Amo tanto você há tanto tempo, de tantas formas. São tantos os motivos pra amar você – sua integridade, sua lealdade, sua cabeça dura – duríssima, o que você é, o que você faz, o que você diz. Sempre amei seu cabelo maluco, que, mesmo curtinho, é pirado. Amo seu humor preciso, seu humor real, seu humor que paralisa os incautos, que afasta os infiéis, que assusta os fariseus. Amo sua risada espalhafatosa, que faz seus ombros tremerem e seu rosto ficar vermelho. Amo sua cara-séria-de-falar-coisas-sérias, que, ao mesmo tempo em que me mete medo, também dá vontade de apertar suas bochechas e chamá-lo de “dindinho-de-iscleidoê”, mas eu me controlo. Você ficaria furioso e com razão; então, eu fico quieta, balanço a cabeça, faço cara de quem está entendendo e eu nem estou ouvindo faz um tempão. Amo você porque você ama o Alexandre. Você é definitivo e eu amo você. Amo você porque nossa mãe está doente e você está aqui todos os dias, de várias formas. Amo suas mãozonas, seu nariz bonito, sua cara de menino, sua inteligência absoluta, cruel, onipresente. Amo você porque você chora e chora tão bonitinho, com biquinho que treme, com olhinhos perdidos. Seu raciocínio rápido, eu amo tanto, suas tiradas doidas, seus medos, sua coragem, sua capacidade de negociação. Amo suas dáieti cocas, pepsis , sodas, seus leites desnatados, seu toddy, os bombons que você distribui, seu gibis idiotas, seus saberes, seu frio, seu calor. Amo suas costas que carregam o mundo, o nosso. Amo suas certezas e a falta delas, seu mestrado, seu carro zoado, seus cds de música cabeça, seus livros mais cabeça ainda e, de novo, sua cara séria que acompanha a cabecice. Amo você porque você segura a minha mão e me ajuda a terminar a frase quando eu não posso mais – e às vezes eu não posso mais. Amo o pai e o marido que você é, que eu acompanho de longe, e acho lindo você de patriarca, tão bonito. Amo você há 31 anos, amo você naquele cestinho de bebê, já amava você mesmo quando nem sabia, mesmo quando não o amava e roía as unhas de ciúmes porque eu não era mais o bebê. Você foi meu primeiro amor, é o que eu amo há mais tempo, 31 anos amando sem pausa, sem respiro, sem possibilidade de fuga ou renúncia. Meu irmão, meu irmão, meu irmão.
 
 

 
       
     
 

 
       
       
   

Tudo o que eu queria era sua mão na minha, sua gargalhada, exercitar nosso senso de humor cruel, comprar bobagens no supermercado, uma pintando as unhas da outra, nossos sons, descobrir uma nova tatuagem, olhar as fotos da sua filha, dançar com você no chuveiro, tirar uma foto nossa, olhando para o nada, fingindo um ar blasé, nossos cheiros, nossos amos, tantas verdades.
 
 

 
       
       
       
   

Você acha que vai crescer e que o mundo, enfim, deixará de ser assustador, que você vai ter mais controle, que vai, pelo menos, entender as cousas, aprender as regras. Mas não há regras e, se há uma ou outra, elas mudam constantemente, e eu me vejo como quando tinha seis anos, parada, de olhos arregalados, cara a cara com o imutável, o inexplicável, o assustador, balbuciando "... mas... mas... mas..." Que merda.
 
 

 
       
       
       
   

Queimei a língua no café com leite, xinguei alto e o gato riu da minha cara.
 
 

 
       
       
       
   

Eu estava de chinelo de dedo, vestido-de-lavar-quintal, blusa de lã e nariz descascado, com meus muitos quilos a mais e com maquiagem de menos. Ele estava um Deus, sempre, sempre, bronzeado, impecável, sorridente, vestindo uma blusa molinha, com uma moça dependurada no braço que não podia ter mais de 25 anos e nem mais de 50 quilos. Escondi minha lamentável figura atrás da gôndola dos azeites e ele não me viu, se viu não me reconheceu. E, se me viu e me reconheceu, teve a delicadeza de fingir que não, suspiros de alívio e de dor.
 
