Sou e acredito que sempre serei defensor da uma impressa livre e independente, por conseqüência, contra qualquer tipo de censura. O mesmo se aplica à produção artística e literária. Até este ponto não há muitas divergências, as afirmações são de quase absoluta unanimidade, principalmente entre os produtores culturais e assemelhados. Dificilmente veremos um intelectual defendendo atos e censura e controle da produção literária, de jornais e demais periódicos.

A questão é que vivemos nos princípios do século XXI, um dilema aparentemente sem solução. Comunicação de massas e entretenimento “cultural” se confundem, onde começa a informação e onde termina a diversão. Tudo é um grande espetáculo. Há um outro fator importante, tudo isso se tornou um grande negócio, envolvendo grandes lucros e o obvio interesse de grandes corporações, que por sua vez estão nas mãos de grandes conglomerados econômicos, que constituem um grande poder e compra e decisão, que em muitos casos supera o poder político, quer diretamente financiando as campanhas de políticos profissionais, quer indiretamente manipulando a opinião pública, apoiando ou espezinhando este ou aquele governo.

A notícia estampada na primeira página ou no horário nobre da televisão derruba mercados e governos, nem sempre em interesses populares. Depois o desmentido ou errata, quando existem, figuram em uma nota de rodapé, no meio de um caderno qualquer. Nada conserta o estrago feito, reputações são construídas e destruídas, esquecimentos são induzidos.

Sejamos sinceros e deixemos a hipocrisia de lado, as decantadas democracias ocidentais só existem porque os ricos o querem assim, no dia que amanhecerem com uma “dor de barriga” autoritária e totalitarista, como já ocorreu no princípio do século XX, estas acabarão num estalar de dedos, e muito pouco ou nada poderá ser feito para evitar, estamos numa grande ratoeira chamada “mercado”, onde tudo tem um rótulo com um preço, inclusive a consciência coletiva, como numa ratoeira pensamos que podemos pegar o queijo, mas a armadilha desabará sobre nosso pescoço a qualquer momento.

Alguns clamarão, existem leis, existem freios jurídicos contra abusos, a Constituição nos garante direitos fundamentais, Cristo dizia que é mais fácil um camelo passar por um buraco de agulha e digo que conheço poucos ou nenhum rico amargando cadeia. Não estou afirmando que toda a justiça seja venal (embora que em meu foro intimo não tenha nenhuma dúvida), mas existem dispositivos legais infinitos para quem tem bons e os melhores advogados. A parcela que detém os meios de produção e o mercado financeiro só apoiará o estado de direito e as leis para persistir do direito a propriedade privada, qualquer lei ou outro documento que se opuser a esta lógica vai virar papel higiênico, que embora tenha um importante papel saneador, convenhamos que é um destino pouco nobre para o papel.

Temos aí portanto o paradoxo, que no momento mais democrático que o mundo tem vivido, nos deparamos com alguns questionamentos sem necessariamente termos uma resposta satisfatória. Existe de fato uma impressa livre e isonômica em condições de poder tão desiguais? O que nos garante que a opinião pública não está sendo permanentemente manipulada? Pode um grande jornal publicar uma notícia, que vai melindrar o cliente com a gorda conta publicitária, quase a razão de ser destes órgãos de imprensa atualmente?

Aparentemente, até inocentes e inconseqüentes talk-shows estão contaminados com a lógica perversa do paga-fala. Lançamentos de “novos talentos” acompanham uma intensa campanha nas rádios, onde a principal ação pode ser o pagamento de regalos aos produtores.

Existem uma outra forma de censura velada, a que não se nega a produção livre e independente, escrevam o que quiserem e como quiserem todos são livres por sua própria natureza, basta o simples fato de não se publicar o que se produz. Não vamos chamar de censura o filtro natural que se faz em relação à qualidade desta produção. Mas a história tem nos mostrado que a proximidade com o poder econômico cria certas facilidades, existem meandros misteriosos do que vai cair ou não no gosto da mídia e da multidão, mas não podemos negar que uma boa dose de exposição facilita em muito as coisas.

Por fim temos a Internet, que por hora sustenta uma isonomia quase anárquica; de garotos de colégio a portadores de cátedras podem passar suas impressões pessoais para o mundo, mas por quanto tempo? Aqui e ali surgem idéias de controle de conteúdo. O banditismo dos spamers e rackers, sempre na lógica de ganhar dinheiro ou de “pichação virtual”, poderá acabar fornecendo o argumento que falta para por um freio à liberdade virtual. Podemos pôr uma pitada de “teoria da conspiração” neste caldo, quem garante que não existe uma possibilidade de controle da Internet, e que o seu aparente descontrole é só “dar corda para enforcar burro”?
 
 

 
       

 

     


 

 

Edson Bueno de Camargo
Nasceu em Santo André – SP, em 24 de julho de 1962, mas suas raízes estão na cidade de Mauá – SP, onde mora desde seu nascimento. Embora sua produção seja muito grande, é um poeta praticamente inédito. Publicou em 1981 um pequeno livro em forma de fanzine intitulado Cortinas, com poesias suas e de Cecília A. Bedeschi. Poemas do século passado é sua primeira publicação individual. Mais recentemente, participou da antologia poética As cidades cantam o Tamanduateí que passa, da Prefeitura do Município de Mauá, com o poema “O Rio”. Publica junto com os amigos escritores da Oficina Aberta da Palavra, grupo de Mauá – SP, o fanzine aperiódico Taba de Corumbé. Participa de projetos elaborados a partir da Secretaria Municipal de Educação Cultura e Esportes da Prefeitura de Mauá – SP, em especial do Núcleo de Literatura e da Oficina Aberta da Palavra – Inventário Poético da Cidade de Mauá.
www.secrel.com.br/jpoesia/ebcamargo.html
www.palavreiros.org.com.br/diamundialdapoesia/brasil/saopaulo/
www.paralerepensar.com.br/link_edsoncamargo.htm