Sempre tive, desde a mais tenra idade, grande admiração por palhaços. Os de circo e afins, evidentemente. Confesso que ainda hoje eles exercem sobre mim um inexplicável fascínio. Mas há palhaços para todos os gostos: caracterizados ou não! Porém, um tipo dessa espécie se destaca sobremaneira: o enamorado. Esse é inconfundível.

Os do picadeiro do circo, os do cinema, aqueles da folclórica "Folia de Reis" desempenham seu papel e retomam sua condição de origem, ou seja: pessoas "quase normais".

O enamorado, no entanto, é um palhaço em tempo integral, mormente o não correspondido. Sofre o "diabo" com um sorriso idiota nos lábios e não desiste. O enamorado além de tudo é um beócio, dizia Zé Taliberti, velho amigo.

Tinha razão, "Taliba".

Observem que o "infeliz" é quase sempre um despojado: gasta com sua "eleita" o que tem e o que provavelmente não terá nunca... Ela apenas insinua gostar de algo, e ele compra na hora. Caro? Que nada!

É do tipo que vai do luxo ao lixo: toma porres homéricos, pifa e dança! Aliás, não dança: vai pro chuveiro mais cedo e deixa a "tal" dançando com o melhor amigo. Mui amigo!

Há um outro "tipo" pouquinha coisa mais requintado; mas nem por isso, menos trouxa! Gasta os "tubos" com roupa da moda, etiqueta famosa e por aí afora... Todavia, como bom-gosto as lojas não vendem para quem não o tem, o "cara" enfeita-se mais que prateleira de cigana e desfila ridículo.

E haja gozação!

Faz das tripas o coração, e quando cruza com a amada recebe um prosaico olá! E fica a ver navios... e aí, haja "fossa", haja cachaça e, não duvidem: dor! O amigo em questão tem o amor-próprio menor que o salário-mínimo. Mas assim é!

Mulher inteligente, e quase todas o são, faz a festa com o "babaca".

Figura desse tipo tem em todo lugar! No carnaval, o último, vi um sujeito apanhar mais que cachorro-sem-dono por causa de uma "dona" que o vinha cozinhando em banho-maria. Acontece que o pobre gamou mas esqueceu-se de avisar os irmãos da "bela". Apanhou e ainda foi ver o sol nascer quadrado! Ela, com expressão de dó, mas impassível, a tudo assistia...

Quando acabou a pancadaria e a galera se desfez, aproximei-me entre curioso e ressabiado e perguntei-lhe: conhece o moço? De soslaio, querendo aparentar indiferença, ela respondeu: conheço. E emendou, é um palhaço que não larga do meu pé.

Dei o episódio por encerrado, mas pude vislumbrar, nos olhos da garota, lampejos de tristeza.

Não me enganara!

Uma lágrima teimosa saltou-lhe dos olhos e o rímel escorreu pintando-lhe a cara.

Assim como acontece com os palhaços do circo!

O incidente, trivial quanto possa ter sido, chocou e emocionou ao palhaço que lhes escreve...

Um palhaço de plantão!

 

   


  

     

 

Ivan Ramos Coutinho
Casado, 3 filhos, 3 netos, 55 anos, aposentado. Administrador Hospitalar. Nascido e residente em Itaú de Minas, MG. O amor pela literatura vem do muito que lê.