Acordo sem ter dormido. Mal, levanto-me. Meu corpo nu reflete o nada no vidro do espelho. Já padeci de muitos bens antes do teu. Pensei estar vacinado dos males que conduziam meus ossos a pó, deixavam meu corpo correndo parado e estimulavam meu cérebro a não pensar.

Teu vírus, porém, instalou-se em meu organismo e me desorganizou. Perfurou minha mucosa e atingiu todo meu sistema sangüíneo.

Só tua doce autoridade possui meu diagnóstico. Preciso tentar decifrar tua caligrafia. Interne-me em ti, pois careço de teus cuidados. Sinto falta de tua água e de teu ar. Procuro em meu corpo, sem sucesso, alguns sinais ou vestígios do teu.

Só sou um não-ser. Só sou um não. Só sou um. Só sou só. Só sou. Só.

Nada há. Nada que possa ser apalpado ou que possa explodir em pústulas. Nada que possa ser medido ou auscultado. Nada que possa ser visto, mesmo ampliado, ao microscópio.

Meu coração palpita forte e minha cabeça viaja no delírio de uma deliciosa febre fria. Minhas mãos imaginam, sem alterar o roteiro, um passeio constante pelo teu corpo inexistente.

Não quero combater, apenas compartilhar minha doença.

É invisivelmente clara a dor da minha saudade. Quero me entregar ao éter do seu perfume, ficar preso ao seu leito e sonhar. O remédio amargo descerá pela minha garganta desde que seja docemente trazido por tua boca. Aceito o que me deres, mesmo que seja apenas um pouco de placebo. Enrole minha pele sofrida até que meu sangue estanque numa bandagem macia feita da tua. Imobilize meus braços e minhas pernas com a força dos teus membros. Deixe que pinguem em meus ouvidos as gotas quentes da tua poesia. Deite-me em teu colo, deixando que eu adormeça, sem apagar sua luz. Teus beijos serão meu soro, tua voz minha pulsação. Force minha cabeça ao torpor. Minha doença tem teu nome com todas as letras, formas e tipos. Teu corpo é meu vício e minha perdição. Procuro antídoto e só encontro veneno. Ainda que tente a lavagem cerebral sobrarão todas as recordações. Quero guardar para sempre as seqüelas. Trate-me como objeto e me abandone em qualquer um dos teus cantos. Prometo cuidar da tua morada jogando sementes em teu jardim. Dar-te-hei, sempre que possa, a oportunidade de compartilhar o prazer das minhas pequenas mortes. Meu solo sustentará tuas paredes. Não escore o amor apenas nas rimas. Habite-me até que a eternidade faça ruir nossos muros.
 
 

 
       

 

     


 

 

Lilian Blanc
Atriz, 54 anos, paulistana, formou-se professora nos idos de 1968. Foi uma criança que brincava, fazendo arte: pintando, cantando, escrevendo e atuando. Casou-se em 1973 e, com esse grande parceiro, criou sua melhor obra: seus dois filhos. Crescidos e independentes, permitiram o tempo e a retomada às antigas paixões. A maior delas: o teatro. Formada pela escola da saudosa atriz Célia Helena, tem em seu currículo trabalhos junto ao Grupo Tapa que incluem, entre outros, espetáculos como Vestido de Noiva, Moço em Estado de Sítio, Happy End, Rasto Atrás e acaba de voltar de uma temporada de sucesso, no Rio de Janeiro, onde atuou ao lado de Nathalia Timberg, em A Importância de Ser Fiel. Entre espetáculos, traduções de alemão, ensaios, participações em cinema e TV, convidada pelo jornalista e poeta José Nêumanne Filho, colaborou para a coluna Arte pela Arte do caderno de variedades do Jornal da Tarde.