Vas Unguentatum
Paul Verlaine.

Olha a fenda de chamalote
E nela o tom branco-rosado
Dos rastros de minha visita
Ao Paraíso de Maomé.

Repara com alma de artista
Ó meu velho olhar fatigado
Sempre tão triste e com razão
Que cena alegre e opulenta,

Num mole estojo de pelúcia
Negra, com reflexos ruivos,
Vibrando como uma colméia:
A de uma pérola preciosa

Palpitante de seiva e vida
E, para o êxtase do amante
Como que a exalar a essência
De cada um dos elementos,

Olha bem e depois respira
E finalmente beija mais,
Sem cessar, a gema em delírio,
O rubi que ri, flor do foro

Interior, irmão pequenino
Doido pelo irmão maior
Que quer beijar o tempo todo,
Ofegantes os dois agora...

Mas calma, calma, estás queimando!
Como ele pode sossegar,
Ó coxas, ventre, seios, pernas,
Se não parais de provocar?

Pronto! Eu sabia! Seu delírio
Começa a me contagiar:
Meu corpo todo se reanima...
Vamos tudo recomeçar!

 
 

 
       
   

É fato: todos já viram um bando de cachorros alucinados atrás de uma cadela! A mesma cadela que no dia anterior não despertara tal volúpia em cachorrinho nenhum. Muito menos num bando!

Um olhar apressado e pudico conclui: ‘Veja só este bando de animais! Vê-se que não têm leis, freios ou alma’. Uma tão curiosa quanto enganadora conclusão. Se não há nenhum pudor nestes animais em revelar, sem véu, sua disposição ao sexo, eles obedecem à mais cara proposição do oficial cristianismo ou do marginal movimento Hare Krishna: sexo apenas para a procriação. Sabemos por que isso se dá: há um rígido controle hormonal a regular o comportamento sexual do melhor amigo do homem e da mulher. A sexualidade canina radica inteiramente em seus fundamentos biológicos. E, mais que isso, não há luxúria, não há concupiscência, não há malícia, não há preliminares nestes bichinhos. Há, apenas, descaramento.

Eles, os primatas, parecem menos estereotipados que os cachorros. O comportamento sexual dos animais nossos aparentados é mais complexo. Complexidade que se mostra desde a organização de seus grupos. Por exemplo, entre babuínos e chimpanzés, se não há reconhecimento recíproco entre pai e filhos ou filhas, há o reconhecimento do par mãe e filho. Não se observam entre os chimpanzés da floresta e os babuínos da savana relações incestuosas entre mãe e filho e esta relação perdura por toda a vida. Obviamente, o mesmo não ocorre entre pais e filhas. Assim, se o papel do macho não define nada como um pai, o papel da fêmea produz um laço muito semelhante ao materno. Também há, entre os primatas, uma disjunção entre o encontro sexual reprodutivo e o prazer, representada exclusivamente pela masturbação. Já é um progresso. Os nossos amigos caninos tornam-se masturbadores apenas se criados por seus amigos humanos.

E entre os humanos, os seres com leis, freios e alma, é assim que acontece? Somos tão estereotipados quanto os cães ou moderadamente criativos como os primatas? Só podemos responder não a estas duas perguntas. O tal do sexo impuro, demoníaco, voltado exclusivamente ao lúdico e ao prazeroso que, eventualmente, vai além dos limites do prazeroso e lúdico convencionais; este sexo somente nós, os humanos, praticamos. Sem o descaramento dos caninos e dos primatas, pois, em geral, o fazemos entre paredes e, mesmo quando orgíacos, a lista de convidados é rigorosamente conferida. Práticas bem ao gosto contemporâneo como a que rola em casas específicas ou como o ‘toothing’ vêm confirmar a luxuriosa e concupiscente criatividade sexual humana. E não é mais tranqüilizador lembrar que esse estatuto sexual permite as mais sublimes, e não menos prazerosas e estranhas ao mundo animal, manifestações de amor, paixão e fidelidade.

O raciocínio aqui exposto pode ser levado mais longe. Permite que não nos enganemos quanto a definir a sexualidade como uma manifestação de uma naturalidade previamente escrita em nossos corpos. Isto é, diferente dos caninos e primatas, a sexualidade humana não está radicada apenas em seus fundamentos biológicos. A história humana faz uma demonstração nítida de quanto os costumes e a moral sexual variam com a época e com a cultura.

