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Duas almas o homem tem |
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Queria a eternidade. Queria a vida além de todo instante. Não seria deus nem santo; neles não cria, mas deveria ultrapassar todos os dias da existência. Ainda pequeno N. sonhava com outro mundo além do sensível. Lembro-me – ainda meninos, em torno dos sete, oito anos – de uma brincadeira por ele certa vez inventada de passearmos pelo teto. Caminhávamos pela casa, na mão um espelho voltado para cima. Cabeça baixa, íamos, assim, desviando dos lustres, saltando os portais, descobrindo uma nova casa dentro da já conhecida. Era o mundo capovolto, diria a nonna se soubesse de nossas atividades exploratórias. Não sei bem quando N. iniciou-se nessas questões especulares. Talvez tenha se apaixonado por Las niñas de Velásquez, cuja reprodução ornava a biblioteca de casa. O potencial mágico do espelho nos fazia ver o pintor ainda que de costas; mais: o pintor ganhava vida, se eternizava dentro da própria obra. Certo é que vida afora N. colecionou espelhos de todos os tipos e formatos. Anos a fio decorou as paredes de sua casa com uma infinidade de superfícies refletoras que, em recursividade, levava a um labirinto de imagens. Era a multiplicação do ser, filosofava N. Estudou e explorou todos os tipos – planos, convexos, côncavos – sempre à procura de sua real imagem. Às vezes ia longe em suas elucubrações: o que seria nossa essência? O corpo tangível ou nossa imagem estilhaçadamente íntegra em mil superfícies? Quando vieram os netos, N. começou a introduzi-los no bizarro mundo de suas paredes infinitas. Os meninos ora se divertiam com as armadilhas das imagens falsas ou reais, ora sentiam medo por estarem perdidos na profusão de reflexos. Os filhos nunca entenderam aquela mania do pai. Criados pela mãe desde cedo, participaram pouco daquele estranho ambiente. O que N. jamais confessou era seu grande sonho: ir para o outro lado do espelho. Existiria um universo para além das imagens refletidas – para além das almas humanas. Certa vez, ao menorzinho dos netos contou parcialmente seu desejo. Tocavam a superfície fria, ora com as mãos, ora o nariz, ora a testa; o menino ria das artes do avô, que desatinadamente seguiu o neto em gargalhadas febris. Não se sabe quanto ali permaneceram. Quando o filho veio buscar a criança, encontrou-a engatinhando entre suas múltiplas imagens. Procurou o pai, gritou-lhe o nome. Só encontrava sua própria imagem rodopiando pela casa, num desespero frenético. N, por sua vez, devia estar feliz. Encontrara sua outra alma. E nunca mais voltou.
Abril 2004 |
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Dia de mudança. Pilhas de caixas, araras com roupas cobertas de plástico, janelas sem cortina e um ir e vir de rapazes da transportadora. Até ali tudo parecia organizado, no horário previsto; apenas dentro de si havia um turbilhão de lembranças, e imagens como telhas. E eram telhas vermelhas, superpostas; algumas quebradas, outras lascadas, permitindo a entrada de chuva ou feixes de sol. Eram imagens empilhadas, sem lógica, seguindo um único padrão: o empilhamento. Aos poucos foi se lembrando da mudança em menina. Andava de um lado para o outro, em torno dos pais, que embalavam livros e louças, enquanto discutiam a eficácia das embalagens. Chegou a entrar em algumas caixas, grandes o suficiente para contê-la. Era tudo brincadeira. Dali passou para sua primeira mudança em adulta. Devia decidir que papéis conservar, que roupas mandar para o asilo da igreja... ah, os livros! Eram tantos. Convinha arrumá-los em caixas, obedecendo a sua disposição nas prateleiras. Isso ajudaria muito na hora de recolocá-los na estante. Houve ainda outras mudanças, sem contar aquelas de quando os filhos se casaram. Ela permanecia na mesma casa, mas um tanto partia com aquele que se ia. Ajudou a cada um a separar suas coisas, a acondiconá-las com carinho, sempre comentado sobre a história de cada objeto, cada brinquedo. Era um momento de alegria e de prenúncio de saudade – como doía embalar objetos de quem embalara havia tão pouco tempo. Mas os dias se passaram e novas arrumações em casa tornaram a enchê-la de alegria. Vieram os primeiros brinquedos dos netos, as inúmeras fotografias tiradas na escola sob a cômoda, os colchonetes enrolados dentro do armário para eventuais dormidas dos novos freqüentadores da casa. Que bom poder renovar alguma coisa na decoração! Novos tempos. Chegou então o dia, aquele dia. Partiria dali para outro apartamento. Sabia ser a última. Não haveria mais tempo para outras mudanças. Aquela, inexorável. Levou dias arrumando cartas, fotografias, objetos miúdos que traziam grandes histórias, roupas várias, de ocasiões solenes, de dias tristes, de momentos descontraídos – cada um narrava um episódio peculiar. Dali lembrou-se do grande espelho que a acompanhava desde que casara. Como ele assistira a tantos desfiles e provas, tantos sorrisos e tantos olhares de preocupação. Mas nada se comparava à hora de conto com as crianças. Diante do magistral espelho, com voz determinada, imitava a madrasta "Espelho, espelho meu...". E os meninos riam da sua dramatização, riso solto e recompensador. Na véspera da chegada da transportadora, anotou várias recomendações em um caderno de espiral, capa dura. Era um inventário de jóias e louças especiais. Determinava com quem ficaria em caso de, em caso de não mais mudança. Quando as possibilidades temporais se extinguissem, restariam apenas coisas e coisas a serem repartidas. Pensou então na ironia da palavra "repartir": dividir ou partir de novo? Partir para sempre? É, era esse o significado: partiria para sempre – e seu mundo se repartiria. Sua vida estaria partida, e de partida. Era pela última vez. Não mais mudaria, não mais embalaria lembranças, não mais revolveria sua história.
Olhou pela janela e avistou o telhado da casa vizinha. As telhas estavam
gastas pelo tempo. Algumas quebradas, outras lascadas, permitindo a
entrada de chuva ou feixes de sol. |
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Teresa Coutinho Andrade |