Anita Cristina de Carli Perón era a mulher mais feliz do mundo.

Loura, alta, olhos vivíssimos cor de amêndoas, quase trinta anos, tinha feito o curso normal, era professora primária concursada da prefeitura municipal de Itararé, estava grávida de seis meses do quarto filho, já que tinha três guris com nome de santos, o mais velho Marcos, o do meio Lucas e o caçula Thiago, até que viesse o outro tão esperado noviço que, com certeza, iria se chamar Matheus Jr, como o pai, executivo liberal do ramo da informática.

Era uma segunda-feira úmida de agosto, frio em Itararé, Anita, que era filha de mãe descendente de imigrantes de Trento da Itália, e pai, como o maridão, descendente de oriundos de Toledo da Espanha, pegaria os herdeiros adoráveis com nome de discípulos de Cristo e os levaria para a casa da mãe, no alto da cidade, lados da Praça São Pedro.

Mal preparou o lanche matinal, quase nove horas da manhã, polenta frita de milho branco, pão Paraná e café com leite, ao ir preparar as escovas dos filhos de 9, 7 e 5 anos, foi que viu no espelhado adjunto ao boxe de vidro bisotê do banheiro, a mensagem do marido apaixonado que saíra cedo para o serviço de gerência numa loja na vizinha cidade de Itapeva. Socando rapidamente postas de dentifrício vermelho nas escovas dos piás (estava atrasada), emocionada leu: “Ni, te adoro! Bom dia. Beijão. Theus”. Ele, o marido, chamava Anita de Ni, e ela, a patroa, o chamava carinhosamente de Theus. Ela sorriu cheia de ternura, algo encabulada como era, e, em seguida, girando nos calcanhares voltou para a copa, ali no apartamento da rua São Pedro, perto da Praça Coronel Jordão em paralela rua cheia de árvores frondosas.

A rotina do casal era aquela. Ele pulava fora bem cedinho como havia cerca de dez anos, ela saía depois carregada de bolsas e trecos de crianças, passava na casa da mãe Dona Isaura De Carli e deixava os netinhos doces, depois ia pro Grupo Escolar Tomé Teixeira, fazer seu turno de trabalho numa segunda série. Da escola, mal lanchando depressinha, por causa da gravidez, ia direto pro curso de Pedagogia na Faculdade de Filosofia de Itararé. Depois do curso noturno em que estava no segundo ano de três, rapidamente jantava na mãe prestativa, sopa de regalos e mimos, preparava o marmitex de papel-alumínio com a gororoba pro amado, e voltava pra casa com a prole cheirando a terra e suor. Vida de luta. Mas a felicidade reinava no lar, ela batalhava e o marido Matheus era cândido, bom companheiro, apaixonado e serviçal.

O céu daquele começo de noite ainda era de um lírio-laranja muito belo, mas algumas estrelas sósias já pontilhavam lá no alto infinital. Um vento frio de agosto sanfoneava nos ipês amarelos, quando chegou aonde morava e, pegando o elevador pelo subsolo da garagem, garrou o apartamento setenta e dois no sétimo andar. Estava cansada. A barriga parecia um tijolo oval de seis quilos. O peito arfava os pesos pendurados.

Colocou o caçula ranhento no chão, os meninos polacos com as sacolas esperaram a mãe querida abrir a porta do apartamento. Ela virou a chave na fechadura e, mal tateou o falso marfim do botão para acionar o interruptor de luz, e a sala toda se iluminou totalmente nua. Vazia.

Os filhos ficaram sem voz. O caçula achou graça, num grunhido qualquer de surpresa. Anita Cristina estacou. O que estava acontecendo? Será o impossível? Não havia o jogo de sofás, nem a estante com livros e cerâmicas primitivas, sequer a mesa de centro que era de imbuia, muito menos os quadros nas paredes limpas, os vasos de comigo-ninguém-pode, sequer o cuco de estimação ou mesmo as samambaias ou cortinas de algodão cru. Anita não acreditou no que via. Pesadelo? Dilaceramento entre sombra e pesadelo. A terra se abriu, fantasmas, impressão negativa, zona neutra, atos de vontade eram inúteis, nem emoção ou memória, nada contra o que lutar.

