Não sei se culpo o FHC, que congelou meu salário, ou o Lula, que manteve o congelamento. Eles são os culpados, não eu.

Eu me julgava uma pessoa boa e nada em mim revelava o assassino.

Até o dia em que as finanças se complicaram e o parente próximo, do qual eu era herdeiro, mostrou-se absolutamente indiferente.

Caminhava eu à beira-mar, maldizendo as injustiças desta vida, quando ouço um amigo a concordar comigo:

– Dele, vivo, você não tira nada.

Nesse momento, o planejador oculto em meu cérebro sussurrou em minha orelha esquerda: “Morto, então”. A engrenagem do mal começou a girar lentamente e não havia a possibilidade do retorno. A idéia estava lá, em meu coração eu era já um assassino.

“O que eu penso...”, dizem as pessoas, porque se julgam donas de seus pensamentos. Ora, isso não é verdade. Os pensamentos estão à solta por aí, à nossa revelia. Posso provar o que digo. De tempos em tempos há uma geração de pessoas que se chamam Rafael ou Carolina, por exemplo. Há sempre uma geração de Matildes, ou Filipes, ou Carlos Augustos ou Marias Helenas. Cada pai afirma que escolheu cuidadosamente o nome de seu filho ou filha, porque queria um nome diferente. Como acontece, então, que entre centenas de nomes, todos os pais de uma geração escolham ao mesmo tempo os mesmos nomes? Porque o pensamento referente àquele nome estava à solta, infectando os cérebros, entrando na freqüência de onda de cada pai ou mãe em potencial.

É assim que acontece. Os pensamentos nos comandam, nos fazem agir, mas a sociedade nos julga responsáveis, e assim somos rotulados pela vida afora por méritos e culpas que não nos pertencem.

Pois aí está. Acontecera. O pensamento infiltrou-se e, daquele momento em diante, minha vida nunca mais seria a mesma. Nada poderia mudar a realidade do fato.

Que angústia! Eu me sentia pequenino, desprezível, meu rosto ao espelho mais se assemelhava ao de Dorian Gray. Se fosse possível, eu mesmo me esmagaria com o pé, verme hediondo.

Bem que eu abafava o planejador com máximas e citações e preces. O outro, paciente, espreitava através de meus olhos e aguardava.

“As dificuldades são o trampolim para um grande salto”, o calendário da Seicho-no-iê anunciava à porta do dentista.

E o planejador, lendo aquilo, comentava maroto:

– Salto? Aí está. Esta é uma idéia. Acidentes acontecem...

Eu corria, alucinado, e como tanta gente corre hoje em dia pelas praias e avenidas, eu era apenas mais um, tido como esportista ou adepto do jeito saudável de viver, praticando na única academia que o salário de um funcionário público comporta: a rua.

Eu nem visitava mais o avô, nem telefonava, para que minhas intenções, ou melhor, as intenções que não eram minhas, não, absolutamente, não se denunciassem ou, pior, para que o planejador não esbarrasse na oportunidade.

Perdi o sono e o apetite. A gasolina abaixou, o preço da cesta básica não arredou um centavo. A balança comercial do Brasil teve superávit, meu bolso em queda livre. Era o Pânico.

A poupança já se fora, bem como o computador, as ações e o carro. O cheque especial devorara os próximos salários.
E o planejador lá, à espreita.

Certa tarde encontro o Conde, não é título, não, é sobrenome mesmo, pois dizia eu que encontro o Conde à saída do trabalho, a caminho da Rua XV:

– Vamos à Cafeteria do Museu? Eu pago. Não sei de café melhor nesta cidade.

Abaixei a cabeça, deixei-me levar, em minha melhor performance de petista desiludido.

O Conde é o advogado do avô, colega de infância que a vida manteve por perto. Com um estalar de língua e um balanceio de cabeça, o Conde censurou-me:

– Rapaz sem juízo, é nisso que dá não ouvir os conselhos dos mais velhos. Em vez de fazer contabilidade, ou entrar pelos caminhos novos da informática, foi-se inflar de idealismo e ensinar, olha aí no que deu. Educação e Saúde são passivos, meu caro, sinônimos de prejuízo certo. O dinheiro vem pelos ativos. Mas você não entende nada de balancete, não é?

Tal cinismo desarmou-me. Eu estava tão cansado, bem que necessitava de um repouso. O planejador aproveitou-se de minha momentânea fragilidade e assumiu o comando.

Indefeso, eu ouvi seu riso cínico e assisti ao resto da conversa com o Conde, que prosseguiu:

– Aceite meu conselho, rapaz. Volte a visitar seu avô. O velho anda magoado, fala em fazer um testamento deixando tudo para o bisneto, colocar os imóveis intocáveis até a maioridade do garoto, reduzir você a um mero tutor da fortuna do menino. O velho é bem capaz de deixar você na rua da amargura.

– É onde eu estou, não é?

O Planejador garante ao Conde que vai visitar o avô no dia seguinte, e vai levar o bisneto, que o velho anda saudoso.

Eu me acalmo. Percebo o que Ele pretende e começo a concordar com Ele.

Afinal, é a maneira de garantir os estudos do menino e, de quebra, livrar-me tanto do Planejador quanto da dor e do remorso.

Acidentes acontecem.

Ninguém suspeitará de mim.

O velho vai cair da sacada, a trinta metros de altura, e o neto cairá a seguir, na aparente tentativa de salvá-lo, e deixará ao menos nesta Terra a fama de herói.
 


 

 

     


 

 

Sonia Regina Rocha Rodrigues
Ou Sonia Rodrigues, como costuma assinar, é médica e nasceu em Santos, SP, em 21 de maio de 1955. Escreve poesias, contos, crônicas e para teatro. Em 1996, foi classificada na fase municipal do certame Mapa Cultural Paulista, representando a cidade de Bebedouro/SP, com o conto "A auditoria". Foi co-editora do jornal literário Um Dedo de Prosa, de agosto de 1996 a dezembro de 1998 e da revista de arte Chapéu de Sol, de janeiro de 1999 a 2000. Publicou Dias de verão,– contos e crônicas, pela editora Legnar, em 1998 e O que você diz a seu filho?, programação neurolinguística para pais e educadores, pela Espa Editora.