 

 
       
       
       
   

Deus sabe que Alexandre e eu precisamos de novos amigos, porque os que temos só nos dão mau exemplo. De tanto ouvirmos os planos da Funny sobre as mudanças na planta da casa nova dela e de vermos a Cam se exibir por conta da reforma do seu apartamento, piramos e resolvemos detonar geral. Reforma na cozinha ou morte!! Mandamos o bom senso, a falta de poupança e a insegurança dos tempos que correm às favas e já encomendamos torradeira e sanduicheira novas para a grande inauguração. Eu também já estou namorando lindas panelas profissionais, um abridor de vinho high tech, um suporte novo de talheres, uma lixeira de inox que custa mais de cinco salários mínimos e uma balança digital que só falta falar. Chamamos o marceneiro: vamos tirar o balcão, mudar o freezer de lugar e a geladeira também, meter uma pia nova mais comprida, todinha em granito preto, e instalar a mesinha beeem petitica, que temos na varandinha, no lugar onde era o balcão (pela quantidade de diminutivos, já deu para vocês sacarem as dimensões do nosso apartamento, não?). Também planejamos mudar a torneira da pia e botar um armário bem metido no canto perto da porta. O Alexandre confiou ao marceneiro um cheque de quatrocentos reais, para provar a ele nossas boas intenções, outros irão, e eu já comecei a me preparar psicologicamente para controlar seis gatos e um cachorro neurastênico durante a inana. Nós ainda estamos ali, acertando os últimos detalhes com o marceneiro no hall dos elevadores (Aço escovado ainda se usa? Fórmica é uma boa? Três ou quatro gavetas? Vale a pena embutir o fogão?), quando minha vizinha saiu para jogar uma sacola na lixeira. Assim que o moço foi embora, ela nos diz:

– Ah, eu ouvi, vão reformar, né? Eu também, antes de ter os meus filhos, vivia reformando o apartamento para me ocupar.

Ai. Na hora doeu, mas depois passou. Mais ou menos.
 
 

 
       
       
       
   

Voltando do enterro do marido, Tia Mimi arruma o xale preto e aperta os olhos para examinar os cds em cima do móvel da sala. Vira para a sobrinha e pede:

– Ella, ponha o Mozart. O Dito gostava e eu não quero esquecer. Nem do Dito, nem do Mozart.
 
 

 
       
       
       
   

O ideal de domingo do Alexandre é composto de filmes onde pessoas são atacadas com água fervendo, Fantástico e videocassetadas. Seis dias por semana ele é doce, gentil, trabalha feito um lobo, não tem boca pra nada, é cabeça de encher o saco com filmes europeus esquisitos e citações em russo pra tudo. Aos domingos dá um troço nele e ele come frango de padaria, comanda a TV com mãos de ferro, rola de rir com o Faustão e eu mal consigo, na surdina, gravar o Discovery, o Monk e o Queer Eye pra ver sozinha de madrugada (eu assisto lixo sete dias por semana). Depois de cinco anos eu ainda não consegui decifrar esse mistério.
 
 

 
       
       
       
   

Querida F., quando você, com síndrome de pânico, triste, cheia de problemas para resolver, desanimada, gorda e pobre, respira fundo, sacode os fantasmas de cima do ombro, vira pra alguém e diz cheia de energia "VAMOS PASSAR O SÁBADO NA ESTRADA?!", porque esse alguém vive dizendo o quanto relaxa na estrada e fica feliz quando viaja, você não quer ombros caídos, cara de bunda e uma vago "Hum, e aonde a gente ia?". O que você quer, o que você precisa, no mínimo, é dum "Vamos!!!" entusiasmado.

Pensamentos sombrios pra uma sexta-feira, né?

Vou voltar para a reunião.

G.
 
 

 
       
       
       
   

O outono que esperei tão avidamente me encontrou com espinhas, cabelos por tingir, unhas roídas e uma desesperança que não se rende. Também me encontrou com uma máquina de lavar velha e revoltosa, cuja intolerância gera pilhas in/acabáveis de roupas sujas, enxaquecas que duram dias, camisolas manchadas, restos de comida nos pratos e um apartamento de 20 anos, que precisa urgentemente que se refaça toda a instalação elétrica.

Não dá pra ser cool e blasé com uma vida prosaica dessa, convenhamos.
 
 

 
       
       
       
   

Espero uma taça de Bailey’s com gelo, um pôr-do-sol perfeito, beijocas no pescoço, um passeio de escuna com direito a cardumes de golfinhos, lençóis alvos, comida bem temperada, sonecas na rede, feirinha de artesanato, camarões graúdos e um verão sem fim. Sim, sim, em plena avenida Paulista. Se vira.
 
 

 
       
       
       
   

Marido chegou, deu abracinho, beijinho, comeu o pior macarrão que eu já fiz na vida, arrumou o varal que despencou de novo, disse que a casa está ótima e que a faxineira não faz falta, ajudou na minha tradução, deu abracinho, beijinho, contou fofocas, me chamou de “fumiga”, ouviu minha longa narração sobre as virtudes artísticas dos apresentadores vespertinos da nossa TV, falou mal da mulher do síndico, do filho do síndico, do síndico, deu abracinho, beijinho e foi nanar. Amém “nóis” tudo.
 
 

 
       
       
       
   

Incrível a cena, mostrada num jornal televisivo, dos caras armando para cima de turistas nas praias do Rio, tentando vender lugares nos desfiles das escolas de samba, e chamando arquibancada de "arquibanqueichon".

