Cansei de ser gado
Levando afagos fingidos
Após ser marcada a ferro e fogo

Cansei de ser gado
Machucado pela espora afiada
De vaqueiros sem prumo ou equilíbrio

Cansei de ser gado
E fazer parte dessa manada
Sem escrúpulos em desatinos

Cansei de ser gado
Porque meu pai não era boi
E minha mãe nunca foi vaca

Cansei de ser gado
Levando coices de mulas xucras
Ou bicadas de galinhas tontas

Cansei de ser gado
Porque não ando me rastejando
E muito menos sobre quatro patas

Cansei de ser gado
Saí do curral, endireitei a coluna
ergui a cabeça e reencontrei a dignidade.

 
 

   
         
   
 

         
         
   

Teu olhar de fera me submete
Em teus braços refaço o caminho
Os percalços? Meus pés andam nus
E eu sangro sobre as pedras

O cadafalso no meio da Praça
Uma linha desenhada no pescoço
Meu carrasco anda à minha frente
Flutuo no desespero agonizante

Rola a cabeça envolta em sangue
Dentro da cesta o trapo de linho branco
Torna-se rubro qual coração esbravejante
Balbucio: viver valeu a pena!

 
 

   
         
 


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Tudo explícito
Onde ficava o implícito ato;
Desatino o destino,
Desato os nós: desacato.
Qual é o endereço do terceiro palco,
Que já me perdi no segundo hiato?

 
 

   
         
 




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Luz, holofote, rima;
Baião, xaxado, menina,
Se avexe não, é sina
Sai de baixo e vem por cima
Forró só em rede nordestina
Na cama só verniz ou resina

 
 

   
         
 




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Do colchão quero a tara,
Na cabeça a tiara,
Brilhante e oca messalina
Mulher-dama-diaba
Quando se atraca ao cabra
Nem o mar de Amaralina
Verde-azul turmalina
Água de cheiro na piscina
Arre égua: sai de cima!

 
 

   
         
 




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Vitória-régia é flor da mata
Nasceu da índia pacata
Viajou pro exterior
Um lorde metido a doutor
Deu-lhe nome sem pudor:
Virou rainha magnata
Gorda, feia, rica e chata

 
 

   
         
 




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sem fórmula, sem forma,
inócua mancha gratinada
um suflê ao vento
no recheio: nada

 
 

   
         
 




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Colibri me dê essa flor
Que você tem, presa, no bico
Anda, que lhe quero paparico
Currupaco, apronto o amor

Flor singela, cai do bico,
Que lhe carrega o beija-flor,
Paparico e lhe dou o amor,
Currupaco papagaio-mico

 
 

   
         

 

     


 

 

Thaty Marcondes
30/11/54 – Jundiaí/SP. Me chamo Thais – nome presenteado por meu pai, que não era France ou Massenet, mas por admiração a estes assim me registrou em cartório. Mais conhecida como Thaty – apelido de infância. Autodidata, aprendiz da escrita e da vida, meio nômade, meio cigana, resido atualmente no interior do Paraná. A escrita é sina, impulso, pulso. Me agarro às linhas e vou desenhando letras, abrindo a alma, rasgando sentimentos. Nas frases que monto, remonto meus eus, meus dias, minha vida.