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Quase todas as manhãs, antes que eu saísse em direção à garagem, a porta do 605 se abria, e o novo vizinho aparecia quase à minha frente. Há pouco tempo morando no prédio, estávamos pois, os dois, no mesmo andar; distantes apenas alguns metros, a casa dele da minha. Bom dia, ele dizia com voz meio aguda enquanto colocava o lixo do lado de fora. Bom dia, eu respondia. Boa noite, eu o cumprimentava e boa noite, bom descanso, respondia ele. Assim fomos nos falando por certo tempo, frases curtas, sem sentido algum, nada mais que sorrisos, bons-dias, como vamos, boas noites. Naquela manhã houve interrupção de luz, justamente em hora de maior movimento quando todos saíam para a guerra diária. Atrasados para o trabalho, segunda-feira, sempre um caos! Irritação, impaciência... sem energia elétrica, o portão eletrônico não funciona. Quem tem a chave do portão? Ninguém respondeu. A modernidade nos fazendo escravos da tecnologia, nos tornamos dependentes de toda porcaria eletrônica que só serve para nos estressar: num dia é o controle remoto que pifa, no outro a pilha do controle está fraca e, como hoje, pane elétrica – nada de o portão se abrir! Aparece o vizinho do 605 com o saco de lixo em uma das mãos e na outra a bendita chave. Fomos salvos, acho. Alívio geral. Rapidamente posicionados em seus volantes e, como numa largada de Fórmula Um, se foram todos em direção aos seus respectivos fronts de batalha, linhas de frente. Fiquei por último, resistindo em meu bunker pessoal. Falei com o meu vizinho como de costume, o mesmo sorriso, o mesmo bom-dia, o mesmo como vai, que bom que o senhor tinha a chave, essas coisas. Contou-me por alto que tinha problemas com a mãe, velhinha, 90 anos, internada há uma semana por conta de uma invasão de pneumococos em seus debilitados pulmões. Lamentei que ele não tivesse ninguém a quem recorrer e nem com quem contar. Nenhuma ajuda de nenhum parente. Filho único, mãe viúva, os dois em BH, família toda no Paraná. Ele aposentado, cuida da casa, das compras, das contas, das plantas, da mãe velhinha-de-noventa-anos. Pobre homem! Então, até mais, eu digo. Bom trabalho, responde o meu vizinho do 605. Antes de sair o vejo debruçado sobre os dois vasos que ladeiam sua porta. Ele molha, sem pressa, imensas árvores da felicidade, daquelas bem verdinhas, lindas, quase à altura da campainha. Pensei cá com meus botões, quanta paciência em uma só pessoa! Como será para um homem dessa idade cuidar da mãe, dar remédio com hora marcada, virá-la na cama, ainda que a enfermeira venha para dormir com a velhinha-de-noventa-anos, trocar-lhe as fraldas, dar o banho da noite. Difícil para os dois, ainda mais considerando a idade dela e idade dele também! Fui me embora... No rádio do carro ouvia a CBN e sem paciência para escutar mais desacertos do presidente da república, mudei de estação e deixei que Vivaldi me acalentasse a alma e me tranqüilizasse o espírito já tão tumultuado àquela hora da manhã. Escolhi uma peça para oboé que adorava ouvir. Fechei todos os vidros, liguei o ar, e nem percebi o trânsito lá fora. Me deixei levar. Respirei fundo e fui a caminho da clinica onde tinha um compromisso durante toda a manhã. Meu dia passou como passam os nossos dias, todos tão iguais. Somos sempre tão parecidos, em nossas rotinas, nossos problemas, desassossegos e inseguranças, nossas dores, doenças, desafetos assim como somos similares em nossas alegrias, esperanças, nossos raros momentos de felicidade plena, nossos afetos e carinhos, pequenos planos, grandes sonhos. Somos todos tão parecidos! Voltando do trabalho chego em casa cheia de pacotes, cumprimento rapidamente o meu vizinho que também chegava. Estou faminta. Penso em um banho bem quente, água de colônia, pijama, chinelo, comida, tv. Ufa! Tocam a campainha. Olho