Um bolo de fubá é um bolo de fubá. Melhor: é lembrança de prosa na cozinha, de café quente, de festa caipira (que não me ouça a Danuza). Um bolo de fubá classifica a humanidade em duas espécies – os que gostam com erva-doce e os que gostam sem erva-doce. Assim como Marlene ou Emilinha, Brahma ou Antarctica, sabem? Tem quem goste com coco ralado; tem quem arrisque umas gotas de (argh) baunilha; uns preferem ainda quente; amanhecido, outros. Não tem coisa que faça mais bonito numa sala de bate-papo ao cair da tarde do que você dizer "Vou ali bater um bolo de fubá bem rapidinho". Seu reservado se enche de pedidos de casamento e você tem que passar o rodinho na baba que escorreu pelo chão. E era até mentira sua, mas uma mentira generosa, pois mobilizou todas as lembranças boas de cada nico e cada nica da sala de chat.

Tão vendo? Foi só falar em bolo de fubá e já me perdi na prosa, aqui. O "causo" de hoje é um bolo de fubá salgado, receita de minha avó paterna. Nem adianta pensar que vai ficar igual ao dela. Ah, não fica, mesmo. Eu descobri que me faltam dois ingredientes básicos – fogão a lenha e uma assadeira muito, mas muito velha. Em todo caso, pra quem nunca experimentou o original, vale a receita. Só não vale resolver fazer um "apigreide" e colocar mussarela de búfala e tomate seco, que isto aqui não é receita de emergente.
 

 

 
   
Lá vai:
 
 
   


Ligue o forno. Unte uma assadeira. Coloque numa travessa bem funda um litro de leite. Desmanche uma xícara e meia de fubá (até bobagem dizer pra procurar um fubá fresquinho, porque todo mundo aqui é gourmet). Vá misturando. Quebre dois ovos e vá misturando com duas colheres de sopa de manteiga. Acrescente meio quilo de queijo fresco cortado em pedacinhos (ou queijo meia-cura ralado bem grosso). Sal a gosto e uma colher de sobremesa de fermento. Deixe no forno durante mais ou menos uma hora, até ficar bem moreninho em cima. Cutuque com um garfo, lamba o garfo e jogue o garfo na pia. Já tá bom? Desligue o forno e deixe descansar lá dentro mais um tempinho. Eu gosto dele no almoço com feijão, arroz e ovo frito. E à noite, depois de frio e se sobrar, combina com cerveja.
 

 

 
       

 

     


 

 

Teresa Melo
São-paulina, tieteense, educomunicadora. Mezzo italiana, mezzo caipira. Mãe de dois, avó de uma. Sem perfume, nenhuma grife. Truco, MPB, naïf. Levaria o Henfil pra uma ilha deserta. Como assim, morreu? Então, iria sozinha mesmo.