Mais tarde, ela iria saber: viveria momentos bem mais importantes. Não naquele dia. Vaidosa, com a ajuda da mãe prendeu os cabelos com um arranjo de flores brancas. A igreja lotada a olhava. Era a sua primeira comunhão. Meninos e meninas andavam na sua frente, segurando velas e entoando músicas católicas. Ela apenas fingia cantar. Rabo de olho, procurava identificar os convidados.

A mãe da Juliana, o pai da Catarina, a irmã da Marieta, todos presentes. Ao lado, viu o irmão do André. Todos sorriam com vontade, menos ela. Até que tudo terminasse, inexpressiva. Por que estava participando daquela festa? Quem acreditava que ela amava Cristo? De qualquer modo, deixou as mãos para trás, balbuciou um “aleluia, aleluia” e continuou a rodar o pescoço de um lado a outro, procurando-o.

Na sacada do segundo andar da igreja, localizou a mãe, as tias, a avó, alguns primos. Só então deu um primeiro sorriso. O olhar seguiu até o final da sacada, ainda não o localizara. Conferiu do outro lado. Nada.

O padre os abençoou. As crianças se retiraram de modo ordenado, fila por fila, dezenas de meninos e meninas, obedientes como boas ovelhas do Senhor. À saída, ela decidiu: jamais se casaria na igreja.

Desceu as escadas de mármore observando o vitral colorido onde Jesus expunha sua agonia na cruz. Aguardaria a família e as congratulações no andar debaixo. Rodopiava sem saber bem onde colocar as mãos, quando um homem sentado num banco antigo de madeira a chamou, e a fez sair em disparada.

Seu pai a beijou com muito carinho e ofereceu-lhe um presente: uma caixinha pequena de veludo azul. Dentro, havia um crucifixo de ouro. Ela o abraçou e até desejou fazer comunhão de novo – só para ele assistir. Agora estaria pronta para receber a exultação dos parentes. E, quem sabe, até o amor de Cristo.
 
 

 
       
     
 

 
       
       
   

A frustração era minha.

Vi um menino magro sentado num capô de um carro vermelho e moderno, próximo a um campo de futebol, brincando com um caleidoscópio. Girava em pequenos movimentos o instrumento cilíndrico e parecia que suas emoções rodopiavam no mesmo ritmo dos fragmentos móveis de vidro colorido do fundo do caleidoscópio. De longe, eu imaginava as imagens.

Os outros garotos jogavam bola e gritavam, mas o menino de corpo esguio mudava as caretas e não largava seu objeto de admiração. Encostei-me a seu lado tentando uma aproximação e arrisquei perguntar, fingindo desconhecer o instrumento, o que era aquilo que ele tanto olhava.

– É um tubinho que muda as paisagens lá dentro – respondeu-me, sem dar muita atenção.

Estranho como situações comuns nos deixam, por vezes, sem graça. Senti-me mais infantil que o menino e tão pequena por tentá-lo enganar, sem nem ter mais o que comentar. Olhei para o prédio em frente, de onde aguardava, ansiosa, a saída de uma amiga. Quando ia ensaiar um "tchau" para o garoto e mudar de lugar por estar em absoluto desconforto frente a uma criança que sequer notara minha presença, ouvi a oferta:

– Quer dar uma olhadinha? Mas tem que ser rápido.

– Claro – aceitei e espiei rápido, pois percebi seu medo ao me oferecer seu "tesouro", como se meus olhos fossem capazes de roubar aquelas criações que tanto o fascinavam.

Devolvi o objeto àquelas mãos puras e finas compartilhando sua alegria com um sorriso. O retorno veio num olhar brilhante de quem veria muito mais lugares e coisas especiais como naquele momento. Minha frustração ganhava uma solução:

Olhar um caleidoscópio é sempre olhar o novo. E eu acabara de conseguir escrever na mente estas linhas sobre o caleidoscópio que me é a vida.
 
 

 
       
     
 

 
       
       
   

Havia um desejo constante em sua vida: que os dias fossem sempre como aquele. Ensolarados, azuis e silenciosos ao extremo. E que um vento calmo a tocasse discretamente entre uma pincelada e outra. Como uma criança no parque, assim vivia a pintora. Cercada de pincéis, vestindo roupas sujas salpicadas de tinta. Pés descalços, calça jeans, camiseta branca colorida de tinta. Pegadas de tinta pela casa. Quem pode viver feito criança hoje? No braço, ela tatuou o nome do filho; nos olhos, o amor pela vida (ela não sabe, mas fez isso).

Já o homem, que andava triste pela vida, quase empurrado por força divina, precisava de mais cor. Ele chegou em casa e, como de costume, tirou o terno preto, a camisa social branca e a gravata vermelha. No armário, observou a sintonia das cores e estilos de suas roupas. Monotonia. Olhou no espelho a barba grisalha, mas nem precisaria ter observado tanto sua casa, suas roupas, seu rosto – ele inteiro. Já havia decidido: bastava pendurá-la com resolução no melhor lugar da casa. Então, resolveu. “Aqui, bem em cima do sofá, de frente para a poltrona vermelha – meu canto predileto.” E a pendurou.

O decidido era uma tela amarela da pintora. Mas assim, de um amarelo difícil de ser definido. Não se trata de um amarelo sol, nem de um amarelo “cheguei”. Amarelo manga é filme. Aliás, filme pesado, carnívoro, humano demais para uma cor como a do ouro. Talvez a tonalidade que desejo definir seja amarelo-vivo-meio-folha-seca no verão. A cor é forte. Agora, ele se sentia definitivamente ligado à pintora – brincadeirinha fora de hora: amar o elo.

O homem habituou-se a sentar-se durante horas, ouvindo qualquer música – não presta mesmo atenção, já que se apaixonou, enquanto a tela amarela o observa. É a tela que o observa. Às segundas ele acende uma vela à pintora: é que ela vive indo embora.

Quanto ao amarelo, confesso: é um amarelo-texto mesmo.
 
 

 
       
     
 

 
       
       
   

Adélia não gostava de festas juninas. Mas gostava de pular fogueiras. Tinha horror aos amiguinhos dançando quadrilha, todos fantasiados, com aquelas roupas ridículas, maquiagem de bolas vermelhas nas bochechas. E ainda havia aquela música insuportável para seus ouvidos. Era uma menina diferente. De fato, não ficaria bem vestida com roupas caipiras. Adélia ardia: de raiva, por amor, com humor, de vida. Seu rosto inquieto corria o pátio inteiro, imaginando a distância para pular a fogueira. Seu único interesse nas festas juninas era pular fogueiras. Não queria ser a noiva da quadrilha, nem participar da pescaria, mas sim chamar atenção porque pulava a fogueira.

Durante algum tempo acreditou que sua única dificuldade na vida seria pular fogueiras em festas juninas. Os estudos iam bem, a convivência familiar agradável, amigos idem. Ganhava os presentes que desejava. Se não os ganhasse, também não ligava. Às vezes não tinha o que fazer e, como era fria a cidade em que morava, distraía-se pondo lenha na lareira. Inventando novas chamas. Ajudava com prazer o pai na tarefa de esquentar o lar.

Uma série de fogueiras começou a apagar na sua vida. A primeira foi o cão. Depois o tio. Anos depois a mãe. O emprego. E tantas pessoas, e coisas, e lugares. Não conseguiria mais juntar lenha para sua fogueira. Lume na imaginação. Envelheceu. Não conseguia mais superar um obstáculo. Esfriou.
 
 

 
       

 

     


 

 

Alessandra Archer
Carioca, graduada em jornalismo e escritora por paixão.