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Essa é a quarta vez, em menos de uma hora, que abro meu Outlook. Ansiosa, eu sou sim, e muito! Estou esperando um e-mail, sabe. Conheci um carinha numa livraria do shopping, começamos a conversar, trocamos cartões e ficamos de combinar um café para falar de literatura. Ele também procurava por livros budistas. Me pareceu gostar de assuntos orientais, falou de hare krishna, dalai lama, ganesh, do Tibet e da Índia, essas coisas. Fiquei empolgada mas fiz de conta que não. Achei-o um gato, apesar da barriguinha sob a camisa pólo. Também, fala verdade, qual homem, na faixa dos 40, que não tem um montinho ali, mostrando ser grande tomador de chopp? Não sou assim tão exigente, uma barriguinha não tem importância alguma. Nem a falta de cabelo que ele tenta disfarçar penteando para o lado o cabelo já um pouco grisalho.
Entram textos, artigos anexos, propagandas disso e daquilo, spans e mais spans e nada do recado que tanto quero receber. Abro e fecho minha caixa de entradas enquanto faço o relatório da reunião de ontem. Dr. Oscar está atacado, já liguei, só agora de manhã, umas seis vezes para Brasília. A conta no exterior vai dar problemas para ele, mas eu não estou nem aí. Primeiro porque a secretária mesmo, a de verdade, está de licença, com o filho doente. Pediu uma semana de folga. Aí, sobrou para mim. Me tiraram lá do departamento pessoal para vir trabalhar com o Dr. Oscar. Não tenho o que reclamar dele, é educado, me cumprimenta, mas é virginiano, um chato! Um chato daqueles de causar arrepios. Tudo minuciosamente organizado, meticulosamente planejado e cuidadosamente executado. Um saco! Não vejo a hora de Letícia voltar. Dia inteirinhozinho, ele chama. Fala pouco pelo interfone mas adora chamar a gente. Às vezes, para nada... para pedir um cafezinho, entregar uma folhinha para xerocar... bobagens!
Olha, a barriguinha não me incomoda, o pouco cabelo também não... Cabelo enroscadinho, detesto. Raspadinho, só para jogador de futebol. Bonitos os seus cabelos lisos. Achei também que ele tinha assim um sorriso aberto, desses, escancarados. Sabe gente que sorri com os olhos? Achei ele assim, com jeito de gente franca, sincera. Talvez por isso gostei. Gostei mesmo, mas vou esperar que ele ligue primeiro. Não quero parecer muito interessada, porque você sabe, se eles percebem o menor sinal de interesse, somem no mapa, não dão nem notícias. O diretor da filial de São Paulo acabou de chegar na Pampulha. Ligou para cá dizendo que o chofer não se encontra no aeroporto. Nem comento com o Dr. Oscar. Bipo seu Alcides e digo para se apressar, o homem já baixou em BH. Abro de novo meu Outlook... novenas, cursos de inglês, viagem para Bariloche e nada! Também, olha, nem meio-dia. Vamos que ele chegou no trabalho, aquele monte de coisas para resolver, não deve mesmo ter tido tempo. Respiro fundo, bem fundo. Abro a persiana e sorrio para a serra do Curral, linda, recortando o céu azul de maio. Adivinha uma outra coisa que gostei – das mãos dele. Adoro mãos masculinas, daquelas grandes e largas, com unhas quadradas, sabe como? Me passam a impressão de homem forte, decidido, capaz de longas carícias, afagos, abraços. Vou esperar mais um pouco, sem ansiedade. Procuro controlar meus ânimos exaltados... Passo uma última olhada na sala de reunião. Chamo a copeira e peço que troque os guardanapos de papel. Dr. Oscar é capaz de ter um infarto se não vir sobre a mesa os guardanapos de linho, impecavelmente brancos. Ajeito o vaso com copos de leite e gipsies, também brancos. Confiro se está tudo ali, duas garrafas de café, adoçante, os petit fours, impecáveis na bandejinha de prata. Sorte minha a Letícia ter me ensinado tudo senão nem sei como seria. Por outro lado, fiquei como substituta-oficial-da-secretária-mor! Toda vez que ela se ausenta por qualquer motivo lá vou eu substituí-la. Não mais que dez dias, tempo para que ela tire suas férias e volte para a chatice do Dr. Oscar. Dr. Oscar e sua mesa para a reunião das 11h30. E isso lá é hora de reunião? Volto para a telinha do meu computador mas nenhuma mensagem dele. Gstaad é uma estação de esqui. No meu protetor de tela tem uma foto desse lugar. Acho o nome tão lindo. Gstaad. Montanhas