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– Hoje ninguém sai! – berrou o padre Volker, pilha de cadernetas marrons na mão. Ainda era verão em Belo Horizonte, apesar de os ventos outonais anunciarem que em breve todos usaríamos pulôveres e meias de lã, e mais curioso do que a quebra da rotina era o rosto exultante do padre-reitor, a gritar em meio à balbúrdia: – As famílias já estão avisadas! Não estavam, e deu uma bela de uma encrenca, com uma áspera discussão na reunião de pais e professores semanas depois do 31 de março de 1964. Mas, naquele instante divino (para o reitor do colégio, que abominava Jango e sua tentativa de implantar no Brasil a tal república sindicalista), tudo já estava decidido. O Colégio Padre Machado e seus alunos se integrariam à Marcha da Família com Deus pela Liberdade, para que os solertes comunas vissem que não seria tão fácil destruir tudo aquilo que séculos de civilização católica haviam construído em nosso amado Brasil consagrado a Nossa Senhora de Aparecida. Em fila, saímos das salas de aula para o pátio, onde as instruções foram curtas e grossas. Cada turma teria seu chefe, e todos deveriam prestar muita atenção às palavras de ordem, pois era necessário demonstrar, antes de tudo, disciplina. E marchamos – sem Deus ainda, suponho, pois ele deveria estar esperando por nós em alguma esquina da avenida Getúlio Vargas – mas pelo menos com a Sagrada Família, a comissão de frente integrada por todos os padres barnabitas que moravam no colégio, rostos humildes mas altivos, garbo e devoção. Aos treze anos, eu, que já lia com muito interesse os jornais, não conseguia atinar qual a razão de todo o salseiro, talvez alguma coisa com os furibundos editoriais a espernear contra Jango, vaticinando dias negros para o país, a hierarquia ameaçada ante a ação funesta dos cripto-comunistas, perfidamente ocultos sob uma capa de liberais de ocasião. O pior de tudo era, sem dúvida, a reforma agrária, que tornaria cada lavrador em proprietário (diziam), subvertendo a exemplar estrutura de nossos campos (esperneavam), e abrindo a porta para ignomínias como um lavrador exigindo mais e mais dos patrões (abominavam). Zezinho, meu pai, do alto de suas preocupações, não tinha tempo para nos explicar onde estava a verdade... Anos mais tarde descobri por que deixara a política, traumatizado com o suicídio de Getúlio Vargas, o tal que deu um tiro no peito para entrar na história, mas que para nossa família tivera um efeito contrário, pois seu nome jamais voltou a ser pronunciado em casa. Certamente Zezinho achara uma grande covardia pular fora do barco (um homem com um bem nutrido par de colhões enfrentaria a tempestade de lama), deixando órfãos todos aqueles que recolocaram o retrato do velho no lugar, e entregando o trabalhismo de bandeja na mão de oportunistas (segundo as suas palavras) como Leonel Brizola e outros peralvilhos. À medida que o Colégio Padre Machado caminhava sob o pálio do Senhor, uma exaltação guerreira se apossava dos líderes, enquanto nós mesmos, calça cáqui e blusa branca, apenas olhávamos aparvalhados para a massa com estandartes e faixas, até chegarmos ao alto da avenida Afonso Penna, onde estacionamos e não mais saímos, para desespero do padre Volker, já que, imobilizados, não seria possível desfilar diante dos palanques das autoridades, e a adesão dos barnabitas e seus alunos à marcha só serviria mesmo para uso interno, pois as senhoras rezadeiras que lideravam o movimento é que iriam ficar com toda a fama, que nem se pense em deitar na cama. O sol caía, e com a tarde vinha o frio, a imobilidade a nos impacientar, lá da parte baixa da avenida chegavam ecos de alguns discursos, ininteligíveis, e enquanto o reitor negociava um jeito de tirar o colégio da rabeira da manifestação, eu, Calango e Chiquinho, o inseparável trio do segundo ginasial, dávamos uma escapada para fumar escondido, que chatice tudo