Marcos achou que era uma brincadeira do pai metido a tatuador jovial em finais de semana. Abriu portas e, as outras áreas da casa sem luz, vazias. Lucas foi até o banheiro e sondou a varanda, o vazio. Nada. Thiago indagou à mãe com um imperativo olhar doce, cobrando resposta, mamando a chupeta azul com desenho de girafa de plástico nos lábios finos. Anita sentiu-se mal. Sentiu faltarem-lhe as forças. Suou frio, a barriga chutou um recado, os filhos correram acudir a mãe pálida, alguém lembrou de abrir os vidros da janela, outro correu ao interfone fazer alarido, fez-se um pandareco. Vizinhos curiosos chegaram como tartarugas, e logo surgiu o zelador, o síndico e um porteiro paroara bem molenga.

O outro porteiro, o mameluco Wilson contou que o Seu Matheus chegou de tardinha, caminhão-baú, dizendo que iriam mudar pra Itapeva, pediu ajuda, deu gorjetas, encheram o veículo. Não deixaram nada. Nem soquetes, a não ser o da sala, nem assento do vaso sanitário, muito menos tapetes, torneiras, chuveiros, trincos nas portas ou gavetas no bidê de fórmica chumbado na cozinha branca. Levaram tudo. O que puderam, embarcaram. Limparam tudo. Pensaram que a Dona Anita sabia. Estavam estarrecidos também.

Anita ainda desesperada. A noite invadiu-a. Perderia a posse de si mesma? Um labirinto na alma? O choque, a dor. O não se acreditar ali: estado de choque. A esposa do síndico, com o zelador mameluco, trouxe um colchão de casal, os filhos beiçudos amontoaram ali, e ali ficou a noite toda transida, segurando a mão trêmula da esposa romântica abandonada. Um vizinho trouxe limonada, outro trouxe o celular, Marcos, o mais velho ligou pro vigia da loja do pai, que deu o fone do sócio do pai, que falou que o Seu Matheus tinha vendido sua parte, tinha se desligado da empresa, passara com o caminhão de mudança por lá levando tudo; pegara sua parte de grana e dissera que iria embora da região, sem dizer para onde. Estava apavorado também com aquela postura do seu sócio minoritário que era meio esquisito mesmo.

Há noites que são eternas na alma da gente.

Correu o causo em Itararé. Criticada por alguns, amparada por poucos, fofocas, ilações, alusões, Anita viu que o esposo tinha vendido o imóvel, pago o saldo alienado na Caixa e levara toda a grana da venda também. A velha mãe, viúva, estava ali para servir, numa precisão emergente. Viu um resto de família chegar com a roupa do corpo, os olhos vermelhos, beiços murchos, feições de abandonos, e uma expectativa fincando lamento no silêncio de um não se explicar, o inexplicável. Ninguém acreditava. Só vendo pra crer. O céu por testemunha da tragédia.

No começo foi difícil, claro, mas Anita tinha que reagir, tocar o barco da lida. Teria que ser o que não era. A mãe era um ombro amigo. Os filhos começaram a ajudar como podiam, solidários, perdidos no íntimo mas procurando forças. Anita trancou a matrícula na faculdade, arrumou bico noutro lugar de trampo, começou a fazer sacolas de sacos de estopa de café, em pouco tempo a ferida virou cicatriz, a auto estima ganhou o band-aid do tempo, ela teve amparo sustentável dos colegas da escola, sobreviveu, só Deus sabe como. Os filhos começaram a trabalhar, logo que puderam, estudando à noite. Refez a vida. Mosaico de sofrências e tristices.

