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A moça branca sacode os longos cabelos de fogo. Passa as mãos magras sobre o rosto suado e suspira demoradamente, olhando através do vidro da grande janela do quarto. Tarde larga, céu de chumbo, com pingos ácidos debatendo-se ferozmente contra o vidro embaçado. Suas mãos largadas sobre os seios pálidos. Um flash de dente branco aparece às vezes, num meio-sorriso. Ouve ao longe uma canção estranha, algo que a faz pensar em grandes ondas arrebentando em pedras. Mas está longe, muito longe do mar. A grande cama barulhenta, os lençóis brancos, um pouco sujos e amassados, a bacia de porcelana lascada sobre o criado-mudo com um pouco de água limpa. O quarto pequeno, as paredes com a pintura descascada. Um gato deitado sobre a poltrona velha no canto a observa com preguiça. Então a moça branca dá um gemido mais forte, as mãos crivadas nos seios, a boca enche-se de saliva, os olhos cerrados e o suor banha-lhe o rosto e o corpo. Reza em voz baixa. Vagarosamente sai de dentro dela algo. Algo pequeno e barulhento. Com cabelos de fogo também. Um pequeno ser, com a boca escancarada de onde ecoa o choro estridente. A moça sorri. Gargalha. Passa as mãos com um carinho imenso pela pequena criatura, acomodando-a contra si. Seus olhos transbordam de lágrimas e de luz. Abraça-a ainda ensangüentada e a coisinha emudece, sugando-lhe os seios muito brancos. Da porta de madeira entreaberta um homem de aparência rude observa a cena com as grandes mãos cheias de calos a segurar um terço antigo. Oculta os soluços dentro do peito rasgado de vida.
1988 |
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Quando te vi, vi antes um pedaço do seu olho, meio assim de perfil. Vi um olho. Parecia ser escuro, mas ao mesmo tempo parecia que daquele pedaço do seu olho que eu vi, saía uma luz tão grande que na hora praticamente me cegou. Nem consegui terminar a frase que eu dizia para aquela moça magra de vestido vermelho. Fiquei ali parada. Olhando. Era uma festa assim meio boba, dessas onde não se conhece muita gente e se fica encostado num canto, com um copo de uísque entupido de gelo, olhando o movimento dos outros. Ou seja, era uma festa onde quase não se divertia. Mas tinha homens bonitos. Olhei pra todos, mas só vi você. E você não era tão bonito como os outros tantos homens. Mas aconteceu que eu vi aquele pedaço do seu olho escuro cheio de luz e não vi mais ninguém. Fiquei ali, tentando ver um pouco mais de você. Você estava sentando na beirada de uma janela, onde atrás tinha uma lua imensa de verão e conversava com alguns homens bem vestidos. Mas você não tinha nada a ver com eles. Parecia estar em relevo, e todos os outros eram parte de um cenário apagado. Você tinha os cabelos compridos e escuros e usava um jeans meio surrado, uma bata meio indiana de um azul profundo. Você gesticulava muito com as mãos e escancarava a boca fazendo ecoar uma risada escandalosa pelo ambiente. Seu cabelo solto balançava um pouco com a brisa que a noite de verão mandava entrar pela janela. Eu sorri sozinha ao ver você com aquele jeito de menino, no meio de pessoas finas e pedantes que bebiam uísque. E você não era fino, nem pedante, e era o mais iluminado dentre todos aqueles homens elegantes. Olhei para mim por um momento e me senti quase como uma traidora, usando aquele vestido preto e decotado de seda, a sandália altíssima e o batom vermelho. Eu, que antes de sair para a festa me olhara no espelho e me achara bonita e sexy, agora me sentia envergonhada diante da minha cumplicidade com aquela festa cretina. Fiquei ali, com o gelo derretendo dentro do meu copo e o olhar colado na sua figura peculiar. Você não me notou por muito tempo. E eu ali, parada, te olhando. Então alguém chegou até mim e fui dançar. E aí aconteceu. Entre um movimento do meu corpo e uma risada e outra, seu olho escuro cheio de luz me espetou. E foi como uma facada. Dois olhos escuros se esfaqueando numa festa boba, numa noite quente, ao som de Bob Marley, com uma lua enorme na janela. Um homem moreno selvagem e uma mulher branca de vestido impecável. A facada. A dor. Sei que você também não viu mais nada depois disso, porque a luz dos seus olhos escuros agora eram duas luzes. Os meus e os seus olhos. Eu movia meu corpo, mas era como se a música não me tocasse. Eu dançava ao som dos seus olhos. Então você parou de falar. Os outros continuaram. Acomodou-se melhor na beirada da janela e por nenhum momento mais desviou seus olhos dos meus. Um olhar pleno. Vendo meu corpo através do vestido. A calcinha preta, meus pêlos, meus poros, meu rosto lavado. Via minha alma. E eu a tua. Ficamos muito tempo assim. Então parei de dançar e fugi rápido procurando um canto neutro para me recuperar daquela estranha sensação. Achei uma outra janela um pouco mais afastada e ali fiquei. A lua estava linda e eu louca. Distraída, senti de repente um cabelo encostando no meu ombro nu e não me virei. Fechei meus olhos e sentia você atrás de mim. Sua respiração morna no meu pescoço e sua coxa encostada no meu corpo. Arrepios. Longos minutos passamos assim. Devagar você então me virou e novamente aquelas duas luzes dos olhos se encontraram e se esfaquearam.
Você, muito calmamente, me disse, me encarando sem piscar: “Eu te conheço.
Sempre te conheci. Tem uma lua linda lá fora e eu vim a esta festa boba
porque sabia que você estaria aqui e que me esperava. E você sabia que eu
estava aqui, assim que me viu. A gente se viu e seus olhos têm uma luz,
apesar de serem escuros”. Me agarrei no seu cabelo e você me arranhou as costas. A festa acabou para nós. E a lua continuava ali, viva, como que pendurada no céu. E a noite terminou como era óbvio que terminaria, porque você era selvagem e eu muito branca. Essa festa aconteceu já faz muito tempo... muitas luas surgiram na tela preta das noites de verão, e em todas elas, ano após ano, brindamos com uísque aguado uma história de amor que deu certo.
1996 |
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Alessandra Mascarenhas |