras não agi corretamente; com algumas tergiversei sobre a verdade; outras eu iludi; algumas eu aniquilei emocionalmente; sempre com medo de perder... E com o medo de perder me servindo de bússola o que mais tenho feito é perder e perder; e perder mais a cada dia. Por isso estou me despojando deste medo. Se eu errar, terá sido porque não estou preparado, como não estava ao tempo de Vera, para enfrentar determinada situação. E, portanto, não haverá culpa, apenas imperícia. Como se eu fosse surpreendido por algo inusitado e ficasse paralisado. Só que medo, não mais. Daqui para frente vou encarar as coisas de outra forma, sem medo de ser infeliz, buscando ser feliz.
Esta, penso eu, até agora, é a maior lição que Vera me deu. |
|||
|
Claudius |