para o relógio. Faltam dez para as dez. Abaixo o som da tv. Abro a porta. O vizinho! – Oi... – Oi... – É rápido, vim só pedir um favor. Me desculpe incomodar, mas vou precisar passar a noite no hospital com mamãe. Ela piorou, a febre não cede e o médico preferiu voltar com ela para o CTI. É, é melhor mesmo, ainda mais na idade dela! Mais seguro, não é? Pois é, queria deixar a chave de minha casa aqui. Amanhã de manhã chega de Londrina um amigo meu, o nome dele é Mauro, Maurinho. Falei com ele agora por telefone e não terei como buscá-lo, como sei que vocês acordam cedo, tomei a liberdade de vir falar com você. Olha, muito obrigado, viu, tomei essa liberdade porque você sabe, existem pessoas em quem a gente confia, mesmo sem um motivo especial. – Claro, nos levantamos mesmo muito cedo, os meninos e eu. Pode deixar a chave, sem problema algum. Não precisa de mais nada? Nada de cerimônia, viu? Então está bom... que tudo corra bem. E olha, pode ficar tranqüilo. Precisando de qualquer coisa, olha aqui... – Peguei um bloquinho na mesinha do telefone e anotei meu número de casa e do celular. Imagino que o Maurinho chegou de leito, vindo de Londrina, Paraná, pois nem sete horas eram quando tocaram a campainha. Meu filho atende e logo me grita dizendo que alguém procurava por uma chave. Respondo saindo do banheiro ainda de pijama. Encontro o Maurinho na porta. Um rapaz novo, tão bonito, cabelo de ronivon, com ar de cansaço e barba que parecia ter crescido durante a viagem. Quase não nos falamos, pouquíssima conversa: ele, poucas perguntas, eu, apenas respostas necessárias. Entrego a chave e ofereço ajuda. Qualquer coisa que ele precise, pode chamar aqui em casa. Se não estamos nós, estará Francisca. Ele agradece e sai. Em seguida os meninos vão para a faculdade, retomo minha correria diária e vôo para o computador terminar um trabalho que devo entregar ainda hoje na Associação Mineira de Psicanálise. Nunca fui escritora, não sou e nunca serei, mas adoro uma pesquisa e estou terminando um trabalho longo e cansativo que me deixou morta, literalmente exaurida. A psiquiatra que me encomendou a pesquisa é diretora da clínica onde estou atualmente e como fui indicada por pessoa poderosa, não posso fazer feio. Queria muito que ela contasse comigo para outros trabalhos porque, sabe, eu gosto de ficar em casa, pesquisando. Sou muito curiosa, bisbilhoteira também. Quanto mais sei, mais quero saber: sobre tudo, sobre todos, gosto de aprender de pequeninas a grandes coisas, fatos curiosos, coisas sérias, coisas fúteis, fofocas... gosto também! Sou perguntadeira por demais. Meus filhos abominam essa minha característica. Brinco com eles dizendo que eu daria boa detetive, investigadora, na pior das hipóteses, diretora de filme policial, dessas tramas deliciosas que me fazem roer as unhas. Penso nos Dez Negrinhos, da Agatha Christie. Amei a história e varei a madrugada até saber quem cometera os assassinatos. Gosto de coisas assim, que tiram o fôlego, adrenalina, cara, muita adrenalina. Francisca vai até o açougue e me diz que a chave do 605 está no chaveiro de sininhos que fica na porta da copa. Atrás da porta, porque os meninos acham ridículos esses porta-chaves que a gente dependura. Volto para o computador e o telefone toca. – Claro... claro que posso. A chave está aqui, sim, vou lá e verifico. Se estiver aberta, eu fecho e trago para cá. Depois vocês pegam de novo. Nada a agradecer, incômodo nenhum. E sua mãe? Melhor? Que bom... fique forte, vai dar tudo certo. Me enrosco em um velho peignoir, saio assim mesmo de chinelos. Não resisto à curiosidade de poder penetrar na intimidade daquela casa. Fico contente que Francisca não esteja por perto. O que ela iria pensar de mim? Louca de curiosidade pelo alheio? Logo eu? Abro a porta e entro no apartamento 605, pois, efetivamente