(continuação do número anterior)

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Chiapas, fumo e carne de sol: dois tempos diferentes

 

Em minhas viagens à procura de uma dose forte de utopia, de um tapa de esperança ou de qualquer outro anestésico, li um livro sobre os povos indígenas de Chiapas, no México. Aquelas coisas do subcomandante Marcos. O lance era que os índios (tzeltales, choles,
zoques e tojoloboles) concebiam o tempo como uma árvore. As raízes eram o tempo primitivo dos ancestrais, dos antepassados. Um tempo imutável, onde
nós somente podemos ter contato por meio das drogas ou de uma certa religiosidade. Aquelas coisas de Carlos Castañeda. O outro tempo seria o caule e as folhas, que crescem para cima. Trocando em miúdos: o presente e suas modificações, o seu fluxo e as suas conseqüências. Para mim, a Feira de São Cristóvão apresenta esta estrutura orgânica.

 

Depois de termos explorado as vielas principais do Centro de Tradições Nordestinas, procuramos nos embrenhar pelos seus cantos e recantos mais obscuros, menos conhecidos, porém mais populares. Fomos escavar as raízes da tradição da Feira de São Cristóvão. 

 

Esbarramos com uma tabacaria, uma pequena loja de dois metros de frente por dois de profundidade, que lembrava o ambiente daquelas barracas das feiras de
Campina Grande e Caruaru. As paredes de concreto exalavam umidade e um forte cheiro de fumo. A entrada se resumia a um tabuleiro de madeira, que devia ter um metro e meio, com uma pequena passagem pelo lado esquerdo. No lado direito, havia um enorme rolo de fumo, esteticamente arrumado. O local estava tranqüilo, com uma calmaria que beirava
ao abandono, até que João Manuel da Silva, dono do estabelecimento, posasse para fotos com o fumo de rolo enrolado no pescoço. O gesto causou o alvoroço dos comerciantes vizinhos. Eles berravam e João ficava cada vez mais encorajado com a sua pose circense de domador de cobras. A cena era cinematográfica levando em conta que o comerciante era um homem negro, baixo, beirando uns sessenta anos, de barba grisalha e
vestindo chapéu. Sua pele parecia curtida pelo sol e pelo tempo.
 

No tabuleiro do João, o visitante intrépido pode encontrar e, muitas vezes, descobrir artigos de tabacaria tradicionais do Nordeste. O primeiro que chamou nossa atenção, deve ser porque há anos não
tínhamos encontrado nenhum, foram as latinhas de rapé. É claro, experimentamos, demos uma cafungada e, obviamente, espirramos. Tudo meio sem graça. Logo depois do espirro, tivemos uma revelação. “O rapé é o artigo que mais vendo. Os caras vêm aqui e
compram um pacote inteiro fechado, com 20 latinhas”, assegurou João da Silva.  Embalados em pequenos sacos plásticos estavam os fumos Ultra, Hiper e Super, que servem tanto para cigarros de palha quanto para cachimbos. O vendedor não soube explicar a diferença entre os tipos, mas garantiu que o Hiper é o melhor. Também tinha cigarros de palha das
marcas Baianinho, Pajé e Thati, as cigarrilhas Di Julia e Maracanã e cachimbos, que qualquer saci-pererê
compraria. Ainda flagramos alguns pacotes de papel para enrolar cigarro: as velhas Colomys. Quem já tragou, sabe.

 

Outros recipientes aguçaram a nossa curiosidade. Junto com as sementes de olho de boi, estavam as latinhas de
óleo de peixe-elétrico e de banha do peixe-boi da Amazônia. Segundo as informações medicinais fornecidas
pelo vendedor, esses produtos são ótimos para dores musculares. Teve gente, confesso sem medo de errar, que participou da reportagem e arriscou o tratamento alternativo. Além disso, algumas fontes afirmaram que o produto vinha diretamente de Madureira, Zona Norte do Rio. Se quiserem saber a eficácia do produto e o resultado, mandem e-mails para o Duayer.

 

João Manuel não reclama da mudança da Feira. Ele está lá desde o início. “Comecei com uma barraca, vendendo bugigangas. Estou na Feira há mais de 30 anos. Quando cheguei aqui, isto tudo era um matagal só”, explica João.

O bem-humorado João demonstrou que as raízes culturais nordestinas continuavam fortes na Feira, apesar de estarem nos cantos e recantos do Centro de Tradições
Nordestinas. Por isso, resolvemos mudar de rumo.

