Anos dourados – aqueles em que tínhamos de dourar a pílula. Meu amigo Oswaldinho Martins estava há meses desempregado, vivendo aquela depressão braba (jornalista vive culpado, e quando está desempregado sempre acha que, no fundo no fundo, a culpa é dele), e foi chamado por uma rede de TV para ser o "chefe da sucursal" de Brasília. Vibrou com o convite – afinal, era um emprego –, e lá foi discutir as bases do trabalho. Com o próprio dono da rede. O dono foi cuidadoso na conversa. "Sei que você tem sua ética, e talvez não concorde com a maneira como vai funcionar nossa sucursal. Na verdade, você é que vai ser a sucursal. E não fará matéria nenhuma. Apenas vai selecionar e nos mandar o material que lhe será fornecido pela Agência Nacional. Tudo bem?". Oswaldinho se mexeu um bocado na poltrona, coçou a cabeça, mas topou. Afinal, era um trabalho. "Ótimo, então traga amanhã sua carteira de trabalho para o registro e já pega a passagem para Brasília."

Dia seguinte, Oswaldinho chega lá e, no Departamento de Pessoal (isso que hoje, jovens, se chama RH), dizem que é pra ir falar de novo com o dono. Oswaldinho sobe. "Uma pequena alteração", diz o dono, agora já nem tão cuidadoso. "É tudo como a gente combinou ontem, só que, em vez de receber pela rede, quem vai pagar você é a Agência Nacional, que vai também registrá-lo."

"É, mas isso eu não faço!", responde o Oswaldinho, e o dono da rede não entende. O trabalho era o mesmo, era tudo igual, mas Oswaldinho não queria ser registrado na Agência Nacional.

"O que eles nunca vão entender", contava-me depois o Oswaldinho, "é que jornalista é que nem puta!". E aí eu é que não entendi.

"Mas, Oswaldinho, eu sempre pensei que publicitário é que é que nem puta, porque trabalha pensando só em dinheiro" (naquela época eu era muito sectário, e pensava isso mesmo. Depois evoluí muito, viu, leitor? Eu, o PSDB, o PC, o PC do B, o PT, todos nós evoluímos muito. O PFL também evoluiu muito, a Igreja, o Exército, os publicitários...).

"Aí é que você se engana", me esclareceu o Oswaldinho, "não com os publicitários, mas com as putas, pois elas são exatamente como os jornalistas. Tem coisa que elas falam assim: isso eu não faço. E não fazem mesmo. E ninguém entende. Elas fazem isso, isso e isso, mas isso – pode ser beijo na boca, por exemplo – nunca. E o cliente nunca entende por quê."

Sempre que o tema é ética, seja em que situação for – profissional ou não –, lembro-me da conversa com Oswaldinho. Esse limite com que se defronta cada um de nós, esteja numa redação, num consultório, num escritório, no Judiciário, no Executivo, no Legislativo, na empresa pública ou na privada. E que não pode ser definido num Código de Ética. Que você sente no corpo, em alguma zona entre o fígado, os intestinos, o estômago e o coração. Um certo nojo, um certo enjôo, uma certa angústia. Que você pode respeitar, pode levar em conta. Cuidar. Obedecer. Dizer o não que o Oswaldinho disse, e manter sua integridade e, num sentido amplo, sua saúde.

Não sei bem por quê, mas me lembrei desse episódio pensando na discussão que o brilhante e digno André Forastieri andou tendo, nas páginas de Caros Amigos, com o brilhante e digno Gabriel Priolli. O que chamo de meu pensamento divergente dá razão aos dois. E me ajuda, sobretudo, a ver que ambos estão sendo absolutamente honestos, na esperança (do primeiro) e na desesperança (do segundo) com os destinos do homem e do mundo, da economia, da democracia.

Na brincadeira que fiz, linhas atrás, sobre o quanto todos nós evoluímos, o sério é que acredito, mesmo, no primado da honestidade sobre o acerto, e no da alegria sobre o do sucesso. Não estamos certos ou errados, quando estamos sendo honestos. Apenas pensamos de forma diferente, baseados e autorizados por nossa história. Mandei, estes dias, uma mensagem de apoio ao meu amigo Milton Temer, que perdeu a presidência do PT para o José Dirceu, porque acredito que Milton está mais preocupado na construção de um partido de esquerda de verdade, em vez de um movimento eleitoral. E acho que num partido assim haverá mais prazer, mais emoção do que no PT "prático" e de "nó na gravata" de que fala André Forastieri. Pode parecer loucura (vai ver que é), mas o que acabo de dizer não me impede de continuar acreditando na honestidade de homens como Mário Covas e Fernando Henrique, e de me entusiasmar – e sentir esperança – cada vez que vejo os resultados do bom trabalho que eles vêm fazendo. Não contem para ninguém, mas acho que se o PT estivesse na presidência e no governo do Estado, estaria fazendo tudo muito parecido, e sofrendo a mesma oposição – Erundina, Tarso Genro e Victor Buaiz que o digam. Por isso mesmo, posso votar, como já votei, no Lula, no Mário Covas, no Suplicy, na Erundina, no Fernando Henrique, no Serra, no Genoino. Mas, por exemplo, no Maluf, não. Como diriam o Oswaldinho e as putas, isso eu não faço!
 


 

 

     


 

 

Ruy Fernando Barboza
Tem 60 anos, é psicólogo clínico e colunista da revista Cláudia ("Relações Delicadas"). Dirigiu em São Paulo o Centro Oncológico de Recuperação e Apoio (Cora) e a Sociedade Brasileira de Análise Bioenergética. Foi advogado criminalista e assessor, por concurso, da Presidência do Tribunal Regional Federal. É jornalista profissional (chefiou as redações de Playboy e Nova, foi editor de Veja e Realidade e editor-chefe e apresentador de telejornais na TV Globo e na Abrilvídeo). Como músico e humorista, integra o grupo Conjunto Nacional, ao lado dos irmãos Paulo e Chico Caruso e de Luís Fernando Veríssimo. Em 2002, foi vítima de uma bala perdida de fuzil no Rio de Janeiro, fez oito cirurgias (no fêmur, na musculatura da coxa, no nervo ciático e na uretra), mas sobreviveu e leva vida praticamente normal, numa praia de Florianópolis, Santa Catarina.