|
|
|
Fincado sólido o sobrado a duas quadras da praia. A parede, das costas de quem vencia os degraus, modelava uma pequena janela com parapeito por dentro servindo de base para uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. A imagem da santa foi posta ali depois de um enxame de abelha europa. Primeiro diziam serem abelhas africanas, pretas, assassinas. O cacho de abelha era antigo. Começou diminuto e foi crescendo, aumentando. A cada verão de nossa ida à casa de praia aquele cacho parecia inflado desde a última estada; e em um dos verões as abelhas começaram a guerrear entre si. Aprendi, de olhos arregalados, boquiaberto, surpreso e tomado de um medo invisível, a palavra enxame. A professora da escola ensinava substantivos. Eu sabia o que era colméia, o que eram abelhas, o que era favo e o que era mel. Mas não sabia da fúria de um enxame. Quando vi pela primeira vez, sentado naquela noite de verão, com o corpo ardido do sol das férias, o que realmente era um enxame, me lembrei da professora; via sua silhueta entre o fogo ateado pelo homem do corpo de bombeiro e o enorme cacho de abelhas. Ouvia os zunidos de todas elas. Gritos de guerra, de morte. Os vizinhos haviam fechado as entradas de suas casas. Com medo, por si e pelas crianças, minhas amigas. Desejei ficar na escada, protegido pela casa de praia toda fechada. Desejei ver por entre a pequena vidraça a cruzada das abelhas. Sentia-me protegido pela imagem da santa de Aparecida do Norte. No final, o homem do fogo, um soldado só abatendo aquelas milhares de abelhas, tirou o capacete, sorriu pra mim e fez com a mão, não me lembro qual, o sinal de positivo com o dedo polegar. Depois desceu de sua escada. Fui até a rua cheia de gente ao redor dos baldes de alumínio pelas bocas de favos. Fartavam-se de tanto mel. Peguei um pedaço de favo, mas tinha gosto de fogo, de abelha morta, de luta. Desisti e joguei fora. A família reunida discutia o destino a ser dado para a casa de praia. Eu me lembrava dos bons momentos passados por ela. Os verões. Os amigos de infância. As brincadeiras. Os caranguejos. As pescarias. A guerra das abelhas. As queimaduras de sol. A água salgada. A prostração da vida. Da reunião foi resolvido: dois iriam à casa de praia para ver seu estado. Saber das dívidas de impostos, do valor da venda. O primeiro nome levantado foi o meu. Ironia que o destino me prega a cada passo de vida. Mais alguém comigo: o marido de minha prima. Às quatro horas da madrugada já estava de pé, na calçada com uma mochila na mão, esperando. Às quatro e dez ele apontou na esquina, deu sinal de luz e eu entrei no Ford cinza jogando a mochila no banco de trás. Imediatamente Romualdo pôs em meu colo a caixa de CDs, dizendo pra escolher. Começamos com Djavan. De Londrina a Guaratuba o trecho é de uma boa pernada. Cerca de quinhentos quilômetros, contando com a travessia de balsa. A primeira parada para um café, logo na Holandesa, após uma hora de estrada. Um lanche rápido e seguimos viagem direto a Curitiba, onde tornarmos a parar. Um almoço prolongado, tentando evitar o encontro com tanto passado naquela casa de praia. Falávamos de tudo, menos da casa. Menos da intenção de colocá-la à venda. Minha infância estava ali dentro. Parte da vida da mulher de Romualdo também estava na casa. Na travessia da balsa ficamos longe. Um na proa e o outro na popa. A baía de Guaratuba é sensual. Tem cheiro bom. Tem vista firme e alegre. Diria até secular em torno de suas pequenas ilhas. E éramos as ilhas naquela sórdida missão. A casa de praia, hoje velha, parece olhar desconfiada. Olho de velho, sabedor das coisas da vida, das maldades, das artimanhas, das sacanagens. Casa velha calejada pelos passos e vozes de tanta gente acolhida. Abro toda a casa. Ela nos recebe igual, mesmo com astutos olhos, com seus gonzos enferrujados e barulhentos, chiando, gemendo, de braços abertos, tal qual fazia nos antigos verões. Ando por seus caminhos, cômodos com cheiro de passado. Os lambris estão derrubados por ataque violento de cupim. Insetos invadindo o vetusto sobrado de praia. O corretor de imóveis, para avaliação de valor monetário, aporta logo na entrada. Faz anotações. Vista e avaliada, entro para fechar janelas e portas. Paro na escada e encaro a janela. Somente a imagem da santa, imóvel, numa vigília quase eterna, silenciosa. Fecho os olhos e busco o enxame de abelhas. Enxame.
Agora somos nós, em verdadeiro enxame de gentes, de
família. Nosso cruel enxame. |
|
Carlos Alberto Francovig Filho |