Com a mesma falta de atenção com que folheio uma revista no dentista, me dei conta, hoje, que tenho 46 anos e que uma das etnias que correm em meu sangue é considerada extinta. Não sofri com o fato, não me alterei, tão pouco esbravejei contra a corrida do tempo e as ruínas que se amontoam ao seu passar. Marcas de pés humanos com gosto de sal. Leve curiosidade, contudo, moveu-me para uma rápida pesquisa. Por ela localizei poucas palavras coletadas entre os ancestrais de meu pai. Água, ave, flores, pássaros, homem, irmão, mulher, com suas pronúncias fonéticas, as quais, era a recomendação, devem ser faladas em tom germânico. A mim pareceu-me um pouco rude, o tom. Dele escapava a lânguida figura de minha avó, com seus longos cabelos pretos, lisos sobre os ombros, vestidos largos, pés no chão. Caminhava dessa forma, sempre, aos meus olhos infantis, correndo do contato humano. Deixem-na, é assim, gosta de vagar com seus pensamentos, dizia minha mãe. Costumeiramente soltos e vivos em seus bolsos um periquito, uma rã, um pintinho... E carregava uma lata, também. Tampada, toda furada, para que o pássaro que nela habitava, talvez, recebesse o ar, escutasse os ventos. Errática minha avó, sem palavras. Não me recordo de um grunhido que fosse a indicar o som dos objetos que eu via, que me percebesse no mundo onde crescia. Não me recordo de uma carícia, de uma brincadeira que tenha vindo de sua pessoa. Residirá aí o fato de não ter encontrado, na breve visita ao dicionário, a palavra mãe? Como os Camacãs chamavam suas mães? E foram tantas as mães camacãs engravidadas pela civilização ocidental cristã! Disse-me meu pai, certa feita, que logo ao nascer foi levado para longe de sua mãe, para ser criado, como tantas outras crianças. Eram mães sem filhos, as índias camacãs. Sumiram-lhe com a maternidade, com a palavra, como minha avó sumiu com sua própria pessoa. Terá ela sacralizado sua vida, transmutando-a em sósia de pássaro, flor, um rio, um mar?... Quem sabe? Uma de minhas etnias é considerada extinta.

abril de 2004

 

   


  

     

 

Adriana Gragnani
Paulistana, ativista da cidadania.
Uma assumida mulher da net.