Maurinho se esquecera de fechá-la. Por isso o vizinho me ligara do hospital pedindo que eu fosse checar. A persiana ainda fechada permite a entrada de pouca luz. Vou olhando e procuro conhecer um pouco mais sobre o meu vizinho. Por nada eu perderia uma investida, de pura curiosidade, naquele lugar. Que sala estranha! Paredes verdes, tetos brancos, com sancas em alto relevo, uns florões enormes, entremeados de laços. Os dois ambientes em um só, o pequeno hall com espelhos, a sala de visitas, com poltronas na cor mostarda; arandelas, aparadores, um par de cisnes de porcelana, e alguns livros na parte de baixo. Sabe aquelas fotos antigas, em sépia e branco, ovais, emolduradas por largas tiras de madeira escura que existiam na casa de nossas avós? Duas... duas na parede principal. Pelo estilo da roupa e dos cabelos imaginei que fossem os avós do meu vizinho. Vasos e cachepots de porcelana, havia vários. Todos bem coloridos. Flores! Muitas flores espalhadas por todo lado. Sobre a estante, sobre a mesa, na mesinha de telefone e no parapeito da janela. E tapetes então? Contei rapidinho, seis! Dois deles persas, com certeza... os outros desses tabacows, de qualidade um pouco melhor, mas sem pedigree. O apartamento nem grande era, mas parecia maior que o meu, talvez pelas reformas ali já feitas ou pela disposição dos cômodos. Prata, peças de prata, impecavelmente polidas. Um pequeno samovar, dois cinzeiros e uma bandeja com serviço completo de café. Me pareceram portuguesas! Dois lustres em cristal, com lágrimas, pendendo do teto. Um deles sobre a mesa de jantar o outro sobre a mesinha de centro. O maior com porta– lâmpadas, de murano, pintados, imagino que à mão e com cara de obra italiana. Me perguntei se tudo aquilo viria de sua própria família ou se seria ele um rato de antiquários. Eu não tinha muito tempo, afinal só estava ali para confirmar se a porta ficara mesmo aberta, conforme ligação do vizinho para minha casa. Já poderia ter ido embora mas a curiosidade me deixava acesa e continuei olhando os livros na estante, impecavelmente arrumados, distribuídos por ordem de tamanho, coleções de capa dura, com vermelho e dourado e sobre a mesinha lateral, quatro volumes empilhados. Me curvava para um lado e para o outro na tentativa de ler todos os títulos. Droga, deixara os óculos em casa e precisava apertar os olhos para ver alguma coisa de pertinho: Alice no país das maravilhas, Vidas secas, um Virginia Woolf e outro de capa azul com as letras douradas, já quase pagadas. Nada de poesias, pensei. Muito bem. Chego o pescoço no corredor e não resisto. Do lado esquerdo o banheiro, cuja luz ficara acesa. Luzes e luzes, pois havia duas lâmpadas de teto além de umas seis ou mais circulando o espelho por cima do aparador. Tudo em bege e rosa-antigo, de bom gosto, discreto, ambiente florido com vasos de bambuzinhos naturais pendendo da janela. Por sobre a bancada de mármore, uma dezena de frascos de perfumes. Nada tirei do lugar mas li cuidadosamente (apertando os olhos, claro!) cada um dos rótulos nos vidros impecavelmente limpos. Foi possível ver que entre yardleys e armanis alguns calvinkleins também se faziam presentes na bandeja de prata com forrinho branco de crochê. Um luxo! O jogo de toalhas banho-rosto-bidê tinha cara de coisa feita por mãe-da-gente, com barras largas de crochê e bordados em ponto de cruz. Não pude deixar de notar o tapete chinês, com flores em alto relevo, todos os tons de bege e rosa. Bonito! Eu não tinha muito tempo e além do mais deixara a porta entreaberta, assim me sentiria menos culpada pela invasão daquele domicilio. Do corredor avistei os dois quartos. Um deles, imaginei, seria o quarto da mãe-velhinha-de-noventa-anos. Do lado da cama estilo marquesa, uma caminha pobrezinha, provavelmente para a enfermeira da noite. Lustre, flores na janela, cortinas