imensas cobertas de neve. Lugar de gente muito fina. Férias de inverno. Como serão essas férias? Com todo aquele frio, nem imagino. O telefone toca. Ligação pessoal para o Dr. Oscar. Não posso passar agora. Reunião é sagrada, nem pensar em incomodar. Só em caso de morte, ele diz. O telefone toca de novo. Do banco. Anoto o recado. Vou ao xerox buscar as cópias que preciso para a tarde. Encontro as meninas no café e paro por alguns minutinhos. O telefone toca. Dou uma corrida e volto para atender. Ninguém responde. Saio novamente em direção ao xerox. Encontro a Lúcia no corredor, pergunto pelo filho morando em Chicago. Ela diz que está bem mas que morre de saudade. E começa a chorar. Sem saber o que dizer, volto para minha sala à espera do meu-moço-do-sábado-no-shopping. Mas é o Dr. Oscar que me espera. De novo persigo na telinha a mensagem tão esperada. Que demora... oito, nove, dez mensagens. Nenhuma que me interesse, quero dizer, nada dele! Daqui a pouco saio para o almoço. O telefone toca outra vez. É a esposa do Dr. Oscar. Desligo e peço para o seu Alcides que passe na academia e a leve em casa! Ah, moço da livraria, por que você não dá o ar de sua graça? (Suspiro).
Hoje é quinta-feira. Não vejo a hora da Letícia voltar. Ando cansada com
toda a trabalheira que isso dá – reuniões e mais reuniões. Até briga houve
na terça-feira de noitinha. Também, servir uísque em reunião, queria o
quê? As pessoas vão se alterando, deixando de lado o bom senso e a boa
educação. Mas não foi nada sério. (Outro suspiro.) Chegam as
correspondências. Um monte de envelopes brancos, envelopes pardos,
envelopes amarelos e azuis do correio, caixinhas de sedex. Dr. Oscar, em
reunião fora da empresa, me dá mais tempo para abrir tudo agora e deixar
prontinho sobre a mesa dele. A serra do Curral está lá, no mesmo lugar. Eu
já nem ando sorrindo mais. – ......... – ......... – ........ – ........
Meu coração salta pela boca. Me sento para tentar respirar normalmente.
Ofegante, deixo sobre a mesa a cestinha de violetas, obrigada Letícia,
muito obrigada pelas flores. Ah, moço, que bom que você ligou. Vou sim,
vou correndo agora mesmo para o Café Três Corações me encontrar com
você... para falarmos de literatura, é claro! |
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– Olha, Suzana, quem já está de saco cheio, sou eu. Já é tarde, amanhã trabalho cedo e você fica aí nessa reclamação sem fim como se eu tivesse culpa pelos seus insucessos amorosos. Falei mais de mil vezes, esse cara não é flor que se cheire. Basta prestar atenção ao que ele lhe disse, um papo atravessado, sem finalidade, apenasmente querendo levar você para a cama. Só podia dar mesmo numa trepada desastrosa. Eu sei, claro que sei, sei da carência, solidão, tristeza, final de semana sem nenhum plano de ação, o que fazer na sexta-feira à noite. Tudo isso, já sei. Você já me disse, vive repetindo, batendo na mesma tecla. O papo não muda, é sempre a mesma ladainha. Sei da sua dificuldade em ficar bem, sozinha. Sei, vive falando que sente falta de companhia, que não nasceu para viver só, mas puxa, é preciso fazer sua parte. Ser mais seletiva, se vender mais caro, se dar mais valor, sabe? Não é possível que nesse mundo de meu deus não exista um homem decente que possa lhe fazer feliz. É só uma questão de tempo, um dia ele aparece. Nem precisa ser um príncipe, pode ser um sapo mesmo. Lembra do Sapo? Feio de dar dó, mas como animava nossas noites com aquela voz de chicobuarque! E aquele violão que só ele tocava tão lindamente. O mercado está terrível, todo mundo sabe disso. Muita procura e pouca oferta, qualidade em baixa e olha que aqui em Beozonte a situação ainda é pior. Dizem que existem dez mulheres para cada homem. Dez! Não sei de onde tiraram essa estatística mas que assusta, assusta. Olha, Su, quantas vezes já falamos sobre os seus homens, sua relação com eles, os cafajestes, os intelectuais sujinhos, com óculos na ponta do nariz, os sem ter sequer onde cair mortos, pobretões rodando de fiat147, os empresários que sua prima lhe apresenta, os bons partidos da cidade, onde é que estão os bons partidos dessa cidade? Agora vem com essa de que se o cara oferecer cem, você ainda dá troco. Por favor, né, você quer que eu diga o quê?
