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Havia um homem impecável
que habitava uma estrada antiga
de pedras cuidadosamente lapidadas,
a olhar as borboletas
e não escrever poemas.
Os gestos parados no tempo,
desperdiçadas as palavras
ditas a si mesmo,
como se houvesse um segredo.
Amou, o homem-impecável,
apaixonadamente à mulher-espanto.
Espanto que lhe abriu o sorriso
desembaraçou vocábulos,
fonemas, palavras,
frases inteiras,
versos,
sol, lua, mares desconhecidos
e poemas derramados
além do horizonte.
Que acendeu-lhe o olhar
e deu sentido para os gestos,
asas libertas para as borboletas,
na dança dos corpos que arderam
noite e dia, na canção renovada.
Mas tinha um lado obscuro, o homem.
Que impecavelmente ele escondia.
Na décima terceira noite de lua cheia,
finalmente revelou-se em dúvidas,
suspeitas e silêncios bruscos,
o outro homem dele que pecava.
E cada som tornou-se pedra,
e cada pedra lapidada
um obstáculo.
E todas as borboletas uma ferida,
o sangue derramado do amor que chora.
Não viu mais a face da mulher que amava.
Cego, cego pela própria angústia.
Resta lá ainda imóvel aquele homem,
na estrada de pedras antigas e imóveis.
Apenas a esperar a morte
e a fazer de conta que ainda é impecável,
mergulhado em culpa,
a desperdiçar a vida.
Da mulher nunca mais se ouviu falar.
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