Lévi-Strauss nos conta que em determinada comunidade indígena se, porventura, o primogênito de um clã não sobrevive para procriar e legar à próxima geração o nome da família, sua irmã mais velha o substitui neste intento. Passa, por força da tradição das leis tribais, a assumir um nome masculino, a desempenhar funções culturais masculinas e a usar vestimentas masculinas. Casa-se com a prometida ao irmão e a esposa vai engravidar com qualquer homem da comunidade que não seja seu consangüíneo. O interessante nesta história não é, certamente, descobrir um antecedente do lesbianismo. As mulheres envolvidas não têm, necessariamente, contato corporal. Ganha-se mais ao salientar a participação da cultura na definição sexual. A comparação feita anteriormente entre a sexualidade animal e a humana, aponta para uma desnaturalização da constituição sexual do homem.

Um outro exemplo surge ao examinarmos a cultura que vivemos e a que nos antecedeu: a greco-romana. Para nós, nada é tão claro quanto o reconhecimento da homossexualidade. Se um sujeito, homem ou mulher, não goza com o outro sexo, define-se a condição homossexual. Definimos, portanto, esta condição a partir do objeto que serve à satisfação. Foucault, entretanto, nos informa que, entre os greco-romanos, a definição essencial da masculinidade refere-se ao domínio pessoal do comportamento sexual e da atitude moral. Neste sentido, o homem de prazeres e desejos, o homem que não se domina, o homem da intemperança é um homem reconhecido como feminino. Não é o objeto de satisfação que decide a orientação sexual, mas a passividade perante as paixões. Um homem com 500 parceiras, submisso aos seus próprios apetites era, então, tido como feminino. Vê-se com clareza que é um recorte completamente inusitado aos nossos olhos e à nossa lógica, a concepção da sexualidade entre nossos antepassados.

Mesmo para biólogos darwinistas, o reconhecimento da influência da cultura humana é importante. Robin Fox comenta que o resultado mais interessante do desenvolvimento cultural humano é o fato de reproduzirmos, no interior de nossa própria espécie, todas as variações que se podem descobrir ao longo das outras ordens de mamíferos.

Em um pequeno parêntese, é necessário esclarecer que o escrito aqui não se baseia na banalização contemporânea do sexo, apesar de trazer subsídios para estudá-la e compreendê-la. A banalização atual tem como fulcro o uso do sexo para alcançar dividendos, numa espécie de ‘prostitucionalização generalizada’. Se o sexo teve esta função no rastro da história humana, não foi com a marca que a globalização das comunicações trouxe. Aretino, no século XVI, reproduz o diálogo entre cortesãs da época, figuras poderosas no jogo de poder de então. Diz uma delas: “Para que não me possas chamar cínica, só te digo que um par de nádegas tem mais poder do que tudo quanto é filósofo, astrólogo, alquimista ou necromante. Tinha já experimentado todas as ervas do campo, tantas palavras quanto as que se trocam em dois mercados, sem nunca ter conseguido fazer bulir o coração de um que agora não digo. Bastou afinal bambolear as nádegas para o deixar tão doido por mim...” Há, então, um poder associado aos encantos sexuais e uma possibilidade de alcançar um bem utilizando os encantos como um meio. É mais uma demonstração do papel novo que a sexualidade humana traz à definição do que é sexual.

Qual a concepção de sexualidade para abarcar esta multidão de manifestações?

Os sexólogos de inspiração comportamental estão essencialmente preocupados em desenvolver uma pragmática sexual que auxilie determinadas pessoas a alcançar o prazer sexual, ao extinguir hesitações, temores e inibições. Baseiam-se, no entanto, em uma concepção naturalista do sexo que se opõe à função que o sexo desempenha na subjetividade humana. Estes pesquisadores partem do princípio que o sexo é uma tarefa espontânea como a respiração ou o metabolismo hepático. Certamente, é uma concepção capaz de ajudar àqueles discípulos de São Paulo, preocupados em não pecar contra a carne. Mas não é uma concepção que nos auxilie a encarar, sem reducionismos, o que há de interessante na sexualidade humana.

Uma outra concepção encontramos no pensamento psicanalítico. Desde a aurora de suas pesquisas que Freud sacou algo que distinguia o impulso sexual dos outros impulsos cuja fonte é o corpo, tais como a sede e a fome. Foi o trabalho clínico de Freud que proporcionou esta leitura. O neurologista vienense, inicialmente, percebeu que nos sintomas histéricos embutia-se uma mensagem sexual. Seja pela revelação hipnótica, pela purgação catártica ou pela sofisticada associação livre, o sintoma constrangedor e limitante recebia um destino mais feliz, se decifrada a mensagem sexual.