– Pára, dá um tempo para você mesma. Ponha a cabeça no lugar. Faça um balanço do que temos conversado nas últimas semanas e tire suas conclusões. Você está muito mal, minha amiga, pode acreditar. Auto-estima lá embaixo, se contentando com migalhas, com restos; abatida, cheia de olheiras, parece um urso panda. Eu, se fosse você, procurava urgente um médico. Sim, e um terapeuta também, porque só pode ser coisa séria. Mas nada de pânico, nada tão grave que um lexotan, um prozac não resolvam. Uma mulher tão bonita, ainda nova, quantos anos mesmo? Ah, sim, trinta e seis. Mulher inteligente, sensível, culta, viajada, dois casamentos, nenhum filho, independente, apartamento próprio (financiado pelo BNH, mas é seu!), um carrinho maneiro, importado. Olha só, o que você quer mais? Ou você se acha a única mal amada e que não tem nenhuma garotinha, tipo vinte e poucos, por aí lamentando a falta de um ombro amigo? Sei... sei... mas com o Lourenço acabou faz tempo. Se mandou para o Canadá e não volta tão cedo. Não foi a irmã dele que disse que o cara, desde a segunda semana lá, já está morando com uma vietnamita, em Quebec? E então, vai passar o resto dos seus dias se lamentando por não ter tido paciência com ele? Que César o quê? Ele nunca te quis de verdade, te esnobava, insinuava que você era uma burguesinha, metida à classe A. Ainda que fosse de brincadeira, eu o achava um grosso, um mal-educado, com aquela barbicha nojenta despencando queixo abaixo. Não... você não é azarada, mas está dando uma de burrinha. Claro que sim. Está... Está sim. Nem parece a economista brilhante que é. Voltar pra quem? Ah, juro que você pirou de vez. Voltar para uns jantarzinhos à luz de vela, vinho chileno, e várias tentativas seguidas de várias desistências? Foi você mesma quem me contou da disfunção erétil do Tide. Antes era terrível, agora pode ser que não? Ah, tem dó. Estou lhe ouvindo, mas continuo morta de sono, amanhã... Sei, então telefone para ele, mande e-mail e, pacientemente, aguarde uma resposta. Que história é essa, retomar um caso de doze anos atrás. Você nem sabe se ainda é o mesmo telefone e o e-mail que a sua ex-cunhada lhe deu já pode ter mudado. O cara casado, cheio de filhos, levando a vida sossegadamente em Santo André, com a sagrada família. Acho loucura. Su, você está bebendo? Vodca com sucomais, tá bom. Você é quem sabe do seu fígado amanhã. Olha, vamos almoçar na terça ou na quarta. Assim a gente conversa mais um pouco. Não, já estão todos dormindo. Sabe que horas são? Quase meia-noite, o Fantástico acabou faz tempo! Vamos parar por aqui? Eu sei amiga, eu sei e por isso lhe escuto até o fim. Mas depois de tanto tempo, ouvindo sempre as mesmas histórias, fico sem paciência. Me desculpa, vai. Su, eu adoro você, desejo que encontre um homem legal, que a faça feliz, que lhe faça um filho, do sexo masculino para você colocar nele o nome de Pavlo. Conheço seus sonhos, sei de suas fantasias, é normal que seja assim, mas discordo de sua forma de ir à caça. Me incomoda e por isso às vezes me impaciento com suas histórias já por demais conhecidas. Não leve a mal...
– O quê? No celular? Espero, atenda então... Hum... sei... e você vai? A
essa hora tomar um vinho com o Caio que está em BH por dois dias. O
grisalho deprimido e gaguinho, o que usa peruca? Então tá... você é quem
sabe. Que tenha uma noite bem divertida. Bonne soirée. Beijos. Tchau |
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Belkiss tinha um sonho na vida, conhecer o mar. Nos filmes e novelas da tv cenas de mar despertavam sua fantasia e com elas voava nas asas da imaginação. Não que ela não sonhasse outros sonhos mas nenhum mais forte que o sonho do mar. Um dia, bem longe dali, numa ilha cercada por água azul, areia a perder de vista, um bom lugar para se viver. Olhar para o nada e nada ver, só céu e só mar. Ah, como seria bom. Acordar cedinho, antes da lida diária, dar um mergulho no mar. Acabar as obrigações do dia, passear na praia. Nas noites de muita quentura, respirar a brisa vinda do mar. Ver o sol nascer ou a lua morrendo, o olhar perdido, sem nada encontrar pela frente, só céu e mar. Em seus sonhos não havia príncipe nenhum mas cabia um pescador, moreno, queimado de sol, com os cabelos longos onde o vento pudesse brincar de roda. Um homem corajoso e forte. Destemido para enfrentar o mar. De bom coração, de alma branca. Sorriso aberto e olhar perdido no azul. Assim sonhava Belkiss.
