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Certamente, a maioria de nós em pelo menos uma oportunidade já se expressou assim: tive um dia daqueles!!! Há, convenhamos, dias em que nada dá certo; seja no trabalho, seja na relação a dois – essa então! –, e nem mesmo nas horas de lazer. Tudo ou nada é motivo para irritação! A bicicleta amanheceu com o pneu furado, a moto não pega, o carro, inexplicavelmente está com o tanque vazio... "Um saco!" Mandamos tudo às favas, nos enturmamos e vamos pro campo do clube jogar uma "pelada". De cara, no primeiro lance torcemos o pé e vamos para o chuveiro mais cedo; piscina, neste dia fatídico, nem pensar! Em casa, pé enfaixado, cara emburrada, lembramos de ligar para a namorada. Foi ao cabeleireiro, responde uma "bruxa" do outro lado da linha. E haja "saco". De quantas pessoas ouvi e, quantas vezes eu mesmo já esbravejei: Ah! se eu pudesse sumir! Pois é, dia destes, antes do sol, levantei-me. Pra quê?, perguntei-me. Pronto! Nascia um dia mais chato do que eu próprio. E, se bem me conheço, asseguro não ser empreitada das mais fáceis superar-me neste pormenor. Sou quase sempre um chato! Com este estado de ânimo, bati a porta atrás de mim e saí a esmo. Não foi, contudo, necessário andar muito; não mais que duas quadras distantes daquela na qual está minha casa, do aconchego do meu quarto de dormir, do trivial farto da minha mesa, de minhas roupas limpas no guarda-roupas; e pior: longe da minha aparência saudável, dormitava uma criança! Jazia ali – o termo evoca-lhe algo mais sinistro? – enrolada em jornais amarfanhados e úmidos. Tencionando não acordá-la – cômodo propósito –, olhei desolado para as faces de fuligem, cavadas de fome e frio – binômio infeliz e cada vez mais comum na vida das crianças – mas, ainda assim, sua expressão era de paz. Meu Deus!, murmurei, como é possível? Atônito, mas impotente, cômoda constatação, afastei-me dali e daquela criança. O que não consegui, entretanto, foi afastar de mim mesmo a vergonha da minha pretensa e nunca concretizada solidariedade, da minha intolerância para com elas, da minha falta de iniciativa e disposição para de alguma forma modificar aquela situação vexatória; da minha falta de humildade e, principalmente, da minha pequenez. Mas afastei-me dali!
Fiz mais ou menos o que fazem os descontentes, os rebeldes sem causa e os
insensíveis, que nunca dão o devido valor ao que possuem, e têm, na
maioria das vezes, muito mais do que merecem! |
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O ser humano nasce e deseja – e aí não há exceção à regra – ser feliz! Estabelecer o que ele necessita para tanto é que se torna, ou é, muito difícil. Particularmente ainda não encontrei quem se confessasse plenamente feliz. Há quase sempre um "senão" um "mas", "se não fosse isso ou aquilo". A maioria das pessoas diz que a felicidade não existe. Para elas, existem momentos felizes. Redundância! O que é a vida senão a soma de momentos? Tenho comigo uma linha de pensamento diferente a respeito. A infelicidade sim é, via de regra, um momento passageiro, fugaz. Ser feliz, ao contrário, é próprio do indivíduo; alternâncias de situações são próprias da vida. Observe que quase sempre somos nós os culpados por nossa infelicidade. Se hoje você se sente infeliz, faça uma incursão ao seu íntimo e determine as causas de seu descontentamento. Seja coerente e assuma: a vida está em suas mãos, você a tem conduzido mal. Outras pessoas poderão não estar cooperando para este estado de coisas; poderão até estar atrapalhando, mas são pessoas indispensáveis à sua vida. E isso na maioria das vezes significa que, sem elas, você provavelmente não seria feliz. Sabe daquela brincadeira "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come"? Pois é! Não é brincadeira. E não adianta aquela postura de inércia, de conformismo, aceitando a máxima de que "a vida é assim mesmo". Que tal uma reciclagem? Que tal um trabalho interior de valorização, de renovação do seu cotidiano? A água somente é gostosa quando a bebemos sedentos. A comida só tem sabor quando sentimos fome... dormir, todos concordam, é ótimo, quando existe sono. E assim por diante... No entanto, outros aspectos compõem nossa breve trajetória neste mundo. Abordemos situações abstratas. Suponha que em nosso "universo" não existisse nenhum desafeto. Que todas as pessoas com as quais precisássemos nos relacionar fossem ótimas, pensassem e fizessem exatamente o que quiséssemos. Que entre amigos não houvesse nenhum "chato". Tudo bem? Que nada! A convivência seria uma chatice. Imagine, de novo, se não houvesse desencontros no amor? Se tudo na vida estivesse pré-estabelecido? Seria um jogo com final previsível, portanto desinteressante. O que deve nos empurrar, fazer com que continuemos são os tropeços, as dificuldades... dar "com os burros n'água", errar enfim... Assim, sim, é a vida! Todavia, o que a torna tentadoramente deliciosa é o que podemos chamar de vitórias, de conquistas, de superação... Não me refiro aos vitoriosos em grandes empreendimentos; talvez a maioria de nós não possa, mas às pequenas vitórias, que em outras palavras corresponderia ao aperfeiçoamento. Cada qual tentando corrigir seus defeitos, sejam eles grandes ou pequenos. Sejam os tais de "comportamento" ou de valores morais. Um fumante inveterado que pára de fumar é um vitorioso. Um cachaceiro convicto – eta Ivan – que abandona o vício tem lá seus méritos. Daí, um sem número de falhas do caráter poderia ser enumerado. A inveja, a mentira, a hipocrisia – esta mereceria um tratamento especializado, tal sua difusão. Os falsos puritanos – aqueles que têm DEUS na boca a toda hora e no entanto quase nunca o têm no coração. Os que julgam a todos, como se "telhado de vidro não tivessem". Não duvidem, ainda existe gente assim... Mas tratemos aqui – era essa a minha intenção – apenas de defeitozinhos. Dizem as más línguas que ser corintiano é um deles. Não posso opinar, sou vascaíno! Mas voltando ao que interessa, ao assunto anterior, existem, em contrapartida, pessoas maravilhosas. Aquelas que são maleáveis, compreensivas, sem condescendências tendenciosas; justas de forma linear, enérgicas, mas brandas. Aquelas que sabem que a vida precisa ser levada a sério. Mas com ternura! Com amor! Estas sim, feitas à imagem e à semelhança de Deus. E graças a ELE, existem em número infinitamente superior às pobres e às pequenas. Pobres de espírito!
Pequenas de coração! |
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Ivan Ramos Coutinho |