Dois são os tipos de homens
há os que vivem para morrer
e os que morrem para viver

São rios d'águas de diferentes
Águas podres, águas claras
Densidades diferentes, produnfidades...

Quando se encontram o mundo se desfaz
O mundo se acaba, se torna em nada
Perde sentido completamente

Então é que não podem se encontrar
Esse é um dos axiomas que não existem de Deus
E eu nado contra Deus

Sou o nada, sou os dois homens
Vai ver é por isso que me acabo
Pois isso que me tanto desfaço

Sou o abismo onde se encontram fluxos
O contra-fluxo do desfacimento
Onde se mesclam as coisas e os nadas

E isso não é pra mim
Eu não sou para o mundo
Esse mundo imundo de deltas se graça

Gozo com meu desfacimento
Com minha eterna diária destruição
renovamento e desconstrução – minha catarse

Sou a tragédia grega
Sou a comédia latina
Sou o sentindo do mundo

A síntese do mesclar dos dois rios
Não sou um terceiro rio
Sou só o rio da minha aldeia

A aldeia do meu mundo, elevada sobre os dois rios
banhada por nenhum beberibe ou tejo
resiste, só, à minha fusão

De lá saem luzes, de lá saem chuvas
lá há poesia, arte e caos
rimos de piadas sobre o normal

Coitada de Gaia... desculpa-me mãe
Dionísio, me dê licença
Mas só eu sou Apolo de cachimbo

Eu, meu café, meus biscoitos amanteigados
Ah! No banco da minha praça
Onde encontrei meu encontro

Hermes esconde meu devir. Não!
Não quero suas parábolas oraculares estúpidas
Me deixa tolo somente. Me deixa tolo comigo só

Minha tolice, o meu amor, minha poética
Haha! Inveja-me Trakl! Fode-te Hölderlin!
Nietzsche te respeito, mas te fode também!

Que aqui, na minha aldeia, imerso em minha fusão
no encontro dos meus dois rios, que nem um(a) Pessoa
é capaz de em palavras sintetizar
sou senhorial, e ninguém mais.

Me desculpe titãs da humanidade
Deuses do Olimpo... DELFOS!
De vocês nada quero
Agora só quero meu agora

Não consigo nem quero
pra os lados ou céu olhar
absorto, um pouco tonto
me encontrarei só. Me desculpem todos.

E quando passar a fusão
quando secarem rios
me esqueçam... é, estarei muito vivo
vivo demais pra lhes dirigir
é bom que me esqueçam ou farei vivo
também de vocês... estarão em maus lençóis

perderá o sentido a valsa da plantas do jardim que dançam à chuva
o canto dionisíaco nietzscheano nos aposentos de Wagner antes de Turim
toda filosofia pedante de um Hegel e a complexidade de um Heidegger
e a pretensão dos pequenos humanos covardes da corda – pobres macacos

temam-me
ou então
como um
eu ser-ão
Poeta e Pã!

 
 

   
         
   
 

         
         
   

Contemplo, ao nível do jardim,
as roseiras, as plantas só verdes
e as gramíneas cor de Absintho.

Dançam voluptuosamente,
banhadas pel'água da chuva
tropical que o céu escarra.

Nauseado da minha humanidade,
agoiro o estado dos fatos pra mim
e corro para abraçar o vaso no corredor.

Repugno o que me fizeram ingerir
toda a massa gosmosa do meu ser,
o que ainda havia de cômico em mim.

Vai! Regurgita! Cava a realidade!
Escarra nesse mundo de mediocridade,
pretensão dramática e necedade.

E abre espaço pra fumaça das nuvens,
das nuvens cinzas do mundo seu
de cor e lógica despretensiosamente néscio

E na poça d'água sobre os mosaicos dautônicos
já consigo ver, na confluência das gotas,
o delta-nascente d'um oceano com meu nome

Um miudeza, um presentinho dos céus
a este príncipe sem haveres nem servos:
uma porção de pureza sujinha só de Terra

E é nela que todos os dias me banham
nos braços da ignorância ou indiferença
e em mim arrebentam só ondas de amor...

Paz! Trégua, por favor!
Mê dêem uns momentos, poucos me servem,
de paz para escrever, por favor.

Parem o mundo que eu quero escrever
antes que acabe a valsa da roseira do jardim
e a dança incestuosa das gramíneas chegue ao fim

 
 

   
         

 

     


 

 

Geraldo Vasconcelos
Goiano, estudante de Direito na UFPE; tolo pela poesia e escravo da filosofia. E mentiroso. Nietzsche, A. A., Pessoa, Heidegger, Wittgenstein, Goethe, Florbela Espanca, Gregório de Matos, Darwin, Álvares de Azevedo e Maquiavel. 20 anos. Contradição e açaí com granola.