Mas o ser humano é criativo, não?
 
 

 
       
       
       
   

Tenho o resto da minha vida para esquecer você, meu querido. Ou não tenho?
 
 

 
       
       
       
   

“Querida Fal:

Só porque a gente fica em casa nas noites de sábado, eles acham que a gente é idiota e passam cada filme que eu vou te contar!”
 
 

 
       
       
       
   

Protocolos. Bilhetes. Firmas com e sem reconhecimento em cartório. Perda de paciência com os advogados. Decisões surpreendentes do juiz, o café da manhã desse cara deve ser líquido. Ligações não respondidas. Sanduíches engolidos às pressas no meio do dia. Transferências bancárias de tirar o fôlego – o meu, claro. Algumas fotos engraçadas. Outras dolorosas.

Os nós da burocracia se estreitam em volta do meu pescoço.
 
 

 
       
       
       
   

Ah, pode acreditar. A mulher sorrindo nas fotos sou eu. Era eu. Antes, bem antes, de lavar minha dor em vodca e em suco de laranja, de farejar o ar procurando você de forma pouco digna e de usar a realidade como escudo e o inexorável como oráculo.

Porta Retratos

Na foto do porta-retratos, aí, na prateleira tá vendo? É sim; todos daí já morreram.
Este gorducho louro, de olhos azuis foi substituído, dizem, por um ciclista magrelo.

Essa mocinha de riso fácil e bochechas gorduchas se foi há mais de dez anos. Eu ainda posso ver seus olhos na mulher um pouco amarga que tomou seu lugar, especialmente quando ela fala de seu filho moreno e lindo, mas não é mesma coisa. Nada é a mesma coisa.

Esta menina linda me amava, sabia? Morta também. Sua alma foi morar em Coimbra, e até onde se sabe, a tal alma me odeia.

Este aqui morreu praticando jogging numa avenida da cidade. Foi tolhido por um ônibus na flor da idade, a mãe dele nunca se recuperou.

Este aqui era gago, chato e bom para mim. Daí ele se tornou mau, foi embora, e, de vez em quando, assombra meus pesadelos e arrasta correntes nas minhas cicatrizes.

Esta aqui, uns dizem que morreu, outros dizem que não. Seus olhos de morta-viva sempre me dão arrepios, mas eu gosto dela, é como ter um zumbi particular.

Este era o mais querido de todos nós. Tá vendo a cara, o sorriso? Um doce. Ele se suicidou numa clínica para doentes mentais, dia mais triste das nossas vidas. Às vezes penso que o mundo não estava preparado para ele. E ele sabia disso.

Aquele ali, no canto, era nosso cineasta. Quando morreu, um dentista gordo e feliz tomou seu lugar. É o fantasma mais agradável que eu conheço.

Este moço alto, de lindas mãos, nariz ligeiramente torto e sorriso luminoso, foi o que eu mais amei. Suicídio. Quantos suicídios, pois não? Seu fantasma volumoso, cabeludo, infeliz agora uiva conceitos vazios quer a lua esteja cheia ou não e transmite o legado de sua maldição para as gerações futuras.

Este era um palhaço adorável, inquieto, rápido no gatilho. Morreu, claro, mas só um pouquinho. O essencial permanece. Ele pisca para mim em meus sonhos, com seus olhos castanhos. Real, assustadoramente real.

E esta menina de azul, sentada no chão? Linda, gordinha, olhos caídos. De muitas formas, a melhor dentre eles todos. Mas a pior também. A que mais ria, a que mais chorava. A mais leal, a primeira a trair. Ela amava demais, ela odiava demais. Ela não sabia nada, mas tinha todas as respostas. A mais safa, a mais tola. Grupo estranho esse, onde uma medrosa tomava todas as decisões. Ela durou pouco, muito pouco, não deixou marcas, nem deixou saudades em ninguém além de mim. Foi a primeira a morrer.

Também eu tenho sangue nas mãos.

 
 

 
       

 

     


 

 

Fabia Vitiello de Azevedo Cardoso
Tenho 33 anos, sou casada, e tenho seis gatos neurastênicos e um cachorro doido. Dou aulas de idiomas e tenho um curso de arte na história, que é on line e é uma graça de curso. Tenho um livro publicado pela Editora Iglu, Crônicas de quase amor, e estou procurando editora pro segundo livro... eu e a torcida do Corínthians, hohoho. Fumo, bebo, falo palavrão, sou meio amarga e parei de roer as unhas. Sou colunista do Jornal Meio Norte em Terezina, da revista on line Tsc Tsc Tsc e do site de culinária da Globo.com, o Bem Feitinho. E tenho um blog que é meu orgulho e minha alegria: www.dropsdafal.blogbrasil.com