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Uma breve história

 

Tenho um amigo que diz: o Rio de Janeiro é ingovernável, sem controle. Uma cidade com vontade própria, rebelde, nem os seus moradores podem impedir as suas ações, uma cidade com atitude. A Feira dos Nordestinos ou de São Cristóvão, como queiram, cresceu dentro dessa ingovernabilidade, fazendo parte desse cenário fabuloso e assustador.

 

Na Feira dos Nordestinos, as raízes culturais, o espontâneo das danças e os artigos artesanais convivem, ou melhor, tentam sobreviver como os severinos que trabalham com a enxada no cinza da caatinga. No mesmo plano, correm freneticamente, concretamente, os produtos industrializados, a modernidade racionalizante dos espaços, materializada no remanejamento da Feira para o interior do Pavilhão de São Cristóvão, promovido pela prefeitura do Rio de Janeiro. Anteriormente, era montada ao redor do Pavilhão.

 

O Pavilhão de São Cristóvão, projeto do arquiteto Sérgio Bernardes para a Exposição Internacional de Indústria e Comércio de 1950, passou a ser Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas em setembro de 2003.

 

As barracas foram substituídas por boxes (caixas) e instalados 128 banheiros. No maior estilo shopping-center, o visitante tem acesso a agência bancária, lotérica, posto médico, restaurantes e lojas. Há uma praça para repentistas e dois palcos com pista de dança para 800 casais. Não se pode negar, foi implantada uma infra-estrutura dentro do Pavilhão.

 

Enfim, a Feira

 

Dia 23 de abril. Dia de São Jorge. São duas e quinze da tarde. A temperatura beira aos trinta e cinco graus. O sol está a pino. Entramos, eu e Duayer, na Feira de São Cristóvão com uma polêmica martelando a cabeça. A troca de lugar, para o interior do Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, teria mudado a feira e a vida dos comerciantes? Quais seriam as mudanças?

 

Logo na entrada, o calor é motivo de reclamação. A pauta é Nordeste, não adianta chiar com a temperatura. O Pavilhão não tem teto. Durante o dia, o sol bate direto e há pouca ventilação.

 

Dentro, começamos a explorar.


Atraídos pela música, avistamos uma loja de cds, ou seja, forró, baião e xaxado. Cantinho do Forró é igual a qualquer lojinha de cidade pequena. A nova feira está dividida em caixas e as ruas recebem nomes dos estados do Nordeste, artistas e personagens da região. Os boxes maiores medem dois metros de largura por três de profundidade. Alguns têm uma pequena copa.

 

Nas prateleiras, os discos de Roberto Carlos e Elba Ramalho disputam espaço com Babado Novo, Caviar com Rapadura, Arriba Saia, Alcymar Monteiro, Flávio José: a maioria é desconhecida do público do Sudeste. É um sinal, os dois mundos, tradicional e moderno, se misturam e se completam dentro do universo da Feira.

 

A vendedora Ângela Leite Lima, 25 anos, de Pernambuco, caloura na Feira de São Cristóvão, garante: O Arriba Saia é o maior sucesso da feira. Vendo sete cds por dia.

 

Ela começou na feira junto com a mudança, em setembro do ano passado. O Arriba Saia é uma banda baiana, que toca o forró pé de serra, ou, traduzido para o homem globalizado, mais light. As músicas do Arriba Saia recebem títulos como "Libera o Toim" e "Maria Gasolina".

 

Até aquele momento, não tínhamos encontrado nenhum vestígio de literatura de Cordel: uma preocupação.

 

Em frente à loja de discos, também na rua Rio Grande do Norte, entramos na Queijaria Lampião. O dono é Alex Araújo, veterano de Campina Grande. Está vestindo um chapéu de cangaceiro. Presente na feira desde 83, herdou a barraca de seu pai, Aluísio Araújo.

 

Ao sabermos que era antigo na área, nossa primeira pergunta foi se a mudança tinha sido boa. A resposta saiu de bate-pronto: para quem ficou nas ruas principais – Rio Grande do Norte, Bahia e Nordeste –, sim. Mas para os outros, não, diz Alex, sentado no fundo da loja, segurando um telefone em meio a máquinas de cartão de crédito.

 

Replicamos: pra você, falta alguma coisa? Outra resposta rápida e rasteira: vento, responde com seu sotaque carregado e de maneira altiva. Todos concordaram.

