|
|
|
Lá estava eu, e lá estava ela. Eu, numa ponta do balcão, cerveja, meu livro, umas pequenas delícias de carne, grelhadas, consumidas vagarosamente enquanto lia. Ela, havia chegado há pouco. Sozinha, auto-suficiente. Minissaia de cintura baixa, cinto largo de couro, tatuagem no começo da espinha, longas pernas terminando em sandálias de salto. Toda ela longa. Loira de olhos claros, seios soltos e livres dentro da minicamisa. Nada de piercing no umbigo. Só ele mesmo, o que já era mais que suficiente. Um olhar bandido, de quem sabe muito, viu muito, fez muito. Olhar baladeiro. Mas com muita classe. Uma loira de berço e educação. Uma perva, aquela deliciosa mistura de perversa com pervertida. Uma bad girl de boa família. O tipo que eu adoro. Olhou em volta, mediu o espaço do bar, o do restaurante, viu todo mundo, deixou o olhar cruzar com alguns outros. O meu, um deles. Tremi. 22 anos. Deveria estar na escola. Ainda bem que não estava. Sentou numa mesa com visão para os dois ambientes, pediu uísque (eram oito da noite...) e ficou bebericando. Copo alto. Entediada. Mexendo as pedras de gelo com o longo indicador, anéis vários, anéis em dois dedos do pé, um maravilhoso exemplar da arte pedófila... pediátrica... pezal!!! Tinha que me controlar cada vez mais para não olhar. Atenção ao livro, Agatha Christie em espanhol, e Hércules Poirot perdendo feio para as pernas da perva. O bar-restaurante estava enchendo, e a maior parte dos homens não fazia o menor esforço para evitar olhar a loira. Claro. Quando o garçom se aproximou com um bilhete – "não quer contar a istória do livro prá mim?" –, quase caí do banquinho. Assim mesmo, com errinhos e tudo. E agora, José? Fui. Leninha se desculpou pela desfaçatez, "mas levei um bolo do namorado, e você tava aí, tão compenetrado, cara de boa gente, eu não queria jantar sozinha...". Nada de biquinho, só olho no olho, recostada na poltrona, a blusa distendendo-se, a certeza daquelas pernas ali embaixo, tão próximas das minhas. Demorei para engatar na conversa, mas fui indo. Não conhecia metade – dois terços – dos lugares que ela mencionava, clubes de dança, bares noturnos, algum ponto muito louco e clandestino num dos eixos. Por outro lado, ela não sabia bulhufas do que um jornalista faz, dos livros que eu leio. E eu adoro essas pervinhas, fico fascinado! Pedimos as entradas. Capesante i aragosta i cuore di carciofi e radicchio, pronúncia impecável a dela, vieiras e lagosta e coração de alcachofra e radicchio, eu fui numa polentinha com cogumelos frescos e gorgonzola. As pernas dela encostavam nas minhas, comemos falando do que não sabíamos. À nossa volta, a noite fervia com todas as promessas que havia no ar, não importava o horário, nada. Prato principal – e ela sequer olhou para a coluna da direita do cardápio. Nadinha – gamberi al zenzero, enormes camarões com maçã ao molho de gengibre, flambados no champanhe. Com purê de mandioquinha. Bom gosto. Gosto caro. Bem treinada. Eu tenho meus pratos prediletos, que escolho numa combinação razoável entre o prato propriamente dito e seu preço. Raviolli ala partenopéia, deliciosos raviólis com mussarela de búfala e manjericão. E a conversa! A conversa fluía. Leninha falou mal do namorado, eu contei do meu divórcio, e das crianças, ela disse que adorava crianças, principalmente os meninos. Uma pervinha que ouvia um divorciado contar de seus filhos, da ex-mulher? O vinho – que ela escolheu para os dois – me subia à cabeça. Não o suficiente para mostrar as fotos infantis que estavam na carteira... Excelentes vinhos. Um Sauvignon Blanc para ela, neozelandês, e um tinto, aromático e italiano, Pélago, para mim. As chamas do champanhe flambando os camarões iluminaram os olhos cheios de malícia, postos nos meus. A comida estava boa demais. Demais além da conta. A cada bocado ela fechava os olhos e concentrava-se no sabor. E esquecia-se de mim. Eu comia de maneira hipnótica, nem conseguia prestar atenção direito no molho delicioso, ao tempero requintado. Era outro o jantar que eu queria. E esse era o problema que crescia e não queria calar. Para onde iríamos depois? Pois era óbvio que aquela história não morreria assim, naquela mesa. Olhares cúmplices, toques cada vez mais demorados nas mãos. Dançar? Só se fosse em último caso, que sou uma toupeira na pista e ela deveria arrasar. Meu apartamento? Música, mais vinho. Talvez. A faxineira havia ido ontem e estava tudo limpinho, menos mal. Chega de jantar. Comemos tudo, numa fome que prenunciava outros apetites. Pêras ao vinho recheadas com sorvete de creme ao molho de pêssego para ela (Senhor! Aquele molho de pêssego escorrendo no queixinho...), suflê de goiabada para mim. Ela foi ao banheiro, bolsinha a tiracolo. E eu, só imaginando a pele, os pelinhos, a boca tão macia. Fiquei olhando, esperando sua volta. Saiu do toalete guardando o celular na bolsinha. Ligou? Ligaram? Voltou, sentou sorridente, comemos nossos doces, pedi café, a conta, é agora, vou sugerir dar umas voltas... Foi quando o celular dela tocou: "Oi... sei... tá... certo... onde?... já?" Desligou, guardou na bolsinha, tão lindinha. "Benzinho, era meu namorado. Tava na casa da mamãe dele. Tá aí fora me esperando, você foi lindo, adorei jantar com você!". Inclinou-se, me deu um selinho e saiu, as longas pernas, as longas pernas que se dobraram, lindas, para entrar num baita carro esportivo, que saiu tranqüilamente.
Ao meu lado, o garçom. Um pequeno sorriso nos lábios e a conta na mão.
Vinhos, camarões, o uísque, e todo o resto. A noite, à minha volta,
continuava fervendo, continuava cheia de promessas. |
|||
|
Antonio L. C. Geremias |