aquilo, não fazia sentido algum ir a uma passeata e ficar parado. Para não dispersar, padre Junqueira puxou em voz alta uma ave-maria, no que foi seguido meio de má-vontade, pois a fome já rondava o estômago da garotada. O alto-falante sobre uma marquise insistia em vociferar hinos marciais dos quais se ouviam mais roncos do que notas, e quando o padre Venerando tentou emendar com um salve-rainha, o desinteresse foi de tal ordem que a oração perdeu volume pouco a pouco, até tornar-se apenas murmúrio na boca dos seminaristas, uma classe à parte, bloco coeso entre os alunos e a comissão de frente. – Carioca, você vai ao Aplicação amanhã? – perguntou-me Chiquinho, a mão esquerda mergulhada no bolso, onde, laboriosamente, escavava um furo para ficar apalpando o dito-cujo, perene autobolinação. – Sei não, Chiquinho – respondi. – É dia de lavar o carro. – Você é empregado do seu pai? – debochou Calango, dando uma cusparada entre os dentes, arte cultivada desde os onze anos, e ele já estava com treze. – Não enche – devolvi, e Calango só não me apertou o pescoço como sempre fazia quando eu dava uma resposta malcriada porque naquele instante padre Venerando passava a tropa em revista, determinado a descobrir alguém em atitude inconveniente, era delicado o momento cívico, exigia seriedade, o Brasil corria o risco de virar uma nova Rússia, onde os religiosos eram escalpelados e cozinhados em água quente na Sibéria, história que muito nos espantava, já que lá fazia um frio dos capetas e talvez fosse melhor guardar a lenha para outras necessidades, deixando os padres morrer de frio mesmo, conforme analisou, com muita propriedade, Chiquinho, a cabeça mais privilegiada de nossa turma. Mas ai de quem contestasse as tremendas profecias, era melhor fingir que se acreditava, quem estava interessado em perder o recreio para ouvir explicações mais detalhadas sobre o perigo vermelho? Só mesmo o idiota do Zé Fernandes, mas este era um puxa-saco declarado, papa-hóstia muito do sem-vergonha, e que haveria de colocar as manguinhas de fora nos anos que se seguiriam. Eu lavava o caro para ter direito a semanada, "você tem que aprender o valor do dinheiro", repetia meu pai à exaustão (com as suas gastas variações – "não cai do céu", "custa muito a ganhar" e "é fácil gastar, difícil é juntar".), mas nunca entendi o verdadeiro sentido de suas admoestações, pois para mim era tanto que jamais teria fim, no que estava completamente enganado, conforme também veria mais tarde. O desagradável em relação a lavar o carro era que sábado pela manhã rolava um futebol de salão no Colégio de Aplicação, o que nos dava não só a chance de exibir as qualidades ludopédicas como usufruir a visão das estudantes nas aulas de ginástica em quadras próximas, portando ridículos calçonetes bufantes, pois a fina flor das mulheres mineiras não podia ter os mocotós à mostra. Mas um joelhinho já dava para quebrar o galho, e muitas vezes tínhamos um olho na bola e outro nas pernocas, o que volta e meia provocava jogadas ridículas, tombos e até mesmo colisões entre jogadores do mesmo time. Tentações à parte, eu só conseguia chegar no Aplicação às onze horas, quando já não havia vagas disponíveis, e o jeito era ficar ali por cima do barranco, fingindo que bancava o gandula, mas, na verdade, torcendo para que a lei da gravidade fosse invertida e a bola da partida de vôlei viesse parar na quadra dos rapazes, e que fosse eu o engraçadinho a devolvê-la – em mãos, é claro – diante dos olhares invejosos de todos os circundantes. Vai ver era esse o verdadeiro motivo da implicância de Calango, obrigado à severa marcação do ataque adversário, o que quase nunca lhe dava tempo de arriscar uma olhadela para o paraíso proibido. Ou inferno escancarado, conforme vociferava padre Gilberto nas aulas de religião, as mulheres eram o caminho para a perdição, e sempre voltava à história de Salomé e Batista, aquele que perdeu