O salto fino do sapato ficou preso na calçada de pedras portuguesas. O corpo inclinou-se para frente, preso o pé e antes do tombo provável ela apoiou-se no primeiro braço que ia passando. Surpreso, ainda assim ele a sustentou.

Passado o susto, o constrangimento ainda no ar, os pedidos de desculpas.

Os de praxe, sem muito exagero. Por uma fração de minuto teve a nítida impressão de que ele divertia-se com seu constrangimento.

Como se eu andasse por aí a agarrar-me ao braço do primeiro...

Meu Deus, ele é bonito! Pior ainda, vai pensar que é isso.

– Precisa ainda de ajuda? Tem certeza de que não se machucou?

Ela pensando, tomara tivesse algum machucadinho, ele me levaria no colo?

– Não, obrigada – respondeu com um sorriso leve, os olhos a olhá-lo de baixo para cima, pois inclinou-se um pouco como a conferir o bem-estar do tornozelo. E olhou-o certa de que o sorriso e o olhar azul eram sua melhor arma. É agora ou nunca. E pôs-se ereta. Ele era um tanto mais alto ainda. Os olhos castanhos-claros também sorriam. Parado olhando-a.

– Está bem, então. Até outra vez. – Ele parecia hesitante.

Nada mais a dizer, estava bem, não caíra e ele queria ir embora. Não podia abordá-lo assim – que tal tomar um café comigo? Não tinha jeito para isso. Iria também, se possível antes. De modo que ajeitou a bolsa no ombro, passou a mão na saia, como a limpar algum cisco e deu o primeiro passo. Seu corpo abruptamente baixou, joelhos dobraram – Deus é pai!

Estava quebrado, o salto!
 
 

 
       
     

 

     


 

 

Silvia Chueire
Carioca, mãe de três filhos, psiquiatra com formação em psicanálise, tardiamente escrevendo essas bobagens, gostando demais de ler, e da vida.