Bárbara.

Semanas a fio e a sensação de que o telefone tocaria; ouviria mais uma vez o som da carícia de sua voz apressada como sempre foi. De todas as vezes que o telefone tocou, batucava meu coração entre artérias e veias no resplendor de esperança de sua voz. Em todas elas enganei-me.

Os cantos da minha casa estão repletos daquelas antigas coisas nossas; presentes sem valor econômico algum. Dados a mim, por você. São coisas quietas, coisas que um dia foram nossas, mas hoje, solitárias me olham entre os movimentos do meu dia.

A noite, ah, noite! Barbaramente noite! Desenhava em nanquim os traços daquilo que você me contava ser as mil e uma noites. Das Arábias. Noites de deserto. Eu ouvia, feliz da vida, suas histórias árabes; os sensacionais desertos de lua. O tempo, absolutamente implacável, mostrou na verdade o deserto de solidão das coisas que nunca cativamos.

E eu desenhava. E você me contava. Hoje meus desenhos estão amarelados e seus contos ressecados por uma solidão que nos separa. A solidão das nossas coisas nos separa.

Para vencer a solidão vazia das nossas coisas, abri uma das gavetas e munido com meu antigo nanquim troquei o desenho gráfico da mão segura pela força caudalosa das palavras que aprendi com você. Rompi, com isto, o dique das minhas palavras.

Deságuo.

Alfredo.
 
 

 
       
     

 

     


 

 

Carlos Alberto Francovig Filho
Vencido pelo destino, invisível estrada, sucumbi aos encantos da literatura. Doce ócio. De libra, nasci aos 21 de outubro de 1960. Agora me lanço e lanço livre minha literatura.