brancas de cetim, do teto até o chão; dois tapetes, um ao lado de cada cama, sobre a cômoda, também marquesa, caixinhas de remédios das mais variadas cores e tamanhos. Jarra de cristal, dois copos, com porta-copos de metal, uma revista de palavras cruzadas, uma bic preta e uma caixinha que não quis ver o que havia dentro. Do lado direito do corredor um quarto grande, a suíte do casal, pensei com ar conservador e preconceituoso. Deve ser aqui, falei para mim mesma. Cama com dossel... há quanto tempo não via isso a não ser em filmes de época! Quarto grande com cortinas grenás, de cetim, desde o teto caindo sobre um imenso tapete persa, quadrado, ocupando todo o piso. A cama era de ferro, porém com flores e folhas trabalhadas por sobre o gradeado. Por detrás saía um tubo que se curvava para a instalação do dossel que, preso, não me deixou sequer entrever como seria. Uma colcha belíssima, também em tons de vinho e rosa, almofadas indianas, cheias de brilho, se misturavam aos travesseiros de fronhas lisas. Numa das laterais da cama, belíssima peça em petit bronze, uma caçadora trazendo um cervo pela coleira. Um vento imaginário soprava suas roupas esvoaçantes, e um cão deitado aos seus pés compunha o belo abajur. Do outro lado, em tamanho menor, um pequeno lustre de cristal com pequeninas contas dependuradas, um livro de capa preta, um porta-óculos. Havia ainda uma arca que nada tinha a ver com o mobiliário, sobre ela uma sacola de viagem, aberta, uma caixa de sapatos, fechada, dois pacotes de presentes. Ao me virar me deparo com uma cômoda. Sobre a cômoda vários porta-retratos. Imagino que seja o meu vizinho nas fotos: quando bebê, no colo da mãe, o pai bigodudo do lado; de uniforme no jardim-da-infância, no time da escola, recebendo diploma, vestindo casaco em paisagem nevada, uma longa viagem, talvez. Esse é o Maurinho... Porto Seguro ao fundo; São Paulo, Viaduto do Chá; Praia de Ipanema, Rio; Pelourinho em Salvador. Os dois, em pose tradicional, mãos na cintura, sem olhares de cumplicidade, sem sorrisos compartilhados, sem demonstrações explícitas de afeto, mas sempre juntos. Sobre as fotos as datas: a mais antiga de 1998, a mais recente desse ano, janeiro de 2004. Fico olhando os dois nas fotos. Sinto-me invadida por uma certa ternura morna vendo-os ali, lado a lado. Imagino cenas de alcova nesse quarto onde estou, penso no quanto a vida é estranha e generosa ao mesmo tempo. Deixo de lado meus pensamentos antigos, cheirando a mofo. Me dou conta de que cada um é feliz à sua maneira e que bom que seja assim! Interesso-me pelo conhecer em profundidade a alma das pessoas, de todas as pessoas. Penso ainda em como eu seria feliz se pudesse entender o que vai pelos corações e mentes das pessoas a quem amo. Será possível voltar a estudar na minha idade? Levar meu trabalho até à clínica e pensar em me inscrever para um curso, talvez? Psicologia? Psicanálise? O cenário do 605 me enche de emoção. É como se eu visse em seus quartos, em seus vazios, seus silêncios todas as experiências humanas reunidas. A solidão, a tristeza, a doença, o abandono, o passado ali tão presente, mas também indícios de futuro, de re-começos, de pequenas alegrias, da vida que pulsa apesar de, e não pára. Sinto-me empurrada dali... caminho em direção à porta. Olho e não vejo ninguém nos corredores. Ainda bem. Fecho a porta, passo a chave, tranco no 605, todas as histórias que a minha mente foi capaz de criar. Volto para casa, Francisca ainda no açougue. Na tela do meu computador o trabalho que preciso entregar ainda hoje. Respiro lenta e profundamente. Sirvo-me de uma xícara de chá. A manhã está fria, venta muito. Olho para o telefone que não toca. Tomo devagar minha xícara de chá. Pensamentos me invadem, seres humanos, sentimentos comuns, pessoas, vida! E uma compaixão imensa toma conta de mim.
