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Nas ensinanças sorvidas entre as travessias curvas da trajetória humana tenho aprendido uma máxima lapidar: viver é perigar. Perigar traduz a aventura cotidiana dos riscos e dos desafios que afiam e cingem a saga do vivente nas searas do viver. E viver, como verseja, de forma lapidar, um camponês pernambucano, folião do Cavalo Marinho “é criar uma aventura no mundo”. Criar, recriar o rumo, o sentido das coisas, da existência, nas sendas abertas do destino com os tons de nosso tino, de nossa feição. A-con-te/cer sendo com os outros na condição originária e seminal de cada instante nos fluxos do movimento ondulante e permanente do devir, da saga do existir. Existir (ex-sistere) se traduz em pôr-se, lançar-se para fora, no e para o mundo. Precipitar-se no abismo do indeterminado, do inacabado e tornar-se, no ritmo e nas aberturas das contingências, autor e tecelão do próprio destino. Existir é se inserir nos confins, na espessura do mundo tocando em frente os projetos de nossos destinos, de nossos co-destinos, dos destinos da humanidade. É correr o risco de experimentar a liberdade que espanta e desafia as seguranças das coisas ordenadamente estabelecidas que aprisionam e encavernam. Existir é escutar os sopros do vento que assanha nossos sonhos, move a imaginação e que instala a ação in-ventiva; que dá movimentação à liberdade do viver na ação audaciosa renovadora e vivificante do espírito encarnado na gravidez dos desejos que nutrem e inspiram o advento da utopia, de novos modos de ser e de estar no-mundo-com-os-outros na tessitura da rede planetária. A a-ventura de estar no mundo se descortina no alçar vôos pelos flancos do extraordinário in-ventando o impossível. O possível já existe, já está posto. Precisamos ousar o que ainda não existe, o que pode vir a ser, a tornar-se. Viver é tornar-se. Nossas mães nos partejam uma vez. Cabe a nós nos reparir, na intensidade de cada vivência, nas entranhas de cada novo amanhecer. Se não renascemos, nos emboloramos e nos mumificamos. Os limites são apenas desafios que interpelam nossa sensibilidade criante para as possiblidades dos deslimites, para a invenção de outras e novas trajetórias. O ordinário é da esfera da rotina, da normalidade ordeira e mediana – nossa condição de galinha. Nosso espírito de águia nos convida para vôos mais vastos e altaneiros que, inspirados em sonhos impossíveis, vai descortinando novos possíveis, novos horizontes para a saga do viver no afã da existência que é imanência, mas, também transcendência. Nossa condição demasiadamente humana se configura como um “jogo jogante” e aberto que potencializa possibilidades finitas e infinitas instigadoras de nossa imaginação criante, de nosso espírito in-ventivo. Jogo que se traduz no ritmo sincopado e envolvente da aventura indeterminada e incerta da epopéia humana nos desvãos abertos de seus vazios; que nos precipita no abismo do desconhecido, do inesperado e que nos desinventa e nos reinventa alvorescente para a “eterna novidade do mundo”, para novos alvos e alvores; nos desborda na vertigem do arco-íris que desponta dentro e fora de nós em nosso estado anímico de encantamento. Em nossa condição humana originária, não somos vocacionados para a fixidez dos portos seguros, mas para a nomadez das jornadas dos andarilhos que se arriscam nas flutuações das ondas de cada proeza e que propiciam andanças e buscas intensas e apaixonantes, descobertas e feitos extraordinários. É o elã, o turbilhão da paixão que nos impulsiona – impulso vital – derramando o entusiasmo que mobiliza os sentimentos, a energia criadora e o espírito de transgressão. Paixão que faz vibrar as cordas do coração, desafiar os medos encarcerantes e nos leva a perigar nos riscos de nos perdermos pelas reentrâncias das veredas, das venturas, em que a perdição é condição para nos acharmos, para nos encontrarmos melhor na caminhada. Caminhada supõe caminhar livre, despojado nas trilhas do nada in-ventando o próprio caminhar, forjando novos caminhos e encruzilhadas. A vida nos interpela para garimpar nas minas de nosso dentro e de nosso fora para que encontremos as preciosidades de nosso ser e dos outros seres. A sorver as coisas do espírito nas vicissitudes do cotidiano penetrando no espírito das coisas. A aprender a sentir e a compreender a magnitude das coisas pequenas que tanto engrandecem a alma. Quem não garimpa com afinco permanece na rasura da superfície, se exila da tribo dos garimpeiros, das almas corsárias que procuram desenhar e pintar, compor e lapidar seus próprios destinos nos ermos do mundo. Não saboreia o gosto arrepiante de cada compasso vivido e compartilhado sinergicamente com os outros. Não degusta a dor de cada parto e o prazer de cada nascimento, nos meandros de cada nova a-ventura celebrada na nascente de cada aurora/aurorescer. Nesse trajeto, trilhamos nas estradas irradiadas pelo sol alumioso com sua tez masculina, mas também transitamos nas veredas da noite constelada pela penumbra lunar, com sua tez feminina. E, desse modo, existir no solunar, no crepuscular – no entre-lugar – que entrelaça sol e lua, dia e noite, masculino e feminino celebrando a inteireza dinâmica e in-tensiva de nossa existência em fluxo, inacabada, tão singular e tão plural. A-venturar se desdobra no realçar, no atiçar o elã que move o corpo e o espírito, que nos co-move por inteiro nas venturas e ventanias do mundo, na afinação do trançar a urdidura do humano, de seu advento, como expressão in-ventiva do ser, do sopro cósmico que, no ritmo e na dança de seus eventos, aventa a beleza que encanteia a vida. Somos des-tinados às travessias instauradoras de pontes, de redes, de modos de relação fratriarcais que vicejam nossa existência e nossa coexistência no cosmos/caosmos. Carecemos de uma pedagogia da itinerrância em que, como bandoleiros – homo viator – transitamos entre as errâncias do caminhar como peregrinos aprendentes nas ensinanças das sendas abertas do ser-sendo, no crivo de cada experiência vivida com a nervura do corpo e o vigor do espírito. Aprendizados que brotam na calidez do aqui-agora, no carpe diem.
Assim, o espírito despojado volteia desnudo pelas itinerários e
encruzilhadas cultivando, no arco de cada momento, uma aprendência
desprendida, a auto e a inter-aprendência que faz a vida jorrar escorrente,
se desbordar altiva singrando borbulhante no leito de seus rios
encurvados. Nesse fluxo, podemos atingir o cume da terceira margem – a
fruição do estado poético de nossa existência no mundo, no desmundo, no
intermundo. |
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Miguel Almir Lima de Araújo |