às vezes penso que já esqueci
e ressurge feito um vento.
uma lufada no meu corpo,
uma desordem nos meus pensamentos,
os dedos nos meus cabelos.
amo-te

às vezes penso que já esqueci
e me atravessa o som das palavras
ditas na face luminosa dos dias
o reconhece a pele, íntima.
amo-te

às vezes penso que já esqueci
mas cresce-me no peito
uma árvore de ternura
por sobre toda tristeza
e sempre hei de sabê-lo.
amo-te

às vezes penso que já esqueci
e ouço uma canção, um blues,
ou os olhos escorrem para o oceano,
ou assalta-me um beijo, da memória.
amo-te

 
 

   
         
   
 

         
         
   

Tenho a ambição vã
de escrever o poema que,
somado a todas as causas,
circunstâncias, história,
afetos, memórias,
personalidade,
mágoas, gestos.
Tudo o que caracteriza o sujeito que lê,
o toque.

E ao tocá-lo, transforme.
Brilhe num átimo.
Raio a causar fissura imperceptível,
mas eficaz,
na árvore íntima deste homem ou mulher,
por onde entrará o inédito.

Um poema que acrescente,
levante indagações.
Crie incertezas
onde havia certeza sólida.
Mexa no fio do olhar.
Faça estremecer o íntimo.

O poema no qual,
desprezada a mão de quem o escreveu,
existam apenas o leitor
e o vórtice das palavras.

 
 

   
         
   
 

         
         
   

Havia um homem impecável
que habitava uma estrada antiga
de pedras cuidadosamente lapidadas,
a olhar as borboletas
e não escrever poemas.

Os gestos parados no tempo,
desperdiçadas as palavras
ditas a si mesmo,
como se houvesse um segredo.

Amou, o homem-impecável,
apaixonadamente à mulher-espanto.
Espanto que lhe abriu o sorriso
desembaraçou vocábulos,
fonemas, palavras,
frases inteiras,
versos,
sol, lua, mares desconhecidos
e poemas derramados
além do horizonte.

Que acendeu-lhe o olhar
e deu sentido para os gestos,
asas libertas para as borboletas,
na dança dos corpos que arderam
noite e dia, na canção renovada.

Mas tinha um lado obscuro, o homem.
Que impecavelmente ele escondia.
Na décima terceira noite de lua cheia,
finalmente revelou-se em dúvidas,
suspeitas e silêncios bruscos,
o outro homem dele que pecava.

E cada som tornou-se pedra,
e cada pedra lapidada
um obstáculo.

E todas as borboletas uma ferida,
o sangue derramado do amor que chora.
Não viu mais a face da mulher que amava.
Cego, cego pela própria angústia.

Resta lá ainda imóvel aquele homem,
na estrada de pedras antigas e imóveis.
Apenas a esperar a morte
e a fazer de conta que ainda é impecável,
mergulhado em culpa,
a desperdiçar a vida.

Da mulher nunca mais se ouviu falar.

 
 

   
         

 

     


 

 

Silvia Chueire
Carioca, mãe de três filhos, psiquiatra com formação em psicanálise, tardiamente escrevendo essas bobagens, gostando demais de ler, e da vida.