Maio 2004 |
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Theodore está me traindo! Só de pensar na possibilidade de algo concreto sinto mal-estar físico. Meu coração dispara, vem à boca. Antes mesmo de qualquer certeza meu pensamento voa, já penso lá na frente, já nos vejo no tribunal, divisão dos bens, a dor, o sofrimento, a surpresa dos parentes e amigos. Calma, preciso de calma. Não enxergo nem mesmo o painel do carro à minha frente, as lágrimas inundam meus olhos e preciso respirar fundo para tentar raciocinar um pouco. Faço algumas asanas na esperança de me sentir melhor. Abro as janelas do carro. O vento frio me reanima, volto a fechar as janelas e olho para a prova do crime: do lado direito, na parte interna do pára-brisa dezenas de marquinhas de dedos. Com se fossem pequenos carimbos, estampados pelo vidro mas concentrados, exatamente, na direção de quem se encontrava ao lado do motorista. Olho para as marquinhas e me convenço de que a autora (!) das mesmas deveria estar bastante ansiosa para repetir por tantas vezes o mesmo gesto de colocar o dedo no vidro. Imaginei que "ela", (porque a essa altura, ela já tinha uma imagem definida em minha mente) estaria nervosa, talvez cobrando alguma atitude "dele". Será possível, meu deus? Acredito e não acredito! Ouça no rádio, são nove e meia. Falta uma hora para a minha aula de yoga. Não posso permitir o caos que insiste em se instalar em meu sistema energético. No sinal fechado ensaio uma mudra, gesto de mãos que melhora nosso fluxo de energia. Meu coração ainda bate descompassado, mas me sinto um pouco melhor. O trânsito flui lentamente pela Columbus Avenue. Estou próxima ao Central Park, na altura da 86 Street. Com um pouco de sorte posso chegar sem atraso ao Divine Mother. Inspiro e expiro, inspiro e expiro, quem será ela? Eu a conheço? Será uma cliente, uma arquiteta, colega de faculdade, uma funcionária do escritório, alguém encontrado por–puro-acaso dentro do metrô? Nada sei... Um calor me consome, tiro o casaco, desligo o aquecedor do carro e enquanto espero o sinal coloco um Cd com mantras tibetanos. Ao invés de me acalmar, me enervo com aquela repetição sem fim. Volto para o rádio, o homem do tempo informa que vem mais frio por aí. O sinal fica verde, eu vou, eu vôo. Mas para onde? O que será de mim depois da aula de yoga? Depois de todas as posições invertidas, relaxamentos, voltarei para o meu inferno particular, e aí? Tenho sede e nem uma garrafinha de seltzerwather no carro. À minha direita o Madison Square Garden, fervilhando de gente nessa manhã de quarta-feira. Não falta muito para chegar ao Greenwich Village. A academia fica na Christopher Street e não vou me atrasar. Respiro longa e profundamente. Vai me fazer bem essa aula de hoje, só espero poder falar com Mrs. Narayana no intervalo. Ela sabe ouvir e terá muito o que escutar de mim.
"... Existe uma conexão fundamental entre a respiração e os estados físicos, mentais e emocionais. A energia vital, a respiração por detrás da respiração, entra no corpo pelas vias nasais."
