Fincado sólido o sobrado a duas quadras da praia.
Lambris se sobrepunham à alvenaria. Na frente, um tímido gramado com coqueiros e figueiras. Da primeira varanda, com piso de ladrilho vermelho, a primavera de uma floreira sempre carregada de flores perenes, e antes de chegar ao alpendre três vigas de concreto apontando o céu como um dedo em riste.
Da entrada ao fundo o chão de pedras irregulares ganhava o espaço livre do quintal até chegar ao desenho de quadrado de grama e sobre ela outra figueira, dois limoeiros e arbustos de pimentas. A vegetação da área refrescava a casinha de bomba d’água. No esforço emergia do poço uma água amarela trazendo consigo o cheiro forte de enxofre. Corria dentro da casa uma nobre escada de madeira com tapete de veludo levando aos quartos.

A parede, das costas de quem vencia os degraus, modelava uma pequena janela com parapeito por dentro servindo de base para uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. A imagem da santa foi posta ali depois de um enxame de abelha europa. Primeiro diziam serem abelhas africanas, pretas, assassinas. O cacho de abelha era antigo. Começou diminuto e foi crescendo, aumentando. A cada verão de nossa ida à casa de praia aquele cacho parecia inflado desde a última estada; e em um dos verões as abelhas começaram a guerrear entre si.

Aprendi, de olhos arregalados, boquiaberto, surpreso e tomado de um medo invisível, a palavra enxame. A professora da escola ensinava substantivos. Eu sabia o que era colméia, o que eram abelhas, o que era favo e o que era mel. Mas não sabia da fúria de um enxame. Quando vi pela primeira vez, sentado naquela noite de verão, com o corpo ardido do sol das férias, o que realmente era um enxame, me lembrei da professora; via sua silhueta entre o fogo ateado pelo homem do corpo de bombeiro e o enorme cacho de abelhas. Ouvia os zunidos de todas elas. Gritos de guerra, de morte.

Os vizinhos haviam fechado as entradas de suas casas. Com medo, por si e pelas crianças, minhas amigas.

Desejei ficar na escada, protegido pela casa de praia toda fechada. Desejei ver por entre a pequena vidraça a cruzada das abelhas. Sentia-me protegido pela imagem da santa de Aparecida do Norte.

No final, o homem do fogo, um soldado só abatendo aquelas milhares de abelhas, tirou o capacete, sorriu pra mim e fez com a mão, não me lembro qual, o sinal de positivo com o dedo polegar. Depois desceu de sua escada. Fui até a rua cheia de gente ao redor dos baldes de alumínio pelas bocas de favos. Fartavam-se de tanto mel. Peguei um pedaço de favo, mas tinha gosto de fogo, de abelha morta, de luta. Desisti e joguei fora.

A família reunida discutia o destino a ser dado para a casa de praia.

Eu me lembrava dos bons momentos passados por ela. Os verões. Os amigos de infância. As brincadeiras. Os caranguejos. As pescarias. A guerra das abelhas. As queimaduras de sol. A água salgada. A prostração da vida.

Da reunião foi resolvido: dois iriam à casa de praia para ver seu estado. Saber das dívidas de impostos, do valor da venda. O primeiro nome levantado foi o meu. Ironia que o destino me prega a cada passo de vida. Mais alguém comigo: o marido de minha prima.

Às quatro horas da madrugada já estava de pé, na calçada com uma mochila na mão, esperando. Às quatro e dez ele apontou na esquina, deu sinal de luz e eu entrei no Ford cinza jogando a mochila no banco de trás. Imediatamente Romualdo pôs em meu colo a caixa de CDs, dizendo pra escolher. Começamos com Djavan.

De Londrina a Guaratuba o trecho é de uma boa pernada. Cerca de quinhentos quilômetros, contando com a travessia de balsa.

A primeira parada para um café, logo na Holandesa, após uma hora de estrada. Um lanche rápido e seguimos viagem direto a Curitiba, onde tornarmos a parar. Um almoço prolongado, tentando evitar o encontro com tanto passado naquela casa de praia. Falávamos de tudo, menos da casa. Menos da intenção de colocá-la à venda. Minha infância estava ali dentro. Parte da vida da mulher de Romualdo também estava na casa.

Na travessia da balsa ficamos longe. Um na proa e o outro na popa. A baía de Guaratuba é sensual. Tem cheiro bom. Tem vista firme e alegre. Diria até secular em torno de suas pequenas ilhas. E éramos as ilhas naquela sórdida missão.

A casa de praia, hoje velha, parece olhar desconfiada. Olho de velho, sabedor das coisas da vida, das maldades, das artimanhas, das sacanagens. Casa velha calejada pelos passos e vozes de tanta gente acolhida.

Abro toda a casa. Ela nos recebe igual, mesmo com astutos olhos, com seus gonzos enferrujados e barulhentos, chiando, gemendo, de braços abertos, tal qual fazia nos antigos verões. Ando por seus caminhos, cômodos com cheiro de passado. Os lambris estão derrubados por ataque violento de cupim. Insetos invadindo o vetusto sobrado de praia.

O corretor de imóveis, para avaliação de valor monetário, aporta logo na entrada. Faz anotações.

Vista e avaliada, entro para fechar janelas e portas. Paro na escada e encaro a janela. Somente a imagem da santa, imóvel, numa vigília quase eterna, silenciosa. Fecho os olhos e busco o enxame de abelhas. Enxame.

Agora somos nós, em verdadeiro enxame de gentes, de família. Nosso cruel enxame.

 

   


  

     

 

Carlos Alberto Francovig Filho
Vencido pelo destino, invisível estrada, sucumbi aos encantos da literatura. Doce ócio. De libra, nasci aos 21 de outubro de 1960. Agora me lanço e lanço livre minha literatura.