Um pequeno exemplo que não vem de uma psicanálise completa. Mas de um fenômeno desses que pode acontecer em qualquer um dos ambulatórios e enfermarias do hospital. Uma senhora vem à segunda consulta no ambulatório da Psiquiatria. Nesta oportunidade, depois da conversa protocolar sobre a medicação prescrita, seus benefícios e efeitos colaterais indesejáveis, ela relata um sintoma inusual. Diz que vez por outra se vê compelida a contrair o estômago em direção à bexiga. O psiquiatra lhe pergunta: “A senhora pensa em algo a respeito desta manifestação?”. A resposta é não, acompanhada de um balbucio sobre alguma infecção. O psiquiatra insiste: “A senhora vê algo simbólico aí?”. Desta vez, uma resposta surge e ela diz: “Há dois anos que meu marido não me procura mais. Nos primeiros meses procurei-o, mas após seqüentes negativas, desisti”. Este é um singelo exemplo. Ainda não ocorreu o próximo retorno da paciente, mas o esperado é que não se queixe mais desta manifestação, que tem todo o parentesco com os sintomas conversivos das histéricas freudianas do final do século XIX. Mais do que isso, serve à demonstração do quanto a sexualidade humana não se restringe ao conjunto de práticas diretamente relacionadas ao jogo sexual entre os corpos de um homem e de uma mulher e à finalidade procriativa.

Freud foi o pesquisador que não contornou esta evidência na sexualidade humana. Se continuou firmemente pregando que a fonte do sexo é o corpo, postulou um corpo para além de suas inflorescências exclusivamente biológicas. Postulou um corpo erógeno que se escreve por cima do corpo biológico. Um corpo que se utiliza das entrâncias e reentrâncias do corpo natural, que se utiliza de suas zonas sexualmente privilegiadas, mas um corpo mais sutil. Corpo que se não faz desaparecer sua fonte biológica, é constituído pelo encontro da carne com um outro ser falante e desejante. O melhor exemplo, mais evidente e belo, é o encontro do ser que nasceu com sua mãe.

O corolário mais claro deste estado de coisas é radicalizar a concepção de que o sexo, pelo menos nos seres falantes, não é um simples efeito do arcabouço biológico do ser. Isto é, não é um instinto inato que se manifesta por obra e graça da maturidade hormonal. Mas um impulso que depende da obra e da graça do espírito humano na relação a um outro ser. Foi desta peculiaridade que Freud desenvolveu o conceito de pulsão. A pulsão: uma montagem teórica que realça que a finalidade original da sexualidade é desgarrada do dispositivo reprodutor e visa o gozo. Este objetivo é alcançado por meio de um objeto, indiferente em si mesmo, mas subjetiva e historicamente determinado, que satisfaz a finalidade de gozo da pulsão sexual.

Assim, é a experiência e a teoria psicanalítica que fornecem subsídios para a abordagem desta multiplicidade de facetas que a sexualidade humana evidencia e que a torna completamente distinta da sexualidade estereotipada animal, incluídos aí nossos irmãos primatas. Apenas a concepção que não restringe a sexualidade ao funcionamento do aparelho genital e a estende a uma série de excitações e de atividades presentes desde a infância é que proporciona um prazer, um gozo, irredutível à satisfação de uma necessidade fisiológica.

Munidos, então, desta concepção, aparelhamo-nos para encaminhar a leitura de manifestações tão díspares quanto a marcha histórica da sexualidade humana e sua óbvia correlação cultural e as manifestações sexuais singulares de um sujeito. Manifestações que se fazem notar em fenômenos aparentemente distantes da sexualidade genital, como na paciente citada à guisa de exemplo.
 
 

 

 

 

Soneto de contrição
Vinícius de Moraes

Eu te amo, Maria, te amo tanto
Que o meu peito me dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma teu encanto.

Como a criança que vagueia o canto
Ante o mistério da amplidão suspensa
Meu coração é um vago de acalanto
Berçando versos de saudade imensa.

Não é maior o coração que a alma
Nem melhor a presença que a saudade
Só te amar é divino, e sentir calma...

E é uma calma tão feita de humildade
Que tão mais te soubesse pertencida
Menos seria eterno em tua vida.

 
 

 
   

junho 2004

 

 

     


 

 

Durval M. Nogueira Filho
Mestre em Psiquiatria, psicanalista. Membro da Seção São Paulo da Escola Brasileira de Psicanálise e membro do Departamento "Formação em Psicanálise" do Instituto Sedes Sapientiae. Colunista da revista virtual omelete.com. Autor de livros e artigos.