Porque estamos erigindo

Algum muro tão vulgar

Com tijolos de silêncio

Se ontem éramos animais.

 

Porque vivemos plantando

Semáforos nos desertos

Gravando o som do vento

Após o ruído dos berros.

 

Porque amamos destruindo

Alguma vida de dois nós

Teatro de quatro paredes

Cantando cantos de guerra.

 

Porque pranteamos a mítica

Poesia de vendaval e areia

O vinho tinto que tomamos

Sob o sol e o sal da praia.

 

Porque detestamos música

Silenciosa como o látego

Que sopra este e sudoeste

O que atamos e desatamos.

 

Porque quebramos as duras

Portas de outrora e ontem

Tudo é real e verdadeiro

Estou vivo e aqui estou só.

 

 
       
     
 

 
     
   

Parece que já nada tenho a dizer-te

desta minha vida livre das carnes,

igual livro de 700 páginas coladas:

Carma, carma será esta dor e arde?

 

 
       
     
 

 
     
   

Ver-te, ver-te, ver-te mais uma vez,

O nome saudado para viver o caos.

Ser, convenção, manta, mãos atadas.

Um pôr-do-sol pálido fim-de-tarde.
 

 

 
       
     
 

 
     
   

Água doce derramada, a pele crua.

Na noite fresca sob as juçareiras.

O desenho hábil do teu corpo chão.

Fogo, vida, jorrando o manguezal.
 

 

 
       
     
 

 
     
   

Quem se importa com a ruiva lua?

Ali bebi a primeira gota feiticeira.

Era desta alma, a alma do vulcão.

Eis aqui a paixão: o furor celestial...
 

 

 
       
     
 

 
     
   

No mar não há distância em nós.

Imagem, leve, difusa, conduz paz.

Pensamento, muro, óxido, idéia.

Esperança, riso, rosto alegre, cor.
 

 

 
       
     
 

 
     
   

Brilha o olhar que sonhou sóis.

Traz um pouco de dor em mim.

Sinto sem explicar quais razões.

Querer além aquilo que sonhei.
 

 

 
       

 

 

 

     


 

 

Salomão Rovedo (1942)
Publicados: Abertura poética (antologia), Walmir Ayala/César de Araújo, Editora CS, 1975; Tributo (poesia), 1980; 12 Poetas Alternativos (antologia), Leila Míccolis/Tanussi Cardoso, 1981; Chuva fina (antologia), Leila Míccolis/Tanussi Cardoso, 1982; Folguedos (poesia e folclore), Xilos de Marcelo Soares, 1983; Erótica (poesia), Xilos de Marcelo Soares, 1984; Livro das 7 canções (poesia), 1987.
Colaborações: Poema Convidado (USA), La Bicicleta (Chile), Poetica (Uruguai), Alén (Espanha), Jaque (Espanha), Ajedrez 2000 (Espanha), O Imparcial (MA), Jornal do Dia (MA), Jornal do Povo (MA), A Toca do (Meu) Poeta (PB), Jornal de Debates (RJ), Opinião (RJ), O Pasquim (RJ), O Galo (RN), Jornal do País (RJ), DO Leitura (SP) , Diário de Corumbá (MT)... e muitas outras ovelhas desgarradas.