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Lua parada neste quarto escuro a solidão é terna e sendo assim posso transformar meu sentimento no sonho que a presença recusou.
Será sonho perfume imaturo de rosa que nasceu dentro de mim viveu a face fria de um lamento incerteza se fez e não restou
senão verso no mármore, a piedade de instâncias tortuosas, desiguais, caídas entre apelos dos sentidos.
Ainda agora vem a noite e invade meu corpo com os aromas que jamais
por mim ou por ti serão colhidos. |
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Não direi por que vou minha querida nem direi para onde nem se voltarei. Quando vou não direi e ninguém saberá por que vim e vim só. Não ouvirás agora aquilo que quisera na presença breve quase agradecida. E jamais saberás o motivo por que procurei os teus braços já cansado de tudo já sem tempo de ir não podendo voltar. Não saberás se o agora inda é tempo de amar, se amor é presença é saudade na ausência de apenas uma hora ou de eternidade. Nem saberão teus olhos onde estou desterrado porque fujo de tudo sem saber aonde vou ou o que será de mim. Mas eu quero que saibas que estarei à espera dos passos que virão trazendo do passado o sonho irrealizado e por nós tanto tempo
sentido, esperado. |
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Recolho-me a uma praia nunca vista sob céu que não coube em teu olhar, onde a cor azul é imprevista a terra é inexistente, seco o mar.
A tarde é apenas gesto mudo, quente e ante o espinho na carne considero que o pensamento perde de repente o valor do que fui e do que espero.
Há um porto de horas naufragadas onde flores morreram por um beijo de águas e de bocas não beijadas.
Na areia do impossível ainda vejo gesto amargo de mãos entrelaçadas
numa rua de sombras e desejo. |
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Ah percorrer teus cabelos com meus dedos e desvelos depois procurar perfume nas dobras quentes do corpo que amanheceu em silêncio para o momento de céu. Humildemente nos dedos o espinho faz-se ternura do amor ensandecido do momento figurado de uma pétala que cai. Se a rosa vence o mundo o teu corpo será rosa renascida sobre a morte da essência mais profunda da invisível poesia do instante feito de ausência em que meus dedos desvelos
percorreram teus cabelos! |
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Quando a hora chegar definitivamente o relógio será um mero estorvo à germinação da semente. Sem portas para o tempo não se abrirá a esperança, os sonhos serão terra mineralizados desprendidos da memória. Não haverá sequer a luz da manhã E os dias inúteis tristemente abandonados pelos caminhos sem flores não encontrarão mais o rumo os costumeiros e antigos caminhos Mas o silêncio será meu somente meu a nuvem inacabada fechará a porta do sono fechará as bocas tortas que falam e rezam comendo. Uma poeira de vozes cobrirá ouvidos moucos moucos ao mais necessário mas principalmente moucos ao desnecessário e terrivelmente impossível. A percepção de tudo ficará no sentimento das plantas no canto das águas, na audição das pedras na alma insondável da noite na visão sem surpresa no vazio pálido da fronte na imagem por trás do espelho e dos olhos que se abriram para a hora em que o silêncio é infinito
terrivelmente infinito. |
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Os teus olhos guardam estrelas como faz a noite escura, que esconde a barca no rio no rio que é teu corpo.
Há um perfume de abelha entre teus olhos e a barca no caminho a rosa seio pede caricias à boca.
A barca quase escondida entre as estrelas do corpo abre sua orfandade
para o delírio que invento: há um segredo escondido
na tua própria presença. |
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Voz que chega como chuva miúda alegre e serena se escorrendo pelo fio até o meu pensamento
(O céu no azul do silêncio reflete rumor de estrelas e riso que é sentimento)
Parece canção ao vento feita de ausências eternas trazendo imagens ternas escondidas nas palavras
(Os sons percorrendo veias empoçam-se no coração como saudade perdida)
Ninguém percebeu ainda o som nascido da água que se escorre pelo fio para chegar como vida.
(Faz-se pausa entre as nuvens e volta o abismo do longe engolindo a despedida)
Vou molhar-me no silêncio do orvalho que a noite chora quero ser relva de espera da vida na voz da chuva.
(Bem sei que haverá um dia em que a chuva choverá
sobre meu corpo de terra) |
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Juca de Melo |