– Paiê, falta muito pra chegar?

– Ô, menina, nem saímos de Londrina, ainda.

– Hã. Mas vai demorar?

– Vai sim. Dorme um pouco.

– Tá bom. Me acorda quando já estiver chegando, tá?

Filhos impacientes são sempre assim mesmo. A minha filha mais nova, então! De baixo de seus 9 anos... ah, somente ouvindo.
Saíamos de Londrina com destino a Matinhos, litoral no Paraná. Gosto de ir fazendo paradas. Aquele ditado é uma de minhas máximas: quem tem pressa come cru.

– Paiê, já dormi. Já chegamos?

– Ô, menina, me conte cá uma coisa, o que você tá vendo aí fora do carro?

– Hummmm... deixa eu ver direito. Tô vendo um monte de mato, árvore grande, boi, vaca, lhama também, pai.

– Ai, ai, ai, ai. Onde você tá vendo lhama, menina?

– Ué, aquelas ali, ó. Lhaminhas bem pitchutchucas.

– Aqui não tem lhama, menina. E aqueles bichos ali são carneiros e ovelhas. Um bonito rebanho.

– Ah, tá. Mas vai demorar?

– Ainda vai. Acabamos de passar pelo trevo de Telêmaco Borba, aquele que leva a gente pro cânion Guartelá.

– Ah, sei. Mas não é isso que quero saber.

– Vamos fazer diferente, ô teimosia.

– Fazer o quê?

– Me diz qual a comida que você mais gosta.

– Hummmm... tô pensando.

– Mas não pode pensar tanto, menina, vai logo, vai.

– Calmaaaa.

– Calmo nada. Diz logo. Tá demorando.

– Ih. Mas você tá muito apressado.

– Rá, rá. Pois é assim que você é comigo quando a gente viaja.

– Tá bom. Vou dormir. Vou pensar. E depois eu falo.

Às vezes devemos pôr em prática algumas daquelas teorias que a gente tanto ouve. Como aquela, se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé.

– Paiê, acordei. Já chegamos?

– Estamos saindo de Campo Largo e entrando em Curitiba. E então, pensou na comida que mais gosta?

– Xiiii... me esqueci.

Às vezes as teorias funcionam e outras não. Como sempre fazemos, almoçamos na rota grastronômica de Curitiba. Doce, farta e suculenta Santa Felicidade. É tal qual o nome, uma santa felicidade!

De volta à estrada e já tendo descido a Serra do Mar:

– Ah, lembrei, paiê! A comida que mais gosto é bar-re-a-do.

– Ahahaha. Você leu na placa ali de Morretes.

– Ué. E o que é que tem? Você perguntou e eu demorei pra responder. Igual é demorado pra fazer o barreado. Quando fiz a excursão da escola e vim aqui em Morretes nós comemos barreado num restaurante e tinha um homem que falou. Ele contou a história do barreado. Eu pedi a receita. Falei que meu pai coleciona receitas. Ele me deu. Deixa eu achar. Ah, tá aqui na bagunça da minha bolsa. Ih, ih, ih, ih.

E foi assim, meus caros leitores, que aprendi a fazer o barreado, o sabor exótico, antigo, símbolo de fartura e de origem polêmica, mas é do Paraná.

 

Barreado

 

Começamos o barreado pela panela. De barro, claro, mas nem por isso o nome do prato. A panela de barro deve ter a forma de um caldeirão. Usaremos uma de 3 litros.

A carne. Prefira as fibrosas. O lagarto ou posta branca, como queiram, é sempre genial para este prato. Atende ao longo cozimento e desfia bem. Uma peça de 1,3 kg é o quanto basta. Corte em cubos pequenos, quadradinhos. Cerca de 150 gramas de toucinho de porco, mas cru, a tal barriga. Corte também em cubinhos, menores que o lagarto. 1 cebola branca, picada. Manjericão fresco, 1 maço, inteiro ou picado, tanto faz. Umas 3 folhas de louro. Um porção generosa de cominho em pó, coentro em pó e sal a gosto.

Forre a panela com o toucinho picado. Sobre ele debruce o lagarto cortadinho. Depois adicione a cebola picada. A seguir o manjericão, o cominho, o coentro, o louro e o sal. Cubra tudo com água, até uns 2 dedos acima. Tampe.

Faça uma massa colenta de farinha de trigo, farinha de mandioca crua e água, mas não tão aguada, de forma a amoldar nas mãos folhas desta massa e com isto barrear, vedando as extremidades da tampa com a panela – ah, sim, eis aí a origem do nome. Nas priscas eras paranaenses, usavam-se cinzas e folhas de bananeira, o que não será preciso hoje em dia, graças à modernidade, mas o requinte frugal do prato é mantido.

Leve a panela ao fogo alto. Ao primeiro sinal de fervura a força da pressão irá romper um ou mais furinhos da massa barreada. Este é o momento em que o fogo deve ficar o mínimo possível. E deixe o furinho que irá funcionar como válvula.

Vez ou outra balance a panela.

Deixe no fogo baixo, o mais baixo possível, cerca de 12, 16, 18 horas, dependendo de cada fogo, claro. Costumo usar fogão elétrico para o barreado, assim o controle da temperatura é mais fácil e levo mais ou menos umas 18 horas. É insólito, mas traz de volta o sabor de minha terra.

Pronto. Destampe quebrando o barreado feito com as farinhas. Se precisar pode cozinhar um pouco mais com a panela destampada, em fogo baixo. Experimente o sal e os condimentos.

Forre um prato com farinha de mandioca crua. Despeje sobre ela o barreado, faça um pirãozinho no prato. Adicione pimenta vermelha, a gosto. Acompanham rodelas de banana e laranja, uma boa cachaça e sempre groselha pra garotada.

 

O pacto com minha filha foi feito. Ela não me pergunta mais quanto falta para chegar em viagem alguma e em contrapartida faço barreado sempre que me pede. Da próxima vez conto como aprendi a fazer cocada.

 

 


 

     


 

 

Carlos Alberto Francovig Filho
Vencido pelo destino, invisível estrada, sucumbi aos encantos da literatura. Doce ócio. De libra, nasci aos 21 de outubro de 1960. Agora me lanço e lanço livre minha literatura.