|
|
|
– Impossível o que me pede, doutor. Como colocar em palavras o prazer que ela provoca? Prazer intenso, estranho, prazer que é dor, mas dor que é ainda mais prazer, um prazer doloroso, sentimento que não defino, prazer feito de dor e expectativa de morte... Um preço que pago se a ocasião ocorrer, estou consciente do risco, mas persisto, de tal modo a quero, procuro e me exaure... Tornou-se uma obsessão, a meta, o ponto de chegada... Me envolvo em sonhos de horror, sou um autômato no trabalho, logo eu, doutor, jornalista conhecido nos meios científicos... Sim, doutor, escrevo sobre resultados de pesquisas que enriqueço com minhas fantasias de jornalista experiente e bem-sucedido. E, de repente, cai essa moça na minha vida, como mosca na sopa do faminto, desculpe a comparação nauseante, mas moça que atrai, repele, atrai e enlouquece... E que mal conheço. Me exaure em sonhos, uma idéia fixa quando acordado, uma sanguessuga... Isso mesmo, doutor, sanguessuga... Tento analisá-la sob tantos diferentes ângulos, andando pela rua, a imagem que mais me encanta, magra, alta, a figura longilínea, as longas pernas, os braços longos, o queijo erguido, alta, leve, flexível, despertando olhares cobiçosos, pairando... Mas, sentada na lanchonete com o minúsculo sanduíche, é figura banal, moça comum, o cabelo castanho escorrido, algumas sardas, a pele clara, uma garota como tantas outras, maquiagem nenhuma, o rosto limpo. Mas os olhos... Ah, doutor, os olhos brilham, se multiplicam, tal o brilho, o reflexo ou sei lá o quê... – E como se conheceram? – Assim, na lanchonete, sentados lado a lado, um pequeno lanche, a conversa ao acaso, falamos das profissões, é bióloga, e o interesse surgindo, a princípio das afinidades profissionais... Especializou-se em aranhas. Tem trabalhos publicados, um nome reconhecido, é pesquisadora talentosa, competente... E viúva, marido morreu durante o sono, enfarto fatal. Depois nos envolvemos... De um modo como jamais poderia imaginar. Sonhos me exaurem, sonho que de tal modo me possui, de tal modo tenho que lutar para arrancar-me dela que fica meu pênis em seu corpo, o sangue jorrando... Acordo banhado em suor e esperma, cheiro mal, corro ao banho, tento limpar-me dos cheiros e dos pesadelos... Ou sonho que fico entalado nela, formo um cinto protetor, que nenhum outro se aproxime, sou um grande aracnídeo, ela, uma aranha negra, a viúva negra, como ela diz gracejando quando fala de suas pesquisas... É tão desesperadora a dor que me suicido com as próprias mãos... Acordo aos gritos, mãos no pescoço, sonho e realidade confundidas... – E tem conversado com ela sobre isso? – Não, estou inseguro, estou doente, estou perdido, quem sabe um princípio de loucura nunca antes detectado, me ajude, doutor...Telefonou-me há dias, está grávida... E novos pesadelos vêm surgindo, sonho que me mata após o sexo, morro gritando de dor, me corta ainda vivo em centenas de pedacinhos, que dará ao bebê quando nascer, exatamente como fazem as aranhas, conforme me explicou um dia. Doutor, me ajude, preciso me afastar dessa mulher e suas aranhas... – Procure acalmar-se, vai para uma casa de repouso, está estressado. Lá conversaremos... – Preciso falar com ela, doutor... – Me encarrego, fique tranqüilo...
Exceto pelo estranho olhar que parece proceder de múltiplos olhos, a moça sentada em frente a ele nada tem de excepcional. – Sim, está grávida do namorado. Sim é bióloga, especializou-se em aranhas, conversa com o namorado sobre suas pesquisas. Não, nada sabe sobre seus sonhos, nunca lhe falou sobre isso. Não, nada no ato sexual que milhares de outros casais também não fariam... Goza de boa saúde. Sim, decidiu ter o bebê, tem seu trabalho, poderá sustentar-se e a ele, não tem problemas financeiros. Sim, gosta do namorado. Sim, já foi casada, marido morreu enfartado, assim atestaram os médicos. Não, não era cardíaco até onde sabia, aparentava boa saúde. Sim, tivera problemas com a genitália antes da morte. Sim, tinham feito sexo momentos antes... Não, nada notou de estranho na conduta do marido nos últimos dias de vida... Um caso que transcende a Psiquiatria, extrapola para a Biologia, exige pesquisas. Despedem-se. Mas, estranhamente, marcam um encontro, apartamento dela, na madrugada...
A moça com quem conversa na lanchonete, um disfarce para ajudar o amigo psiquiatra a conhecê-la melhor, nada tem de extraordinário. É sua colega de profissão, ambos têm tanto a dizer um ao outro, marcam um encontro no apartamento dela. Onde faz frio... As belas cortinas tecidas em longos fios soltos, as longas franjas dos cobertores, os longos braços e pernas mais longas ainda são imagens esgarçadas na meia-luz, lembrando... Lembrando o que mesmo!? Ah, quer fugir, faz associações, os fatos se tornam nítidos... Tarde demais, impossível a fuga, se enrosca no corpo que o busca...
A moça que responde às perguntas do Delegado tem algo no olhar que ele não sabe precisar... De resto, moça comum, magra e frágil, os longos braços e pernas longas lembrando... Lembrando o que mesmo? As patas de uma aranha? Bobagem. Influência das tantas páginas lidas no processo, psiquiatras gostam de ver chifres em cabeça de cavalo, talvez a moça tenha tido namorados psicóticos, os sonhos revelando as perturbações da mente... – Sim, está grávida, é bióloga especializada em aranhas, e conversava com o namorado jornalista sobre suas pesquisas. Nada sabe sobre seus sonhos. Nada havia no ato sexual que milhares de outros casais também não fariam... Sim, viúva, marido morreu enfartado. Também tivera problemas com a genitália antes da morte, e tinham feito sexo... Nada notou de estranho na conduta do namorado internado na casa de repouso. Nada sabe sobre a morte do psiquiatra. Sim, vinham se encontrando, na busca da melhor terapia de apoio ao namorado jornalista. Sim, mantinham também relacionamento sexual, comum, nada excepcional. Sim, morreu em seus braços, enfarte, segundo os médicos. Também problemas na genitália. Sim, é mulher normal. Sim, também estranha as coincidências. Não, nada pode acrescentar sobre a morte do marido, nem do psiquiatra ou sobre a perturbação mental do jornalista, talvez uma fatalidade, coincidência, quem é que sabe? E nada sabe também sobre o desaparecimento do biólogo, seu colega, com quem vinha se encontrando, tinham tanto a conversar, assuntos da profissão...
– O que acha, Meritíssimo? Devo pedir a prisão preventiva, malgrado a ausência de provas concretas, considerada a possibilidade de algum comprometimento? Afinal, marido e psiquiatra mortos em relação sexual, jornalista perturbado, biólogo desaparecido... Tem jeito de inocente, mas... – Penso que deve mantê-la sob estrita vigilância... E manter-se afastado dela como o diabo da cruz.
abril, 2004 |
|
Maria Ilsen |