Longe a inocência. Na meia-idade, seguro do caminho da vida e num suspiro profundo com trago de memória, freneticamente chega o sentido cru; experimento dos calos que as horas fazem.

Naqueles tenros 10 anos, meiga era a tarde de primavera e no Colégio Machado de Assis a professora, cujo nome me sumiu há um bocado de tempo, de peitos grandes e avolumados, deixou-nos livres. “Tempo livre de artista”, dizia ela. Meus olhos debruçavam-se nas duas montanhas de carne e se surpreendiam por não encontrar arbustos; apenas o mesmo guarda-pó de todos os dias de aula. Dei início ao bordado de flores num lenço branco de cambraia.

Graúda concentração nos borrões coloridos sobre o branco do tecido que segurei durante toda pintura. O esforço da tarefa se dividia nos movimentos soltos das mãos em obediência aos tesouros de traços floridos.

Era o ano de 1970 e eu ainda nem sabia para que serviam os anos. Sabia, sim, do desajeitado jeito de colorir uma margarida, uma rosa, uma petúnia. Pequeno jardineiro de desenhos. Umedecia os lábios escorregando lentamente a língua entre eles, como se molhasse a terra branca de minha semeadura.

Findo o tempo livre de artista, tomado pela sensação da tarefa feita, do dever cumprido, segurava o paninho todo borrado de tinta imaginando o agradável jardim do velho Dito na fazenda. Descia os primeiros degraus da escada de ladrilho vermelho. Foi aí que veio um prenúncio de trovoadas e tempestades sobre a primavera do meu lenço. “Mulherzinha, mulherzinha, mulherzinha”, gritavam três meninos maiores que eu. De onde estava imperou sobre a liberdade do pintor a força impiedosa da gravidade e no primeiro tracei um vergão na bochecha e foi só.

O nariz esfolado no chão de cimento, logo após o último degrau da escada, tolerava entrar com o ar, poeira, o áspero do piso e raiva. De tudo, um pouco impregnava. Os olhos fechados não viram a consoladora de peitos fartos se aproximar e salvar o buquê sujo das flores, bronquear os meninos maiores e me proteger com os braços.

Nos campos densos de mata tropical, o velho Dito sempre armava uma arapuca de caça. Todo dia, fizesse sol, fizesse chuva, de facão em punho rasgava a floresta fechada da fazenda e na sombra de seu largo sorriso trazia lá de dentro a caixa da armadilha.

As mãos do velho Dito, fortes e rijas, revolviam terras e semeavam flores. Bordava, munido de inspiração divina, o jardim da fazenda. Verdadeiro. Se eu tivesse aquelas enormes mãos certamente teria vencido a batalha do lenço branco, como ficou conhecida aquela luta de criança na escola.

O velho Dito mandara pra casa, na cidade, a caixa de engenho e a presa. Esqueci da cambraia, das flores pisoteadas e da raiva. Quis ver o animal emboscado dentro da caixa. Um tatu-bola. De casca grossa, marrom, unhas finas e andar silencioso. Da caixa foi colocado numa gaiola e distante dos aposentos da casa pelo forte cheiro de bicho e mato que trazia consigo. Alimentei a caça com folhas e milho.

Na tarde seguinte, os três meninos repreendidos pela professora peituda vieram me pedir desculpas. E eu a eles, igualmente censurado. Meu perdão saiu gelado e vermelho, conduzido pelo melado da boca do sorvete de groselha que acabara de chupar. O frescor do doce me alegrava e era superior àquela remissão. A professora sorriu e abraçou a nós todos, um a um. Tocou meus lábios em seu guarda-pó ao me puxar para perto de si em um abraço de indulto. Ainda tinha o sabor da groselha. Senti de perto as montanhas despeladas daqueles peitos e uma pequena erupção brotando de cada um dos avantajados mamilos, como se fossem sementes germinando, planta se mexendo, presa fugindo de emboscada. O adocicado do sorvete lambuzava o guarda-pó e eu via por detrás dele ensinamentos que a professora não dizia. O restinho da groselha, o pó do giz de ensinar e as tetas da mulher do ensino quase pulando da roupa iam se acomodando no nariz.

Em casa não pude ver os mamilos do tatu-bola que o velho Dito havia mandado. Já tinha sido descarnado, cortado em pedacinho e temperado pra ser comido no outro dia. A casca, com pequenos restos de gordura e carne, fora deixada em cima da gaiola ao lado de um saco de sal grosso com um bilhete seguro por uma pedra: “Esfregar o sal e cuidar da secagem da casca no sol”.

A limpeza da casca daquele mamífero em extinção impregnou-se encardida em minhas mãos. Desejei sobrepor o canteiro de aromas alojados no nariz ao trabalho do sal. Apenas consegui usar o lenço de cambraia outra vez e jogá-lo fora. O aroma é um hóspede estranho, revela sentidos crus e depois os faz maduros com nódoas de lembranças.
 
 

 
       

 

     


 

 

Carlos Alberto Francovig Filho
Vencido pelo destino, invisível estrada, sucumbi aos encantos da literatura. Doce ócio. De libra, nasci aos 21 de outubro de 1960. Agora me lanço e lanço livre minha literatura.