 

Passamos pelos palcos “João do Vale” e “Jackson do Pandeiro”, onde podem dançar cerca de 800 casais. Na praça dos repentistas, encontramos Medeiros, Zé Duda e Miguel Bezerra: cantadores da velha guarda. Eles não pareciam muito satisfeitos com as novas instalações do
Centro de Tradições Nordestinas. “A Feira vai bem mas a parte da cultura não. Na Praça, não temos cobertura, ficamos entregue ao tempo. Sentimos calor quando faz sol e nos molhamos quando há chuva”, reclama Miguel Bezerra, de 53 anos, 30 vividos na Feira de São Cristóvão, apontando para o pequeno toldo que abriga os artistas. Deitado em uma rede, presa em duas vigas do toldo, Miguel arremata com uma estrofe, de improviso como manda o repente. “A Feira de São Cristóvão para muitos tem o seu valor, principalmente para quem tem grau superior. Mas falta a cobertura para a Praça do Cantador”. Protesto feito e aceito. Então fomos em busca do lado moderno, nos aventuramos pela Avenida do Nordeste.
 

Avistamos uma grande estrutura de metal coberta de vidros, que permitia que olhássemos toda a movimentação no seu interior. Era o restaurante “Estação Baião de Dois”: ícone da renovação da Feira
Nordestina. Curiosos, ficamos conferindo o cardápio na porta. Fomos abordados por um cearense sorridente, com cerca de 50 anos, baixo, de bigode, com traços nordestinos, que foi logo se apresentando. “Meu nome é Chiquinho. Querem entrar?”, disse o simpático Francisco Rodrigues de Faria, um dos donos do Estação.

 

O convite era irrecusável pela curiosidade e pela organização e beleza do lugar. O estabelecimento é bem decorado com estatuetas no estilo Mestre Vitalino, um
grande e frondoso cajueiro artificial e artigos de cangaceiros. Na casa, que tem capacidade para receber 280 clientes, trabalham 13 garçons e copeiros. O ar-condicionado, que é logo sentido quando se entra no restaurante, é muito bem-vindo no calor que faz dentro do Pavilhão. Além da ótima aparência e do conforto, o Baião de Dois tem pratos tradicionais da culinária nordestina, que o pessoal do sul gosta e conhece: sarapatéu, arrumadinho, vaca atolada, carne-de-sol, acarajé, carne-seca, carneiro.

A primeira medida do anfitrião foi pedir que fizessem uma carne-de-sol à moda “Estação Baião de Dois”. Ele explicou que, ao montar o seu restaurante, procurou
receitas e modos de preparo em diversos lugares. “Visitei vários restaurantes em Caruaru, Recife e Salvador. É preciso qualificar a comida nordestina”, confidencia Chiquinho. Para ele, qualificar quer dizer: fazer uma comida colocando ingredientes e condimentos (azeite-de-dendê, leite de coco e manteiga de garrafa) de qualidade. Para isso, esses artigos são comprados diretamente de fornecedores nordestinos, que Chiquinho faz questão de manter em segredo, tentando evitar, talvez, alguma tentativa de espionagem culinária.

 

Depois da teoria, passamos à prática. A
gentileza de Chiquinho nos impediu de recusar a ótima carne-de-sol. Também não tínhamos a mínima vontade de
não aceitar, fizemos somente um pouco de jogo de cena.

A visão do prato sobre mesa era fantástica. Descrever sensações é uma tarefa difícil, se não impossível. No
entanto, podemos descrever o prato. A carne-de-sol veio acompanhada de paçoca no pilão, cebola à dorê, aipim frito, feijão tropeiro, feijão-de-corda com maxixe, quiabo e abóbora. A carne de sol era macia, sobressaindo o paladar da carne, não tendo interferência nenhuma do sal. A paçoca, moída no pilão, tinha um sabor leve, que remetia a sua feitura artesanal, parecendo demonstrar que para se ter algo sublime é necessário trabalho duro. O feijão tropeiro e o de corda com maxixe, quiabo e abóbora tinham o paladar primevo dos pratos nordestinos. Enfim, a comida do Baião de Dois é de primeira. Degustamos o prato sem piedade.

 

Chiquinho, sempre gentil, pediu que fossem servidos doces típicos e, à nossa mesa, pousaram taças contendo iguarias vindas especialmente de Tianguá, no Ceará. Fizemos uma verdadeira orgia gastronômica, foram colheradas de mamão com coco, leite com goiaba, abóbora cristalizada e doces de batata-doce, jaca e caju. O tiro de misericórdia veio com os licores nordestinos. Duayer se fartou. Se o repórter do New York Times presenciasse a cena, Duayer jamais poderia se candidatar ao Planalto.

