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O pai já estava de pé. Preparado. Na cozinha esquentava o leite e passava o café preto pelo velho coador de pano. Mantendo a rotina das madrugadas de caças dos dias de domingos, ele me chacoalhava na perna com uma das mãos e trazia com a outra sua xícara de café com leite. O cheiro quente da bebida anunciava a próxima caçada. – Levanta menino. Apresse. Temos que chegar pouco antes do sol. Botina. Calça velha bem surrada de tanto esfregar nos espinhos e picões no meio do mato. Uma blusa de lã, meio esgarçada, desbotada e cheia de bolinhas da lã me protegia do ar frio da madrugada. Meu estômago acolhia o calor saboroso do café com leite e pão com manteiga. A mãe, de roupão, se punha a alisar meus cabelos com suas mãos e dizia pro pai:
– Cuide do menino. Arrumei os sanduíches de carne gelada, água e o
refresco na caixa. A mãe, de braços cruzados de frio, desejava boa caçada e esperava a gente partir. Madrugada ainda. Eu tinha sono e bocejava. Rebu e Faísca em silêncio. Quando saíamos da cidade o pai sempre fazia o sinal da cruz com a mão direita, beijava o crucifixo pendurado no retrovisor da camionete e pregava: – Que seja uma boa viagem, de ida e volta. Que seja uma boa caçada, farta. Que Deus esteja conosco! Apontávamos na primeira porteira da fazenda pouquinho antes de o sol nascer ou com ele arrebentando o horizonte, aquecendo as pontas de capim e derretendo o orvalho. O pai desligava o motor do carro e repetia o gesto da cruz e do beijo no crucifixo. Me fazia botar o boné verde-oliva na cabeça. As invernadas são sempre ótimas para perdizes e codornas. Os perdigueiros latiam e cheiravam os cantinhos dos caixotes onde estavam. Primeiro o pai falava com o capataz da fazenda. Eu me afastava da camionete, segurava meu pequeno canivete feito de osso – nunca soube osso de quê – e, bucólico, contemplava a natureza viva e silenciosa à minha frente. Sentia o geladinho do orvalho; minhas botas úmidas. – Menino, prepare os perdigueiros. Prontamente obedecia a ordem do pai. O momento das coleiras era um momento de subordinação. A prática havia me feito rápido. Sem mais e outras contemplações me punha na frente do pai que empunhava no ombro direito uma arma de caça. A outra, reserva de imprevistos, ficava na camionete. Na cintura a cartucheira repleta dos cartuchos feitos à própria mão do pai; dizia serem melhores, não falhavam, seguros e confiáveis. Balançando em sua perna e amarrado por couro forte, o pendurico onde as aves abatidas eram transportadas, levadas embora. Seguíamos os dois, pai e filho, com os perdigueiros, Rebu e Faísca, ainda presos na coleira. Atravessávamos o rebanho de gado até chegar ao ponto da caça. O pai me segurava no ombro: – Aqui começamos, filho. Solte os perdigueiros. Os perdigueiros quase me arrastavam de tanta força, tanta ferocidade de encontrar a presa. Meu braço doía, mas não mostrava o incômodo, pois via o pai carregando cartuchos e a arma; mais tarde a caça abatida e o cansaço. Usava uma arma italiana, dois tiros, um cano ao lado do outro. Arma paralela. Uma 12. A do carro, também italiana, de dois tiros, 12, tinha os canos sobrepostos. Arma remontada. A preferência do pai era a paralela, dizia ser a mira mais precisa. Rebu e Faísca sem as coleiras não latiam mais. Farejavam a caça. O cheiro que eu não sentia, o pai não sentia, nem o capataz quando vinha com a gente sentia, era quase hipnótico ao sentido dos caninos. Bem treinados. Parados, erguiam solenemente a pata direita avisando que as aves estavam mocozadas ali, logo à frente, atrás de um arbusto de capim. O outro cão vinha junto e confirmava a presa escondida. Ainda não sabíamos se perdiz ou codorna. O pai, de gesto, mandava parar e fazer silêncio, seguindo devagar, procurando não fazer barulho, como se caminhasse em papel de arroz sem rasgá-lo. Chegava por trás dos perdigueiros e cutucava com o pé a pata traseira de um deles e dizia baixinho: – Vai, vai. Mais um passinho e saíam as aves. Atrás delas os chumbos preparados pelo pai. Velozes, os chumbos derrubavam uma ave atrás da outra. A manhã de domingo sangrava gorda e os tiros ecoavam longe. O pai separava as codornas das perdizes nos penduricos das pernas. A perna direita, codornas. As da esquerda, perdizes. Os cães, ao verem a força da gravidade agir sobre a vida das aves, corriam e traziam na boca, entre os dentes, a presa caçada. Os dentes dos cães nada faziam nas carnes das aves, mesmo quando chegavam vivas até o pai que, num movimento preciso, torcia-lhes o pescoço e pronto. Lá pelo meio da manhã, os penduricos cheios, o pai encerrava tudo. Os perdigueiros continuavam a apontar uma e outra ave que se lançavam ao céu com alvoroço de asas e alarido de pios. O pai assobiava estridente e bradava com os cachorros dizendo que estava bom e chegava. Era a vez de se guardar a arma, a cartucheira, dar água aos animais, acomodar a caça abatida na caixa de isopor com gelo e do lanche feito pela mãe. O pai olhava no relógio:
– Sua mãe deve estar saindo da missa uma hora dessas. Em dias de festa, a mãe se juntava com a avó ao redor do fogão e preparavam as codornas e as perdizes em grandes panelas com muito molho. A avó, de invejável destreza, fazia a melhor polenta dessas terras; ainda quente despejava sobre uma tábua de madeira moldando uma corpulenta circunferência. Passava uma linha branca por baixo da massa de fubá cortando em retângulos e jogando-as sobre as chapas do fogão a lenha. E como era bom morder aquelas carnes silvestres com os chumbinhos escondidos entre elas. Cozidos que eram juntos, cuspíamos os chumbos nos pratos e depois contávamos pra saber quem tinha conseguido mais. Hoje, estão todos mortos. As armas de caça foram vendidas. Restou apenas esta pequena foto da última caçada, meus primeiros tiros, meus primeiros abates. Minha voz mudava, meus pêlos cresciam. Ainda dá pra ver o sangue escorrendo do primeiro pescoço de perdiz que destronquei sobre a velha calça. Dá pra ver meu corpo penso pelo peso da 12 paralela que o pai, feliz, me ensinou a usar. A foto, meio amarelada do tempo, estou emoldurando em um porta-retrato junto a tantos outros com tantas outras histórias pra contar. Lembranças. Hoje as caças estão proibidas. Um tiro escreve um crime sem fiança e um alarde sem propósito. As invernadas estão repletas das aves silvestres, quase uma praga, mas comemos galinhas criadas em galinheiros, com peitos imensos que antes não existiam tantos peitos assim, meu Deus! Mas hoje temos peitões à beça. Os das galinhas não têm os chumbinhos. Uma ou outra codorna ou perdiz que se encontram, também cativas, não têm os chumbinhos.
Hoje, acabou minha última caçada. |
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Carlos Alberto Francovig Filho |