A flor do amor tem muitos nomes. (Guimarães Rosa)

 

Tomada a palavra em sentido amplo, AMOR é relacionamento afetivo, um laço sentimental entre familiares, entre amigos, até mesmo voltado às plantas e aos animais. É amor o que se vê na mãe afagando o filho, nos amigos desfrutando momentos de camaradagem, no gesto do jardineiro cuidadoso colhendo a flor, no agricultor lavrando com alegria a terra; na mão de quem alisa carinhosamente um gato; no artista criando a obra de arte... Enfim, é amor o que vemos em todos aqueles que, independentemente do grau de instrução, idade, sexo, tempo ou lugar, põem naquilo que fazem um pouco da alma sob a forma de dedicação, ternura, cuidado. É o nosso “amante”, nos termos de Jorge Ducal, “o que tomou conta da nossa vida... o que nos apaixona... o que nos mostra o sentido e a motivação da vida...”.

Mas do que mais se fala é do amor romântico, o que surge entre um homem e uma mulher ou até mesmo entre pessoas do mesmo sexo. Vem-se tentando, desde há muito, explicar sua natureza: afinidade química? Hormonal? Feromônios em ação? Perpetuação da espécie através de mecanismos geneticamente transmitidos? Necessidade psicológica de reconstituição da unidade perdida com a mãe, ao nascermos, conforme defende Gikovate, numa linha freudiana? Destino, algo escrito nas estrelas? Combinação ao acaso das forças bio-cósmico-sociais do Universo? Não há respostas conclusivas, a Ciência engatinha quando se trata de explicar a natureza do amor romântico. Sabe-se que existe, é fonte de alegria, mas também de sofrimento. É inspiração temática na Arte em todos os tempos. O amor de Páris por Helena desencadeou a guerra de Tróia, e daí a Ilíada e a Odisséia. O amor de Dom Pedro por Inês de Castro inspirou Camões numa das mais belas passagens de Os Lusíadas. O amor extremado levou Safo, a poetisa grega, aos belos poemas e ao suicídio, atirando-se ao mar do alto dos rochedos. Foi o amor na maturidade que levou Drummond ao belíssimo poema "Campo de Flores". O amor de Chopin pela escritora George Sand inspirou maravilhosas composições musicais. Quem sabe, a perda de Lou Salomé para seu próprio amigo tenha levado Nietzsche ao desprezo pelas mulheres, comprometendo sua lúcida visão filosófica...

Quer no estilo romântico, com personagens de sentimentos previsíveis, quer em outros estilos de época, como no Realismo/Naturalismo e Modernismo, com personagens mais realizáveis e imprevisíveis, o amor é o grande tema da literatura de todos os tempos. É o amor que desencadeia os conflitos de Isaura, de Moreninha, de Iracema, de Bentinho, de José de Arimatéia, de Diadorim e de Riobaldo na literatura brasileira...

“Amor acontece na vida...”, diz uma canção popular, e estaríamos todos sujeitos a ele... Simplesmente acontece então sem razões cabíveis? O coração tendo razões que a Razão desconhece, como queria Pascal? Todos sujeitos então ao amor estremado, àquela estranha supra-realidade, onde vemos o que não existe, e existe o que não vemos, onde tudo se enviesa, se extrapola, bem e mal se confundem, todo o potencial do ser humano, soma, mente e psique, canalizados no objeto da paixão? Ou desequilíbrio funcional? Paixão que transforma a vida, glorifica, mas também destrói; eleva, mas também rebaixa, podendo levar ao desespero e à morte. Como em Romeu e Julieta, símbolos do amor eterno. E eterno porque paradoxalmente irrealizado plenamente, amor que a rotina não erodiu, ou não matou de vez... Considerada doença por alguns pesquisadores, a paixão resultaria do excesso de serotonina no corpo, um neurotransmissor, o que dá a sensação do prazer.

Uma característica marcante da paixão é a transitoriedade. Esvai-se... Acaba, principalmente quando se vincula mais ao sexo. Mas não se deve confundir amor com sexo, atração, desejo sexual... Amor e sexo podem coexistir, associar-se, uma feliz associação. Mas não necessariamente. Há sexo sem amor e amor sem sexo, com certeza, muito embora a concretização do amor se faça também por meios heterodoxos.

