– Era uma segunda lua de mel, lembra? Você não me deu ouvidos. Trouxe essa caixa de charutos. Você sabe que não gosto de charutos.

– Meu docinho, os charutos são contemplativos e depois eu estou fumando na sacada do quarto. Mando a fumaça para o mar, para junto do oceano.

– Junto?? Você leva é junto com você pra dentro do banheiro.

– Claro, minha princesinha, eles precisam ser umedecidos e o banheiro é um ótimo lugar.

– E tenha santa paciência, né? Também me fez passar vergonha no jantar de ontem quando fomos dividir a conta. Pessoas que tínhamos acabado de conhecer você me tira a carteira e aparece essa muda de grama que carrega há mais de dez anos.

– Meu docinho, você sabe o significado dessa muda de grama.

Feriado gordo de carnaval. Estava no mesmo hotel que aquele casal. Eles falavam sem parar, em todos os passeios pelas praias de Alagoas. Então lasquei a pergunta:

– Jorge, me desculpa, mas que muda é essa que você carrega dentro da carteira?

– Ara, meu. É a muda do gramado do Parque Antártica. – O sotaque paulistano marcou presença com a língua a todo momento tocando atrás dos dentes superiores.

Chegamos em Piaçabuçu. O delta do São Francisco; sua foz. O encontro de rio e mar. A exata divisa dos estados de Sergipe e Alagoas. O sol estourava forte; as dunas brancas salpicavam e ardiam nos olhos. O suor refrescou o corpo naquela única hora de andança nas dunas. As dunas se mexiam. A guarda florestal permitia somente uma hora de passeio nas branquelas dunas. De volta ao catamarã fomos levados a um barco-restaurante que flutuava no finalzinho do São Francisco, dentro de Sergipe. Até que o almoço ficasse pronto, passeávamos entre os nativos coqueiros de Sergipe e admirávamos uma antiga vila engolida pelo mar; restos de embarcações mostravam-se salientes fora d’água. E a água, nem salgada nem doce. O insólito coqueiro, ainda vivo, dentro do mar, servia de palco para fotografias. E foram tantas. O almoço no restaurante aquático foi inesquecível.

– Esses peixinhos fritos estão ótimos, minha princesa. Tome. Experimente.

– Já te falei, Jorge, não gosto de peixe e depois nem sei em que óleo esses foram fritos. Você não deveria comer esses bichos.

– Que isso, meu bombonzinho. São peixinhos frescos, é culinária regional e estão deliciosos.

Madalena, o docinho de coco de Jorge, não tinha, como dizemos por aqui, papas na língua, e falava pelos cotovelos. Mesmo tratando-se de seu querido Jorge. A autenticidade de Madalena era sincera e ela estava sempre se incomodando com alguma coisa. Pobre Jorge...

O guia do passeio, vendo que todos nós turistas já tínhamos almoçado, falou em voz alta carregando seu sotaque nordestino:

– Agora, voltemos ao catamarã e vamos aproveitar a digestão dessas saborosas pilombetas fritas e depois em Piaçabuçu as delícias das cocadeiras que ficam na praça.

As cocadas de Piaçabuçu; de variados sabores encontramos: naturais, maracujá, manga, caju. A melhor de todas, a natural. O doce branco, de fina membrana de açúcar, com lascas de coco fresco, acomodadas sobre papel manteiga; cortadas em quadrados. Uma, duas, três, logo, logo, enchendo um saquinho pra viagem. Nada igual.

– Meu docinho, trouxe uma cocadinha pra você. Uma não, um saquinho cheio.

– Deixa eu experimentar. Humm... Que isso, Jorge, prefiro aquela que faço. E olhe aqui, a minha cocada é muito boa, você pode tratar de comer sozinho essas que leva aí nesse saquinho.

O guia turístico pede a ela pra lhe dizer como é a cocada que faz. Não se contendo, porque lhe era natural, como descobri mais tarde, se apossa do microfone do guia e começa o discurso culinário de uma simples receita de cocada.
 

 

 
   
COCADA
 
 
   


É muito fácil e simples. Deitamos sobre uma panela de fundo grosso cem gramas de coco fresco ralado, 15 colheres de sopa de açúcar e uma lata de leite condensado. As colheres são rasas. Com tudo isto na panela, liga-se o fogo e com uma colher de pau passamos a mexer a mistura sem parar, fazendo movimentos circulares.

O leite condensado vai reduzir e a mistura desprender da panela; isso pode levar cerca de 20 a 30 minutos. Esse ponto é chamado de “bala”. Em seguida coloque mais 2 colheres de açúcar, desligue o fogo e bata com firmeza a mistura dentro da panela com a colher de pau até que formem pequenas bolhas. Isso pode levar uns 5 a 10 minutos.

Despeje a mistura sobre um tampo de pedra (mármore), alisando até formar um retângulo. A pedra já deve ter recebido um pouco de manteiga sem sal para facilitar o desprendimento das cocadas. Espere esfriar. Corte em quadrados, losangos, ou outras formas que preferir. Forre um prato com as cocadas e sirva como sobremesa.

 

Voltamos para Londrina. O Jorge ainda fuma seus charutos e guarda a muda do Parque Antártica na carteira; já trocou várias vezes de carteira, mas não a muda. A Madalena continua autêntica. Da próxima vez conto como aprendi a fazer macarronada.
 

 

 
       

 

     


 

 

Carlos Alberto Francovig Filho
Vencido pelo destino, invisível estrada, sucumbi aos encantos da literatura. Doce ócio. De libra, nasci aos 21 de outubro de 1960. Agora me lanço e lanço livre minha literatura.