Marta passa as mãos pelo seu corpo procurando aliviá-lo de tanto fardo. É madrugada e ela não consegue dormir. A noite vai envelhecendo, atônita vê as horas passarem e consegue sentir os dedos trêmulos pela insônia. Rola de um lado para outro na cama, levanta-se para tomar leite morno – disseram-lhe que relaxava. Deita-se, mas não consegue conciliar o sono. Levanta-se e observa perplexa que a madrugada já se apronta pela janela do seu quarto.

Não teve dúvida, resolveu enfrentar sua insônia, encará-la de frente e não se angustiar. O que poderia fazer para aligeirar o tempo? Ligou o som e foi ouvir Bethânia... Permaneceu deitada no sofá da sala, ouvindo música bem baixinho para não acordar os outros, e soltando o corpo observava os objetos ao seu redor. As fotografias dos filhos, do marido, fragmentos de história familiar, fotos dos netos, quadros antigos na parede, os pratos de prata (reminiscências do casarão) os pequenos enfeites de porcelana, a cortina cerrada, a estante de madeira.

Foi então que pensou em vasculhar os armários de sua memória. Explorou lembranças, encontrou antigos arquivos quase esquecidos e continuou sua jornada em busca de algo que a tranqüilizasse... e assim o tempo foi passando, e sua alma serenando. Quando percebeu, o dia amanhecera alvissareiro e, junto com ele, o vendedor de pamonha, que todos os dias, arrastando sua voz aguda, grita: Olha a pamonha! Pamonha fresca... Quem quer?

Marta, mais uma vez, constatara que um cotidiano comum, como muitos outros, marcado de encontros e desencontros, de paciência e intolerância, de antagonismo de sentimentos abunda nossas vidas, aguçando-nos os sentidos e impedindo-nos em algumas circunstâncias de repousar, de encontrar o tão desejado sossego depois da labuta. Deu-se conta de que o tempo passara e que a insensatez do excesso de trabalho e da ausência de lazer roubaram-lhe parte de sua vitalidade. Estava consumida. Ressabiada, desconfiou que era hora de mudar.

Levantou-se com uma imensa vontade de lutar e projetar sonhos. Marta era uma mulher que se entusiasmava com o amanhecer e dizia para si mesma que a vida era uma fonte inesgotável de realizações humanas. Que certamente valia a pena andar com um baú cheio de sonhos, os mais diversos. Um importante era não abandoná-los. As perdas, estas fazem parte de nossas existências frágeis. Quem não as conhece?

 

   


  

     

 

Regina Lúcia Barros Leal da Silveira
Cearense, professora da Universidade de Fortaleza, UniFor, membro da Comissão de Avaliação Institucional dessa universidade. Membro da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – Ajeb que estará lançando uma antologia nacional no dia 22 de Abril, da qual faz parte com uma crônica. Mestre em Educação. Escreveu artigos para revistas especializadas, livros e crônicas. Está com um livro no prelo.