Agora, viver aqui em Belém do Desterro! Isso lá é nome de cidade? Coisa mais sem graça. Nada de mar, só montanha atrás de montanha, morro atrás de morro. Dizem que Minas inteira é assim mesmo, não tem litoral, nem uma beiradinha de mar; mas sabe o que eu acho? Acho tudo aqui uma chatice. Uma vida sempre igual, as mesmas caras, reclamando das mesmas coisas, falando mal das mesmas pessoas e puxando o saco dos mesmos políticos e fazendeiros. Tudo igual. Nada acontece, nem uma pequena história de cinema. Nem um assalto ao bancodobrasil, nenhuma novidade na rádio belenense, as manchetes do Sino de Belém, só conversa fiada do povo daqui. Coluna social, onde já se viu? Que interesse tenho em saber quem casou, quem separou, quem viajou, quem inaugurou o que. Lugarzinho danado, viu, vou te contar! Fico pensando se não seria melhor ter continuado em Recreio, pelo menos tão pertinho de Teoflotoni que era! Para mim era como se a gente vivesse naquela cidade grande. Muita confusão nas ruas, loja atrás de loja, gente que nem formigueiro e a buzinação? Vixe, uma barulheira danada. E a mistura de cheiros? Cheiro de gente, cheiro de fruta, fumaça de carro, cheiro de flor. Tanto eu reclamei que madrinha autorizou minha vinda para cá. Mais sossegado, ela disse e você ajuda Neuzinha, ajuda cuidar dos meninos, da casa, fica como o braço direito dela, e ainda ganha um salário bom no final do mês. E olha, pode voltar quando quiser, pega o ônibus lá cedinho, vem, fica aqui, fica uns dias e volta, de ônibus mesmo porque todo dia tem. Fácil, fácil, madrinha dizia. É verdade que eu vim, é verdade que sou braço direito de Neuzinha, verdade que ajudo na casa, na roupa, na comida, com os meninos. Mas o salário não é bem verdade. É um tiquinho assim, Neuzinha e o marido me dão de um tudo, é bem verdade; e a volta para Recreio só aconteceu uma vez. Madrinha liga sempre, pergunta se está tudo bem, pergunta em tom de riso se eu já casei... Eu rio e digo que não, que ainda não. Ela me lembra que o aniversário está perto, que ela vem mais padrinho e espera pelo menos que tenha um bolo daqueles de fubá com erva-doce. Eu fico pensando, quase quarenta. Quarentona serei, dentro de poucos meses. E o marido que é bom? Neca.
No rádio toca uma belezura de música! Gosto de sertanejas, dão um calor no peito, uma saudade que a gente nem sabe de onde sai, uma vontade de ter alguém pra abraçar, beijar. Fico pensando essas coisas, aumento o volume, só eu em casa, gosto de ficar sozinha e canto junto com Bruno e Marrone. Até a hora do almoço aproveito do sossego que tenho, só eu e Deus. E canto alto!
... e agora
A vida da gente é um fazer de coisas que não acaba nunca. Cedinho, levantar; o banho morno. Café no fogo, leite fervendo, pão de queijo no forno. Ligar o rádio, colocar a mesa, chamar os meninos para a escola. Esperar pelo horóscopo, separar a roupa pra passar, separar a roupa pra lavar. Saem todos e fico só, penso tanto na vida que cabeça chega doer. Todo dia tudo sempre igual. Se o dia tem sol, o céu azul, penso no mar; se ameaça chover fico imaginando como será a chuva caindo no mar. Nunca vi uma foto, nem em filme nenhum, mas acho que deve ser uma beleza. Fico pensando em uma cortina branca caindo sobre aquele mundão de água. Ah, o mar...
