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Ela entrava em cena depois de eu tê-la anunciado como “bonita, charmosa e sensual”. E depois de pensar “e deliciosa”. Ela andava ao ritmo batido da música numa pista de danças octogonal enquanto eu exercia o meu oficio de iluminar para que não vissem nada.
Um toque de stroboscópica aqui, uma luz azul ali,
um canhão de mil watts especialmente colocado nos fundos, este só permitia
que se visse um vulto... Luzes piscando e ela tirando a roupa. Aí ela passeava, música longa, espetáculo complexo e acabava de tirar a blusa... Algumas voltas e ela tirava a saia, rapidamente, como se não vivesse para fazer outra coisa diferente de tirar saias... Ah! As luzes, as luzes agora caem para um tom azulado, as luzes da pista são apagadas, a strobo pisca lentamente, com o dimmer setado para o nível mínimo de luz; eu conheço o show, sei o que ela vai fazer, preciso conduzir a minha parte com precisão... Ela tira uma alça do sutiã, as luzes escurecem, tira a outra, joga o sutiã fora e fica, seios à mostra, indefiníveis pela ausência controlada de luz. Ela olha para mim. Sorri. Estamos nisso juntos. Até mesmo nessa hora éramos cúmplices, dois ladrões, oferecendo algo, muito pouco, e tomando tudo, as ilusões da platéia... Em resposta ao seu sorriso pisco uma luz amarela, ela brilha por um segundo e fica completamente visível, é nossa esmola àqueles olhos ansiosos... Ela está só de calcinha, pernas roliças, seios na medida, cintura delineada pela luz mortiça e alaranjada que vem do fundo e a música começa a acabar...
Matter feeling... Matter Feeling... Matter
Feeling... Matter Feeling... Matter Feeling... e vem um repique de
bateria. Tínhamos uma variante para este espetáculo: ela entrava completamente nua, nas trevas, ia se vestindo e as luzes iam crescendo, para mostrar sua exuberância. Mas esse usávamos pouco... E ela é dignamente aplaudida. Em seguida estou nos bastidores, com ela, ainda nua, beijando-lhe a boca e tocando-a toda, certificando-me de que ela é minha. Só tenho uma frase nesta hora: Te amo. E ela tem outra. Eu também. Quatro da manhã vamos para casa e nos amamos. Posso me queixar de muitas coisas na vida. Mas não disso. Amei e fui amado.
Que mais se pode esperar da vida? |
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Claudius |