 

De repente nos lembramos de que estávamos trabalhando e resolvemos visitar, acompanhados do nosso sedutor anfitrião, a cozinha. Lá, ratificamos a estrutura moderna do restaurante, onde trabalham 11 pessoas. O ambiente era claro, realçado pelos ladrilhos e uniformes branco dos funcionários. A cozinha, extremamente limpa e organizada, é equipada com uma grande bancada de fogões e um câmara frigorífica, que estava cheia de vegetais (aipim e abóboras, principalmente) e carnes.

Um detalhe. Os visitantes da Feira também podem conferir o trabalho dos cozinheiros através de uma abertura de vidro por onde se pode olhar o interior da
cozinha.

 

Depois dessa viagem pelo restaurante do Chiquinho, nos despedimos, satisfeitos e impressionados. O restaurante “Estação Baião de Dois” foi aprovado, mostrando
a outra face da Feira, nos levando a refletir sobre a viabilidade da modernização de um evento tradicional.

Entramos na Feira à procura de uma resposta: a troca de lugar, para o interior do Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, teria trazido muitas mudanças? Depois de algumas horas, convivendo com a realidade dos comerciantes e dos visitantes, começamos a suspeitar que qualquer resposta binária, sim ou não, purismo ou modernidade seria incompleta ou banal.

O que podemos responder ou simplesmente dizer é que a sobrevivência da Feira somente será possível se as
duas faces da moeda, modernidade e tradição, se alimentarem. Somente assim a árvore continuará a viver, rendendo frutos e sombra para todos: puristas e
modernos.


 

texto: Zé Luiz Neto
fotos: Duayer

 
     
     
       
   

Serviço:

Funcionamento: sexta e sábado a partir de 14h até o último cliente. Domingo fecha às 18h.

Estacionamento:
Fechado e seguro. Custa R$ 3,00 e tem 688 vagas ao redor do Pavilhão.

Como chegar:
São diversas as linhas de ônibus que servem ao Pavilhão.

Partindo do Centro:
- 209 (Praça XV/Caju);
- 261 (Praça XV/Marechal Hermes);
- 277 (Praça XV /Rocha Miranda);
- 311 (Praça XV /Cavalcanti);
- 313 (Tiradentes/Penha);
- 274 (Tiradentes /Méier);
- 296 (Castelo/Irajá);
- 298 (Castelo/Acari);
- 312 (Praça Mauá/Ramos);
- 346 (Carioca /Vila Cosmos).

Partindo da Zona Sul:
- 472 (Leme /Triagem);
- 473 (Leme/São Januário);
- 474 (Jardim de Alah/Jacaré);
- 476 (Leblon/ Méier).

Partindo da Zona Norte:
- 624 (Praça da Bandeira/Mariápolis);
- 634 (Saens Peña/Freguesia).

De Carro:

Zona Sul: Túnel Rebouças, Praça da Bandeira, Radial Oeste, Quinta da Boa Vista, Campo de São Cristóvão.

Niterói:
Linha Vermelha (Direção Centro), Entrada São Cristóvão.


Serviços:


Táxi: Óxente Táxi – 24 horas/Tabelado

O Centro de Tradições Nordestinas tem 12 banheiros públicos. Limpíssimos.
O visitante paga R$ 1 e ganha uma pulseira que lhe dá passe livre para o toalete.

Detectores de metais impedem a entrada de armas.

 
       


 

     


 

 

Zé Luiz Neto
38 anos de serviços prestados à boemia, é profundo conhecedor dos bares, botequins, morros e outras biroscas da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Na década de 1980, tirou uma de poeta outsider, com recitais nos baixos da vida, e teve contato, através do rock'n'roll, com os beatnicks, Marx e Nietzsche. Entrou depois numa de ser repórter, formou-se em Comunicação Social pela PUC-RJ, trabalhou em rádio e em jornal. Hoje em dia, escreve neste site sobre a loucura e a insanidade do Rio de Janeiro, lugar onde nasceu. Nos momentos de lucidez, trabalha em uma assessoria de comunicação.


 

           
 
 
 

Duayer
Nasceu em Tombos, Minas Gerais e reside no Rio de Janeiro. É jornalista e hoje trabalha como assessor de imprensa. Começou na Rádio Jornal do Brasil, depois foi para O Pasquim e lá ficou como ilustrador, cartunista, fotógrafo e redator bissexto. Teve trabalhos publicados nos jornais Última Hora, Diário de Notícias, Jornal do Brasil, A Crítica; em revistas nacionais como Playboy, Status, Mad, Ficção, Revista do Faustão, Visão e em revistas internacionais como Free Press na Holanda, Liberation, na França, World Press Review, nos Estados Unidos; possui algumas premiações em fotografia e cartuns.