Claro que a polícia, por favor, o síndico com dó, um primo advogado por piedade, o zelador por carinho tentaram localizar o ladrão do lar que, lazarento, caipora, fugira com tudo, mas foi correria em vão. De posse inteira de sua tragédia Anita nunca mais tocou no assunto, deu à luz como pôde, deu o nome ao filho de Pedro José e seguiu seu rumo, sua pomada de amarga peregrinação.

Muito tempo depois, voltou a estudar, terminou a faculdade, foi promovida no serviço, virou Coordenadora Pedagógica, por fora tirou de letra a dor, por dentro nunca se sabe como sublimou, como foi a resignação, ou que neuras carregou disso, dentro de si, como um cadeado. Aliás, até hoje batalha feito uma louca, trabalha em quatro lugares, os filhos pegaram o tranco da luta, são jovens, bonitos, dignos, ela até que ganha bem, tem algumas posses, mesmo tendo sido lograda ocasionalmente por um falso amigo, um indigno namorado, uma perda ocasional de percurso, quando o destino ou a tragédia do destino, aqui e ali, batem à sua porta, no seu coração triste, na sua alma avelã, ou quando um espírito de resiliência muito forte em si supera os graus de ausências, as retiradas, os núcleos íntimos de abandonos de todos os tipos.

Ela sorri ainda, apesar de tudo, o mais suave sorriso do mundo. É incrível. Ela é vaidosa ainda, com todas as cores que podem suprir uma ternura de açúcar. Ela é filha, mãe, amiga, professora, sempre serviçal, prestativa e pau pra toda obra. Ninguém acredita, de ouvir falar, que ela passou pelo que passou, e sobreviveu, sendo ainda a fortaleza que é. Sempre disposta a servir, a ajudar, é a melhor funcionária da escola, não sabe dizer não, às vezes até é usada por ser assim, pegar amizade fácil. Sai de um trabalho pra outro. Finais de semana, faz plantão como bico numa outra escola, com ajuda dos filhos já crescidos, prestativos, dignos, amigos, solícitos, solidários, ótimos seres humanos sem aparentes seqüelas.

Conta-me de relações, como se estivesse sempre pronta (e forte) para o bote de uma víbora na estrada da vida. Seus olhos não conseguem revelar qualquer angústia, mas têm a estética de uma roseira que, mesmo podada sempre, ainda dá belas rosas. Seus gestos são afeminados ao extremo, seu andar é de fada pisando nuvens, ela está tomando conta muito bem do que faz, às vezes é machucada, mas ela tem na sua tez alva com sardas a seda limpa de aceitar pedradas, como um remanso de um rio repassando os estilhaços de águas vivas para não sofrer os cortes. Aprendeu na carne?

Nunca a vi reclamar de trabalho. Antes, luta, empenha-se. Soube da história dela por ouvir contar, mas sei dela presencial, como se se multiplicasse em dez para ser vinte, e estivesse sempre pronta pro gesto invisível do próximo tapa. Fala de paqueras com um medo-coisa meio ao creme de leite; fala de seduções como um gestual de quem fosse girassol esperando ser colhido; conta de intenções de amores que você só acredita porque ela é maior do que toda dor, superou-se, e tem tanto amor para dar que, Deus meu, se fosse traída mil vezes, abandonada mil vezes, mil vezes ofereceria novamente o seu amor inteiro e pleno de novo, mil vezes não diria de simples perdão, mas confiaria sempre, e outra vez, e de novo, no tipo amante à moda antiga, no jogo encardido de sedução, no príncipe encantado que a poderá passar a limpo, traduzi-la, amá-la como se ama uma pérola que se tornou jóia rara apesar das tristices de quem remou seco contra marés de sofrências dantescas...