 

Na Queijaria Lampião, na sexta, no sábado e no domingo, são vendidos 300 quilos de queijo coalho. Porém, todos os produtos são industrializados e, como diria o povão, de marca.

 

Entre cocadas quebra-queixo e bolos de aipim, vislumbramos cachaças de diversas marcas. Apontávamos e Alex assinalava a procedência. Rainha, Paraíba; Colonial, Ceará; Maribondo, Pernambuco; Serra Linda, Paraíba. E por aí vai. Tinham ainda as cachaças de R$ 3,00 com títulos pomposos: Segura o Pau, Nas Coxinhas, Na Bundinha, Criação de Cornos e Diz que me ama, porra.

 

Passamos pela rua Piauí e pelas praças Câmara Cascudo e Mestre Vitalino. Estamos sentindo falta da literatura de Cordel, procuramos pelos livros. Não pode faltar Cordel no nosso Nordeste.

 

No retorno à rua Rio Grande do Norte, ficamos surpresos com uma visão. Primeiro, passou um palhaço, vestido a caráter. Depois fomos surpreendidos por uma comitiva de homens trajando ternos pretos. Com certeza, estávamos vivenciando uma mistura de Man in Black com Terra em Transe.

 

Fugimos, entramos no Bazar Potiguar. No letreiro: ferragens, ferramentas e artigos de couro. Lá, tivemos outro sinal da briga do rochedo contra o mar. O estabelecimento vende chaves de fenda, alicates, serrotes, martelos e outros artefatos bem sofisticados. Mas também artesanatos, alguns beirando a bugiganga, como carrancas de todos os tamanhos, selas, chapéus, caralhos de madeira (isso mesmo, objetos fálicos confeccionados em madeira), atabaques e outros tambores. Claro que não faltaram as redes cearenses.

 

José Lucinaldo Faustino, um dos proprietários do Bazar, tem 26 anos de Feira, acompanhou várias modificações. Ele lembra o começo: os freqüentadores, muito deles operários da construção civil, não tinham tempo para fazer compras. Assim, tiveram a idéia de abrir uma barraca de ferramentas. O nordestino vinha à feira comprar ferramentas. Mas, com o passar dos anos, a Feira foi mudando. Agora é um ponto turístico. Em uma pesquisa divulgada recentemente, já ultrapassou o Corcovado. É o segundo lugar mais visitado do Rio.

 

Nesse primeiro dia de Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, tiramos algumas conclusões. A Feira se transformou em um negócio para turistas e visitantes, como um parque temático. Os paraíbas pintam. No entanto, não é mais um espaço apenas para iniciados. Modificou-se neste mundo onde tudo é mercadoria.

 

No próximo texto, vamos explorar outras áreas da Feira, buscando encontrar situações em que o moderno e as tradições se completam para a renovação da cultura.

 

(continua no próximo número)

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texto: Zé Luiz Neto
fotos: Duayer

 
     

  
 

     


 

 

Zé Luiz Neto
38 anos de serviços prestados à boemia, é profundo conhecedor dos bares, botequins, morros e outras biroscas da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Na década de 1980, tirou uma de poeta outsider, com recitais nos baixos da vida, e teve contato, através do rock'n'roll, com os beatnicks, Marx e Nietzsche. Entrou depois numa de ser repórter, formou-se em Comunicação Social pela PUC-RJ, trabalhou em rádio e em jornal. Hoje em dia, escreve neste site sobre a loucura e a insanidade do Rio de Janeiro, lugar onde nasceu. Nos momentos de lucidez, trabalha em uma assessoria de comunicação.


 

           
 




 

 

Duayer
Nasceu em Tombos, Minas Gerais e reside no Rio de Janeiro. É jornalista e hoje trabalha como assessor de imprensa. Começou na Rádio Jornal do Brasil, depois foi para O Pasquim e lá ficou como ilustrador, cartunista, fotógrafo e redator bissexto. Teve trabalhos publicados nos jornais Última Hora, Diário de Notícias, Jornal do Brasil, A Crítica; em revistas nacionais como Playboy, Status, Mad, Ficção, Revista do Faustão, Visão e em revistas internacionais como Free Press na Holanda, Liberation, na França, World Press Review, nos Estados Unidos; possui algumas premiações em fotografia e cartuns.