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Anda pelos paralelepípedos gastos. Anda muito rápido, trôpega pela velocidade e pelo desespero. Uma chuva torrencial cai sobre seu corpo frágil e arrepiado pelo frio. Os pingos como agulhas afiadas maculando a pele. O vestido transparente colado em seu corpo como uma sanguessuga faminta lhe dá o aspecto de estar nua. O longo cabelo escuro é agora uma massa compacta encharcada, grudando-lhe nas costas. O rosto de expressão imóvel contrasta com o corpo em transe. Olhos borrados de rímel dão ao seu rosto pálido a cara da morte. Pés descalços com esmalte carmim descascado nas unhas misturam-se ao sangue brotando das solas feridas pela aspereza do calçamento. A garrafa de conhaque vagabundo na mão direita, com dois dedos ainda da bebida no fundo. Ela não chora. Pessoas apressadas com seus guardas-chuva coloridos olham a moça com estranheza. Ela não os vê. Carros passam em velocidade, jogando lama em suas pernas. Ela não sente. Continua andando por muito tempo, até sentir um cansaço absurdo na alma. A chuva ainda despenca ruidosamente. Ainda forte. Ainda machucando-a com seus pingos de agulha. De repente ela para. Abraça-se à garrafa e senta-se encolhida no meio-fio. Mas não bebe. Não mais. Fica ali, com o mesmo rosto imóvel. É então que acontece. Ela sente uma presença atrás de si. Levanta devagar os olhos do chão hostil. Encara. É uma criança negra. Tem olhos negros, intensos e profundos. Tem o cabelo trançado. Veste uma roupa de bailarina, com sapatilhas de ponta cor-de-rosa. Abre um sorriso imenso, onde faltam os dois dentinhos da frente. A moça sente o coração pular. Tum! A criança pega sua mão e ajuda-a a levantar-se. As duas lado a lado. A pequena encarando-a com o mesmo sorriso imenso no rosto e os mesmos olhos cor de noite. A moça experimenta então uma sensação de intenso bem-estar. De quase alegria. Sorri de volta, sincera. Vão caminhando juntas, sorrindo, de mãos dadas, em direção à rua movimentada... Crasssssssshhhhhhh... O cantar de um pneu... uma buzina estridente... gritos... vozes... e a chuva lavando os paralelepípedos vermelhos.
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A luz na sala é mortiça. Ela está em frente a ele. Está bonita, com o vestido preto de alças muito finas e os cabelos presos num coque. Os olhos secos, pintados de negro, a boca pálida, o rosto ainda mais. As mãos imóveis pousadas sobre os joelhos unidos. Não há traço de emoção em seu rosto. Vista de longe, parece uma boneca de cera, esculpida com capricho por mãos apaixonadas. Ele está em frente a ela. Absolutamente nu, sentado sobre os joelhos no tapete macio. O corpo másculo, moreno, agora parece frágil até. O pau pousado sobre as coxas parece um pedaço de carne crua e morta. Mas os olhos estão molhados e o rosto se mostra repleto de dor. A boca contraída para engolir os mil gritos que moram dentro dele. As mãos trêmulas tentam se controlar, os punhos fechados ao longo do corpo. Tudo ao redor está sem movimento. Uma luz triste de néon entra pela janela aberta. O ar é quente, abafado, denso. Então, após longos minutos de apatia, ela se levanta, forçando-o a olhar para cima. Ele continua sentado. Com o rosto ainda imóvel, abaixa-se junto a ele, os dois rostos muito juntos. Ele chora. Ela não. Bruscamente puxa-o para si, sem gentileza e beija-o enlouquecidamente, alternando a língua e os dentes com desespero. Filetes de sangue vivo escorrem do canto dos lábios deles. Ele livra-a do vestido com fúria. O pedaço de carne já não parece morto. Está rijo, apontando para a mulher, com urgência. Os punhos continuam cerrados, mas agora em volta da cintura dela. Eles se encaixam com precisão. O desespero toma conta dos corpos, que se debatem sem gentileza. Sangue, baba e suor. Então, ainda sem gentileza, eles gozam, entre gritos. Ela primeiro. Ele depois. Ficam assim, entregues, sem forças, por alguns momentos. Ela ouve a buzina. Um toque curto. Outro mais longo. Levanta-se calmamente. Sente o esperma escorrer pelas pernas, mas não se incomoda. Coloca o vestido, mas não ajeita o cabelo desalinhado. Pega a grande bolsa e uma mala que está ali, perto do sofá, à direita. Caminha devagar até a porta. Abre. Olha por um instante para o pobre homem transtornado, tão frágil, no chão. Sente sua alma sorrir. Fecha a porta atrás de si e de sua velha vida. Seu novo amor está à sua espera lá embaixo e ela não quer se demorar.
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Alessandra Mascarenhas |