Sim, claro. Inspirar em oito tempos, expirar em oito tempos. Esvaziar o pensamento, deixar o corpo flutuar. Como não pensei antes na possibilidade de Theodore ter outra pessoa. Infidelidade era algo tão distante do nosso dia-a-dia! Ou será que distante apenas do meu dia-a-dia? Trair, enganar, mentir, omitir, aventurar, por mais que eu me considerasse moderna nunca pude conviver com essas idéias. Eu tinha amigas que achavam tudo tão natural. Mary Jo, minha colega de yoga, leva a vida numa boa, sem se importar com aonde o marido se meteu nas vezes em que liga para sua loja em Chinatown e os funcionários nunca sabem dizer onde ele se encontra. Ah, aquele meu chinês, ela diz, mas lá no fundo ela não quer mesmo nem saber. Muito mais cômodo assim. Mary Jo acha que a felicidade se resume em carro com motorista, jóias, viagens, roupas, jantares no The Lion e todos os eletroeletrônicos capazes de fazer a sua vida melhor a um simples toque no remote control. E cachorrinhos! Ah, claro, porque filhos, nem pensar. O chinês não quer, a mãe do chinês abomina a idéia de ganhar um neto criolo, um escurinho de olhos amendoados, pois Mary Jô, na verdade, nasceu Aleyda, negra cubana que hoje se delicia em Nova York com as maravilhas do mundo capitalista.
"... a tensão física nos músculos respiratórios, localizados entre as costelas, pode causar rigidez no peito e até dor. Técnicas de respiração descontraída irão liberar a tensão em todo o seu corpo."
Theodore! Como pude ser tão ingênua a ponto de acreditar nos muitos novos clientes, no escritório caótico, nos projetos se acumulando sobre sua mesa, nas horas extras, trabalho e mais trabalho. Ainda que tudo fosse verdadeiro não seria necessário tanto tempo extra a cada dia, todos os dias da semana, inclusive aos sábados! Fico me perguntando sobre quando foi mesmo que Theodore começou a mudar. Não me recordo, não me lembro. E ele mudou, sim. Até reclamei do quanto ele vinha fumando, sempre de cigarro na mão, aquele hálito que não me agradava nem um pouco, um cheiro horrível em suas camisas brancas, no travesseiro, tudo impregnado com o mesmo e terrível cheiro-de-cigarro. Ele vinha também bebendo mais do que o normal. Já não mais socialmente, mas com freqüência. Andava meio calado, mas como nunca fora de falar muito, eu achava que estava tudo bem. Algumas vezes me lembro de ter acordado à noite para fazer xixi e encontrá-lo no sofá, deitado, fumando e ouvindo seus discos de jazz. Insone, dizia ele, não consigo me desligar do trabalho, você sabe como é. É, eu sabia...
"... além de incentivar a respiração através do nariz, num padrão suave, a yoga estimula o uso do diafragma e a coordenação entre movimento e respiração."
Depois da aula vejo que Mrs. Narayana não falará comigo, tem um swami esperando por ela. Mary Jô me pede uma carona. Digo que tudo bem. Espero por ela no estacionamento. Coloco um casaco por cima da malha e desço de uniforme mesmo. Ela fala sem parar, nem percebe minha angústia. Temos alguns minutos até a Penn Station, ali na 34 Street. Falamos de coisas banais, o frio, a manhã, o final de semana. Convida para uma ida até Atlantic City. Mary Jô adora um cassino, enlouquece diante de uma roleta. Enquanto fala coloca os dedos finos sobre as marquinhas no vidro do carro. Tenho uma estranha sensação. Theodore já terá ligado pelo menos uma vez antes do almoço? Hoje, consultório só depois do meio-dia. Posso passar em casa, sem pressa, mexer em alguns bolsos, xeretar suas gavetas, alguma outra pista deve existir. Mas que tipo de mulher sou eu? Estou ou não triste com a descoberta? Tenho certeza ou não do fato consumado? Quero bancar a detetive ridícula ou não? Não sei se quero ligar para minha amiga Jennifer. Tenho vergonha de mostrar minha dor. E se nada disso for verdade? Eu preciso saber, mas como? Vou telefonar... Para quem? Vou dizer o quê? Quero minha mãe, preciso de colo, mas acho melhor não. Todos saberão que fui passada para trás. Não me agrada essa idéia. Fico olhando as pessoas correndo lá