Lua parada neste quarto escuro

a solidão é terna e sendo assim

posso transformar meu sentimento

no sonho que a presença recusou.

 

Será sonho perfume imaturo

de rosa que nasceu dentro de mim

viveu a face fria de um lamento

incerteza se fez e não restou

 

senão verso no mármore, a piedade

de instâncias tortuosas, desiguais,

caídas entre apelos dos sentidos.

 

Ainda agora vem a noite e invade

meu corpo com os aromas que jamais

por mim ou por ti serão colhidos.

 

 
   
     
 

 
     
   

Não direi por que vou

minha querida

nem direi para onde

nem se voltarei.

Quando vou não direi

e ninguém saberá

por que vim e vim só.

Não ouvirás agora

aquilo que quisera

na presença breve

quase agradecida.

E jamais saberás

o motivo por que

procurei os teus braços

já cansado de tudo

já sem tempo de ir

não podendo voltar.

Não saberás se o agora

inda é tempo de amar,

se amor é presença

é saudade na ausência

de apenas uma hora

ou de eternidade.

Nem saberão teus olhos

onde estou desterrado

porque fujo de tudo

sem saber aonde vou

ou o que será de mim.

Mas eu quero que saibas

que estarei à espera

dos passos que virão

trazendo do passado

o sonho irrealizado

e por nós tanto tempo

sentido, esperado.

 

 
   
     
 

 
     
   

Recolho-me a uma praia nunca vista

sob céu que não coube em teu olhar,

onde a cor azul é imprevista

a terra é inexistente, seco o mar.

 

A tarde é apenas gesto mudo, quente

e ante o espinho na carne considero

que o pensamento perde de repente

o valor do que fui e do que espero.

 

Há um porto de horas naufragadas

onde flores morreram por um beijo

de águas e de bocas não beijadas.

 

Na areia do impossível ainda vejo

gesto amargo de mãos entrelaçadas

numa rua de sombras e desejo.

 

 
   
     
 

 
     
   

Ah percorrer teus cabelos

com meus dedos e desvelos

depois procurar perfume

nas dobras quentes do corpo

que amanheceu em silêncio

para o momento de céu.

Humildemente nos dedos

o espinho faz-se ternura

do amor ensandecido

do momento figurado

de uma pétala que cai.

Se a rosa vence o mundo

o teu corpo será rosa

renascida sobre a morte

da essência mais profunda

da invisível poesia

do instante feito de ausência

em que meus dedos desvelos

percorreram teus cabelos!

 

 
   
     
 

 
     
   

Quando a hora chegar

definitivamente

o relógio será um mero estorvo

à germinação da semente.

Sem portas para o tempo

não se abrirá a esperança,

os sonhos serão terra

mineralizados

desprendidos da memória.

Não haverá sequer a luz da manhã

E os dias inúteis

tristemente abandonados

pelos caminhos sem flores

não encontrarão mais o rumo

os costumeiros e antigos caminhos

Mas o silêncio será meu

somente meu

a nuvem inacabada

fechará a porta do sono

fechará as bocas tortas

que falam e rezam comendo.

Uma poeira de vozes

cobrirá ouvidos moucos

moucos ao mais necessário

mas principalmente moucos

ao desnecessário

e terrivelmente impossível.

A percepção de tudo

ficará no sentimento das plantas

no canto das águas,

na audição das pedras

na alma insondável da noite

na visão sem surpresa

no vazio pálido da fronte

na imagem por trás do espelho

e dos olhos que se abriram

para a hora em que o silêncio

é infinito

terrivelmente infinito.

 

 
   
     
 

 
     
   

Os teus olhos guardam estrelas

como faz a noite escura,

que esconde a barca no rio

no rio que é teu corpo.

 

Há um perfume de abelha

entre teus olhos e a barca

no caminho a rosa seio

pede caricias à boca.

 

A barca quase escondida

entre as estrelas do corpo

abre sua orfandade

 

para o delírio que invento:

há um segredo escondido

na tua própria presença.

 

 
   
     
 

 
     
   

Voz que chega como chuva

miúda alegre e serena

se escorrendo pelo fio

até o meu pensamento

 

(O céu no azul do silêncio

reflete rumor de estrelas

e riso que é sentimento)

 

Parece canção ao vento

feita de ausências eternas

trazendo imagens ternas

escondidas nas palavras

 

(Os sons percorrendo veias

empoçam-se no coração

como saudade perdida)

 

Ninguém percebeu ainda

o som nascido da água

que se escorre pelo fio

para chegar como vida.

 

(Faz-se pausa entre as nuvens

e volta o abismo do longe

engolindo a despedida)

 

Vou molhar-me no silêncio

do orvalho que a noite chora

quero ser relva de espera

da vida na voz da chuva.

 

(Bem sei que haverá um dia

em que a chuva choverá

sobre meu corpo de terra)

 

 
   

 

     


 

 

Juca de Melo
Nascido em Brasília, MG, (nome surrupiado para batizar a Capital Federal), é poeta bissexto. Desde a juventude faz versos para consumo próprio, satisfazendo-se mais como ledor de poesia... É jornalista profissional; ocupou, em Belo Horizonte e na cidade onde reside, todos os cargos de redação: repórter, noticiarista, articulista, diretor, editorialista. Não tem livros de poesia publicados. É a primeira vez que submete seus textos poéticos à apreciação do leitor, por influência de Lizete Mercadante Machado e da sopa de letras.