Que luzes são essas

Que mancham a terra

De sangue e fumaça?

Estrela às avessas –

Um filho que berra –

A vida que passa!

 

E os uivos na noite

Que calam as sombras –

Cantar de sereias?

A marca do açoite

Na fome das bombas

Deflora as areias.

 

O berço da vida

Rasteja à mingua,

Curvado, exangue.

E a águia maldita

Estende sua língua

Coberta de sangue.

 

Senhores ilustres

Em gritos de hurra

Rasgaram tratados

Deixando os abutres

Encherem suas burras

Com o ouro roubado.
 


 
       
     

 

 
   

 

 

O céu vestiu-se

de fogo e cinza

abrindo a boca da terra

numa súplica de sede.

Perverso o vento

que adia

a urgente saciedade do verde.
 


 
       
     

 

 
   

 

 

A lua urbana

É moça da cidade –

Finge recato

Mas mostra-se, amiúde.

 

A outra lua –

Dos campos e dos matos –

Enrubesce a face quase humana

E mira-se

No espelho dos açudes.
 


 
       
     

 

 
   

 

 

Te encantas com a beleza nua

Da lua

Em noites outonais?
E te parece que todas as estrelas

Ao vê-la

Brilham muito mais?

 

E quando sentas a olhar essa magia

A poesia

Toma formas vãs –

Essa beleza que tanto te fascina

E se termina

Todas as manhãs.

 

Pois eu te digo que toda essa beleza

Que a natureza

Dedicou à lua

Não é maior, nas noites outonais,

Nem brilha mais

Do que a beleza tua!
 


 
       
     

 

 
   

 

 

Quando chegar o outono dos meus dias

Com as folhas secas a valsear no vento

Me vestirei de gala e encantamento

Para a passagem que se principia.

 

Envelhecido, espero este momento

Bebendo à fonte que jamais sacia

E os fantasmas de minha poesia

Enternecidos, me trarão alento.

 

Partirei à noite para o Empíreo

Quando a estrela Vésper me carregue

A passear entre gérberas e lírios

 

E então meus olhos, já não mais tristonhos

Verão que sou, na senda que se segue,

Mais um encanto num jardim de sonhos
 


 
       
     

 

 
   

 

 

Se entre o homem e a mulher existe a chama

E a inocência e a pureza dos sentidos

Entre os corpos há uma luz que se derrama

Sobre a árvore dos frutos proibidos.

 

Se num mundo interligado e indeciso

Há idéias milenares que não cedem

Estará dentro de nós o paraíso

E haverá em cada um o novo Éden.

 

Se entre o homem e a mulher existe a chama

Mesmo que aos olhos santos seja um crime

É bendito, sempre, o fruto pra quem ama

E é o pecado original que nos redime.
 


 
       

 

     


 

 

Marcelo Domingues D'Ávila
É médico, tem 34 anos e vive em Sant´Ana do Livramento, na fronteira do RS com o Uruguai. É membro da Academia Santanense de Letras e, no prelo, tem o primeiro livro, um trabalho em contos chamado Encont(r)os e outras histórias, com apresentação de Flávio Moreira da Costa. É casado com a advogada Cláudia e pai da Bruna, que aos 8 anos já começa a escrever seus primeiros contos.