fora. Fico imaginando coisas, muitas coisas. Preciso saber se o meu carro ficou pronto, não vejo a hora de entregar para o Theo o carro dele, com as marquinhas dele. Não toquei em nada, mas quero saber das marquinhas. Chego em casa, tomo um banho e enquanto preparo uma salada ligo para o escritório. Ele conversa normalmente como se nada houvesse de diferente (e talvez para ele não haja mesmo). Pode pegar o meu carro no final da tarde? Sim, na Lexington quase esquina da 68, perto do Hunter College. Bye! Já estou me refazendo, programação neurolinguística é coisa séria, adianta mesmo. Venho me exercitando desde a hora do banho e já começo a me sentir diferente. Entre um suspiro e outro vou exercitando minha respiração bástrica. Acendi uns sticks de sândalo, acendi uma vela amarela, coloco-a frente a uma foto nossa, felizes e sorridentes nas últimas férias de inverno. Peço proteção a Deus, à Krishna, aos monges do Tibet, invoco Buda, quem puder me ajudar... que venham todos em meu socorro. Passo a tarde atendendo no consultório. Nenhuma novidade, a mesma rotina de sempre. Um dente que incomoda, uma obturação que soltou, um siso que insiste em despontar. Olho incontáveis vezes para o relógio. Quero ir para casa, mas não quero ir para casa. Quero olhar Theo nos olhos e perguntar o que quero saber. Mas eu não quero saber. Quero enfrentar a realidade, encarar os fatos. Mas a realidade é tão dura e os fatos tão convincentes. Encarar os problemas, por piores que eles sejam é sinal de força. Mas eu não sou uma mulher forte, não sou corajosa. Me pego numa fragilidade sem fim, uma trapezista sem rede. Quero que tudo se resolva rapidamente, mas não quero que doa, não quero sentir pena de mim. Tudo, menos autocompaixão! São duas horas da manhã e Theo ainda não chegou. Jantei sozinha, assisti ao jornal na tv, li rapidamente as notícias na Internet, joguei paciência mas impaciente fui arrumar gavetas. Organizei os casacos, todos com o cabide virado para o mesmo lado, dobrei blusas, dependurei camisas, organizei sapatos em caixas, refiz a pilha de malhas, juntei pés de meias, tirei do dedo a aliança. Só então começo a chorar. Choro de verdade, lágrimas quentes em cascatas. Choro por mim, pela minha dor, pela decepção, pelo inesperado da situação, pela incerteza, pelo luto em meu coração. Choro pelos planos que fizemos juntos, pelas viagens programadas, pela casa vazia e triste sem seus livros e discos antigos de jazz. Choro por Theo, por sua deslealdade comigo, reconheço sua infelicidade, me arrependo de tudo quanto não fizéramos por nós. Lamento pelos filhos que tanto planejamos, pela casa de campo nunca construída, pelas noites em que dormimos sem nos perdoar, das bobagens que nos dissemos, das mágoas que nos causamos, todas desnecessárias. Agora deve ser tarde... Revejo nossa vida, juntos e acredito que nós dois, ele e eu, permitimos muito, fizemos concessões demais, cuidamos pouco do nosso afeto, fomos deixando que o dia-a-dia nos consumisse e agora, olha só no que deu. Separados... assim seremos daqui pra frente. Perdi a conta de quantas xícaras de chá foram consumidas até que a porta se abrisse e Theo aparece. Hoje é quinta-feira, meu day-off. Não tenho vontade de sair da cama. Faz muito frio, o dia está cinzento e o sol não vai aparecer. Acabou-se, tudo resolvido. Me abraço ao travesseiro dele, decido ali que chorarei cada vez menos. A dor no peito não pode ficar para sempre. Não sou a única. Vai passar. Lentamente, mas vai passar. Não morrerei. Não matarei ninguém. Somos práticos e tudo será resolvido civilizadamente. Preciso de tempo, de muito tempo. Preciso reorganizar minhas idéias, preciso de aspirina para minha dor de cabeça, de prozac para melhorar o meu dia, de coragem para sair à rua, de colo, de falar com alguém, de lexotan para poder dormir. Preciso de tanto! No vazio do meu coração, da minha alma, da minha mente ecoa uma frase única:
– Sim, o nome dela é Sarah. |
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Rosângela Maluf |