Tocam a campainha e o carteiro entrega a correspondência. Nada demais: uma revista semanal, contas para pagar, propaganda de curso de computador... uma carta para mim? Quem vai me escrever? Nem veio escrito quem mandou. Quem será? Leio com calma: para senhorita Belkiss de Lima, Rua General Osório, 17, Belém do Desterro, Minas Gerais. Começo a tremer, é pra mim mesmo. Pego uma ponta de faca pra não rasgar o envelope listradinho de amarelo e verde. Retiro com cuidado uma folha de papel dobrada em quatro. Cheiro para ver que cheiro tem, nada. Cheiro de papel, só. Começo a ler...
Vitória (ES), 17 de abril de 2004.
Prezada Belkiss,
Li na revista Formidável seu recado para um pescador-em-alto-mar. Acho que
você falou foi para mim. Tudo que você escreveu se encaixou como uma luva.
Quero travar melhor conhecimento com você, quem sabe para futuro
compromisso. Sou filho de mineiros, minha mãe é de Santana do Norte e meu
pai de Governador Valadares, onde eu nasci. Mas vim muito pequeno para o
Espírito Santo e já me considero capixaba, mas o coração é mineiro! Tenho
pouco estudo mas recebi, na condição de pobre, boa educação. Sou honesto,
trabalhador, mas não encontrei ainda a minha cara metade. Gostei do que
você escreveu lá na revista, achei sua foto bonita, você ficou bem naquele
retrato. Demorei um pouco a criar coragem mas hoje peguei da caneta para
enviar essas palavras. Espero sua resposta para continuarmos esse
conhecimento. Segue uma foto com dedicatória especial, espero que seja do
seu agrado. Reynaldo Gonçalves
Eu tremo feito vara verde. E estou morta de vergonha. E se alguém na cidade leu a revista? Saberiam que sou eu, o endereço, a foto. Como pensei que ninguém fosse responder, falei pra Zélia minha amiga que era uma brincadeira e por isso mandei a carta para a revista. E agora? Mostro pra Zélia? Respondo? Escondo de Neuzinha? Meu Deus, o que vou fazer. Mas pode ser que a revista tenha saído há muito tempo. Ele mesmo disse que custou criar coragem. Tomara, tomara mesmo que ninguém tenha lido. Minha boca, sequinha. Minhas mãos tremem pra pegar água no filtro. Coração bate que nem tambor. Desligo o rádio, quero barulho não. E agora, o que é que eu faço?
À noite, depois da novela das oito Belkiss vai se deitar.
Se vira na cama, de um lado para o outro. Levanta, acende a luz, pega a
carta no armário, lê pela décima vez. Cheira a carta e sente cheiro de
mar. Beija o envelope listradinho de amarelo e verde. Separa a foto, prega
na parede e fica olhando, olhando. Sua alma é uma festa só. Seu coração se
enche de flores, fecha os olhos e sente-se boiar num mar muito azul. Sente
o calor do sol sobre seu corpo miúdo. Nenhum cansaço essa noite, nenhuma
dor em lugar nenhum. Uma onda de esperança invade seus pensamentos e ela
pensa que poderá ser feliz, sim. Procura uma revista antiga, no meio de
seus guardados, junto à caixa de costura. Fotos da capital capixaba, as
pontes, as praias, o convento da Penha, Guarapari, velas ao mar, se um
daqueles barcos fosse dele? Reynaldo, nome de príncipe, ela pensa. Um
sorriso se instala em seu rosto e não sai... É madrugada quando ela volta
a apagar a luz e a se deitar. Os lençóis limpos e macios, o cheiro de
macela saindo do travesseiro, a manta xadrez, de lã, presente de madrinha;
a noite fria, o pijama quentinho, de flanela. Belkiss se sente
confortável. Lá fora faz frio mas o seu quarto hoje lhe parece mais
aconchegante que nunca. Enquanto reza, antes de dormir, o mesmo sorriso
lhe enfeita ainda o rosto. Ela pensa na viagem a Guarapari. Se tudo der
certo, vai até pagar promessa na escadaria do convento da Penha, ah, e com
gosto! Vai ser bom ter alguém a quem se dedicar, vai ser muito bom ter
alguém a quem entregar tanto afeto guardado, vai ser bom demais da conta
se Reynaldo e ela... O terço lhe cai das mãos, um ressonar profundo lhe
sai do peito, e nessa noite Belkiss sonha com arco-íris, manhã de
primavera, capela branca, véu de noiva e flores de laranjeira! |
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Rosângela Maluf |