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Dona Lucidez bate furiosamente à porta. Vem toda vestida de cores sóbrias, com o lindo rosto de linhas puras, impassível. A mulher espia pelo olho mágico e se assusta. Depois de tantos anos de amigas íntimas, inúmeros chás insossos e lindos vestidos distintos ela havia riscado o nome de Dona Lucidez do seu caderninho de endereços. Reformara o guarda-roupa, procurara na loja o batom mais vermelho, brincos balançantes, o louro mais refulgente para os cabelos e passara a ouvir blues. Apaixonou-se desvairadamente por um moço moreno de olhos brilhantes, cabelos escuros e dentes muito brancos na boca voraz. Viajou com ele para Paris onde dançou tangos a noite toda usando delicadas sandálias azuis e rímel muito escuro nas pestanas. Quando, de vez em quando, Dona Lucidez ligava, ela mandava dizer que não estava, se escondia do olhar vigilante e da voz sibilina. Agora, depois de um tempo, depois de ter se encontrado com a dor e sentir um enorme cansaço em sonhar, lá estava Dona Lucidez, toda vestida de cores sóbrias, com o lindo rosto de linhas puras impassível, a procurá-la.
Ainda hesitante, a mulher prendeu os cabelos, vestiu-se de seda bege, usou
um batom suave e lhe abriu a porta. |
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Ela deposita, com cuidado, o amor morrente em um lindo vaso de vidro que mantém guardado na cristaleira espelhada. Todas as manhãs, logo ao acordar, se aproxima, esperançosa, abre a tampa e espia dentro. Lá está o amor agonizando, todo trêmulo e dolorido. Ela o acaricia devagarinho... sussurra palavras doces mas ele não a escuta mais. Fica lá, surdo à ternura dela, como todo bom amor agonizante deve ser. Às vezes ele suspira um ai e ela corre, pressurosa, para se quedar ferida quando ele emudece indiferente.
Até que um dia, enlouquecida, ela estilhaça o amor e enterra o vidro no
peito. |
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Foi uma espécie de instinto, uma coisa estranha, ela sentiu forte que era ele. Eles se olharam atentamente e se conheceram, os olhos claros dela se embeberam no escuro dos dele. Percebeu a agonia, a solidão maior, a tristeza e o saber. Viu os caminhos tortos, os desvios e os acertos. Leu os titubeios e a determinação nas entrelinhas... Sempre as entrelinhas, aquilo que não se diz, aquilo que se deixa escapar, levemente, quase uma armadilha para o outro. O homem e o menino, a urgência do macho e a doçura do menino. Ele queria e ela ofereceu. Ela se ofereceu toda, sem condicionar, quase predestinada... As entranhas dela se derreteram e em aço líquido se derramaram. Quando viu o embaçar do olhar dele, começou a chorar. As lágrimas caíram sobre ele, que foi se alimentando delas.
No fim de tudo, ele lhe deixou só um gemido. |
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Todas as vezes que lhe via o rosto, através da vidraça embaçada de frio, sabia que ela esperava. Quando a saudade chegava forte, naquele país tão estranho, e a solidão lhe engolia a alma, ele sabia que ela estava ali, familiar e íntima. Ela o olhava nos olhos e ele sentia todo o alento que vinha dela. Podia ver a esperança e a agonia, sabia ler nela todas as ternuras pelas quais ele ansiava e fugia. Ela lhe trazia um gosto de infância, do tempo do destemor e tinha nos seios o calor da sua terra. Ele quase lhe sentia o cheiro do corpo maduro, a seda da pele dolorida, o gosto das laranjas douradas da sua boca e os dedos macios que lhe acariciariam as têmporas. Ela lhe incendiava as coxas e o bebia todo. Ele sempre sabia que ela o arrancaria, cuidadosamente, daquele mergulhar insano no poço infinito de si mesmo, com afeto e respeito pelas suas delicadezas. Em todas as ausências ele lhe sentia o sopro. Em todas as agonias ela o amava. Ele sabia que ela esperava.
E, sentindo medo, lhe fechava a porta. |
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Ela prende mais o casaco, levanta a gola e continua a caminhar. Sente o vento forte e frio no rosto, moldando o corpo, resvalando nas pernas. Os letreiros coloridos enfeitam a noite, a garoa fina torna o céu rosado. Os cabelos amarrados estão úmidos, e ela caminha, maravilhada, junto ao meio-fio. As pistas cintilam e têm as marcas sinuosas das rodas; é tarde, o movimento é pouco. Ela levanta a cabeça e fareja o ar. Adora aquele cheiro molhado, a sensação que a avenida lhe dá, o ir andando para o nunca mais. Sua cidade enorme, tão amada, tão desumana e tão doce, com seus edifícios altos como algozes vigilantes. A Paulista está entranhada em suas veias, um caso de amor, quase o desenrolar da vida. Ela vai caminhando, cadenciada, como se sentisse o roçar da pele em cada pedacinho, em cada quarteirão e percebesse o asfalto se estendendo dentro dela como um fio que a conduzisse através de um labirinto. Suspirando sente mais forte ainda o rasgar do vento.
Quase geme, arrepiada, quando um pequeno rio de água se esgueira pela gola
e lhe escorrega nos seios. O casaco, colado às pernas, é uma carícia. Ela
ofega, aperta o passo e vai desaparecendo no horizonte da memória,
engolida pela saudade da sua terra. |
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Vera, Ana |