Questionei-a, questionei-me, não sei como acabará isso tudo, essa história aqui não tem um fim em si mesmo, um fim perfeito e acabado, pois o amor não tem regras consensuais, o destino não tem viseiras, a tragédia não vem anunciada em envelopes com cheiro de alfazema antigo ou carimbo de pertencimentos. Não há questionários de renúncias...

Por que o marido foi embora já não faz sentido, nem tem muito a ver com o jogo de cena das probabilidades a serem aventadas.

Uma amante? Mau caráter? Viagem pro exterior? Uma doença incurável? Tudo isso e muito mais, ou nada a ver. Que crime perfeito é uma relação? Que navalha na carne é uma perda nessas condições? Não escrevemos nossas vidas na tábua de carne do tempo em vão.

Apenas, aqui e ali, imagino não um final pra Anita que é feliz, será feliz, terá netos, sua história ficará para sempre entre as que amam tanto no clã, mas imagino um final possível para um de seus filhos, talvez Marcos, o mais parecido com a mãe, o mais forte da casa, um homem perfeito e acabado.

Talvez num outro mundo, numa outra dimensão, numa travessia paralela, realidade substituta ou passagem, num país qualquer, no corte de um vão de um mundo qualquer, o filho do filho dele, ou ele mesmo com o código genético dessa marca sacrificial no refluxo do inconsciente, reverá o seu pai. Um sonho? Uma bruma? E o reconhecerá – como um judeu marcado conhece um outro judeu pelos números nazistas num braço flagelado – o pai que sumiu lhe será dado para eventual avaliação, e o identificará pelo desenho único e peculiar de um dragão roxo (com estrela de Salomão tatuado na testa); e o seu pai ali será um mendigo, um cego, um aleijado, um velho ermitão abandonado pela sorte que plantou em priscas eras.

E ele, meu Deus, reconhecerá o pai maldito, olhará os olhos daquele verme pra ver se identificará frustração, consciência pesada, arrimo de perdas inexplicáveis ou atestados de obviedades insaradas em desespelhos. Mas não quererá saber muito, nem sacar direitinho o que realmente houve, o que foi, como tudo se passou, por que tão vil ato. Não será algoz ou juiz. Estará limpo então. Sobreviveu pela graceza da mãe brava.

Nesse prisma meu, simplesmente recusará doar sequer uma lágrima miúda, vencedor e realizado que seja, nem um mero tostão para o ancião decrépito, nem dará mais que uma migalha sequer de olhar, nem censurador, nem de nojo, muito menos de vergonha. De insignificância germinal, talvez. Um olhar gelado? Pode ser, pode ser...

No meu precário entendimento final aqui narrador, ele, o filho abandonado simplesmente virará as costas largas (e suadas de trabalho e cruzes invisíveis que nem Freud identificará), colocará o belo paletó caro de grife sobre os ombros, e irá embora para sempre da vida daquele que não soube amar o amor, mas também e por causa disso – a dor! A dor! – revelou uma mulher fora de série que foi pai e mãe, lua e estrela, dia e noite, presépio e gólgota, e ainda permaneceu inteira sabe se lá como, para pelo menos fazer inteiros os seres que gerou, os homens que criou sozinha e amou por dois.

 

Conto da Série: Álbum de Família – Desgraça Pouca é Bobagem
 
 

 
       

 

     


 

 

Silas Corrêa Leite
Poeta, educador, jornalista. Pós-graduado em Literatura, Comunicação, Relações Raciais e Inteligência Emocional. Autor de Trilhas & Iluminuras, poemas, Editora Grafite (RS), 1995. Autor dos e-books (livros virtuais) Ele está no meio de nós e o pioneiro, de vanguarda e único no gênero chamado O Rinoceronte de Clarice – onze ficções fantásticas com três finais cada, um feliz, um de tragédia e um politicamente incorreto, (mais de 60 mil downloads), ambos no site www.hotbook.com.br.
Site pessoal: www.itarare.com.br/silas.htm
Romance Ele está no meio de nós no site www.hotbook.com.br/int01scl.htm