a cabeça e sequer desfrutou dos favores da bela. O que valeu mais uma aguda observação de Chiquinho (para consumo interno, como sempre), pois se não tinha jeito, talvez tivesse sido melhor para o desafortunado João dar uns beijos em Salomé, daqueles de língua, o máximo da perversão em nossa pequena cartilha de libidinagens. Bem, as vésperas chegaram de vez, e diante da impossibilidade de alcançar o centro da manifestação, decidiu padre Volker retornar ao colégio com sua tropa de alunos, só que a volta não foi garbosa nem devotada, mais parecia um barulhento passeio de estudantes, e ao fim não passava mesmo disso. Figurante involuntário no préstito conservador da Revolução de 64, cheguei em casa só pensando no jantar. Ao relatar à mesa os buliçosos acontecimentos, pude ver muito bem a expressão de raiva no rosto de Zezinho, que de idiota não tinha nada, e bem sabia para que lados a Redentora ia nos levar a todos. – Quem deu permissão? – perguntou, furibundo. – Sei lá, pai, o padre disse que as famílias estavam avisadas. – Você sabia de alguma coisa? – perguntou olhando de viés para Suzana, minha mãe, que balançou a cabeça. Ficou um minuto de silêncio, aquele momento que antecede o corisco, mas papai só bufou, e encontrei graça e felicidade, pois ele me protegia e que não se metessem a besta. – Você também foi? – perguntou a Marcelo, meu irmão. – Eles prenderam as cadernetas... Zezinho nada mais disse, e se a próxima convocação para a reunião de pais e mestres levou algumas semanas para se realizar foi porque as tropas do exército tomaram os prédios públicos, rádios, jornais e televisões, correram com o presidente e seu ministério, o Brasil virou de ponta-cabeça e o cotidiano levou algum tempo para se reaprumar. Não sei bem o que se passou na tal reunião no salão nobre do colégio, mas no dia seguinte ouvi pedaços da conversa de Suzana ao telefone, e ela dizia que papai havia espinafrado meia dúzia por terem usado os alunos como massa de manobra. Algum engraçadinho resolveu perguntar se ele era comunista, a favor de Jango, o velho não deixou por menos – "se os padres têm que mentir para levar os alunos a uma passeata, pecaram contra um dos dez mandamentos". Ficou um grande branco, imagino o padre Volker avermelhando o clima com seu rosto sangüíneo, e, pelo que soube, tentou até argumentar, "a causa é nobre", mas Zezinho pegou a bola de bate-pronto (jogou no amador do Vila Nova em Nova Lima) e marcou um golaço, "ah, quer dizer que os fins justificam os meios?". A primeira conseqüência prática da Revolução, pelo menos para mim, foi a interdição da caixa d'água do Alto Santo Antônio, lugar cheio de árvores com frutas a nos dar sombra – e é claro – água fresca nos dias de verão. Lá morava o João da Caixa, negro gordo com fama de homossexual, cujas histórias corriam de boca em boca, mas sempre em surdina. Nunca o vi, mas o simples fato de saber que existia trazia um certo pânico, pois constava que o pervertido arrastava meninos para dentro de seu quarto imundo perto das grandes torneiras. Pelo sim pelo não, jamais íamos à caixa sozinhos, sempre em grupos, e naquela tarde de primeiro de abril, o colégio fechado, eu, Calango e Chiquinho subimos a rua Carangola para vadiar um pouco e deparamos com o nosso éden cheio de cadeados tendo à frente dois jipes do exército, os soldados e seus fuzis. – Dá para apanhar umas carambolas? – lá foi Calango, aquele jeitão cínico. – Vou contar até três para vocês sumirem daqui – respondeu o tenente com rispidez. – O que é que estes bostas pensam que são? – perguntou Chiquinho enquanto descíamos desanimados. – Só por que estão armados acham que mandam no mundo?
Para variar, já fizera a pergunta com a resposta
dentro, o pior ainda estava por vir e a gente realmente era feliz e nem
desconfiava. |
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Marcus Veras |
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