À falta de maiores esclarecimentos sobre a natureza do amor, surgem também diferentes posturas, havendo os que reivindicam hoje um relacionamento amoroso sem maiores compromissos: amor sem passado, só presente, sem futuro, sem cobrança, sem trato nem contrato, amor pelo amor, espontâneo... E há os que se posicionam pela volta ou manutenção das responsabilidades dos relacionamentos amorosos: casamento sem prazo de validade (conforme se diz hoje), fidelidade, dedicação exclusiva... Os vieses negativos e positivos se alinham, mas se há vantagens para o casamento tradicional, há também desvantagens, o mesmo acontecendo nos relacionamentos amorosos informais. Muitas outras teorias sobre o Amor surgem a cada dia. Numa linha mais espiritualista, há, por exemplo, os que postulam que a criança, num primeiro momento, sadia e perfeita, tem, desde a concepção, grande potencial de recepção afetiva e a dicotomia amor/desamor por parte dos pais seria o princípio regedor de todos os fatos inconscientes, mas que irão direcionar sua vida. A falta de amor dos pais levaria ao desamor primordial, fonte de conflitos emocionais, das deficiências físicas, doenças e desequilíbrios... Origem provável até mesmo da esquizofrenia, do homossexualismo, do autismo, pendor para as drogas, entre outros distúrbios graves do comportamento. Assim como o amor dos pais, desde o primeiro momento, seria a fonte de harmonia, o desamor levaria às afecções, ao desequilíbrio, a sérias implicações na vida psíquica e física.

Por fim, o amor virtual, em tempos de internet. Hoje, a solidão é quase opcional quando se dispõe de um micro. Aí se fazem amigos, namorados, noivos e casamentos sem algumas das desvantagens e das vantagens do real. E podendo extrapolar para o real, onde os relacionamentos ficam sujeitos às mesmas imprevisibilidades da vida. Amor virtual é amor sem consistência, volátil, segundo alguns. Amor tão intenso e emocionante quanto o real, segundo outros... Uma alternativa aos que precisam do amor virtual até mesmo em nome da estabilidade do casamento, para outros. O essencial é invisível para os olhos, no dizer do Pequeno Príncipe. Um ponto de encontro, sobre o qual o poeta José Asunción talvez também escrevesse:

 

Oh, as sombras enlaçadas!
Oh! as sombras que se buscam pelas noites...!

 

Concluindo estas reflexões, o que se pode dizer é que os fatores que levam ao Amor, sob todas as formas, não estão ainda devidamente explicados, embora muito já se saiba. Nas mães, haveria algum mecanismo orgânico, cerebral, que explicaria o amor materno, conforme alguns cientistas. Nos apaixonados, até se poderia ver a natureza operando para a perpetuação da espécie, através de mecanismos genéticos. Com o avanço da Ciência, da Física Quântica em especial, supõe-se que sentimentos e emoções nada mais são que sub-partículas também, mesmo porque, se não o fossem, o que seriam? Conhecida a estrutura das referidas partículas, quem sabe se chegue a uma explicação do que leva o homem e a mulher ao amor romântico.

 

... move o céu e as estrelas... (Dante)

 

O certo é que o Amor move o ser humano, move o mundo, “move o céu e as estrelas”, mas pode transformar-se em ódio, uma espécie de amor ao contrário, com resultados imprevisíveis para os envolvidos. Mas, lembram os psicólogos, o contrário do amor não é o ódio, e sim a indiferença.

Eis o que nos diz Kalil Gibran, na sua imensa sabedoria:

 

Quando o amor acenar, siga-o,
ainda que por caminhos ásperos e íngremes.
E quando suas asas o envolverem, renda-se a ele,
ainda que a lâmina escondida sob suas asas possa feri-lo.

E quando ele falar a você, acredite no que ele diz,
ainda que sua voz possa destroçar seus sonhos,
assim como o vento norte devasta o jardim.
Pois, se o amor o coroa, ele também o crucifica.
Se o ajuda a crescer, também o diminui.

Se o faz subir às alturas e acaricia seus ramos
mais tenros que tremem ao sol, também o faz descer
às raízes e abala a sua ligação com a terra.
Como os feixes de trigo, ele o mantém íntegro.
Debulha-o até deixá-lo nu.

Transforma-o, livrando-o de sua palha.
Tritura-o, até torná-lo branco.
Amassa-o, até deixá-lo macio;
e então submete ao fogo para que se transforme
em pão no banquete sagrado de Deus.

Todas essas coisas pode o amor fazer
para que você conheça os segredos do seu coração,
e com esse conhecimento se torne um fragmento
do coração da Vida.

 


 

 

     


 

 

Maria Ilsen
Sou Maria, paranaense, escrevo pelo prazer de escrever. E, escrevendo, respondo à ansiedade de criação artística, ao desejo de partilhar com outros a minha interpretação do Universo, de preferência, o humano. Gosto de transgenias literárias. Se você também, me escreva.