Podemos dizer que a poesia é, por si só, um elemento de subversão, sua função anti-utilitária foge dos maniqueísmos do mercado, se este a rejeita editorialmente, a poesia o rejeita com sua não-fucionalidade.

Na virada do século XX para o XXI, o fazer poético está confuso quanto a qual é sua manifestação mais autêntica. Diluído em diversos nichos, mídias cada vez mais velozes e vorazes. Poemas de estruturas arcaicas, parnasianas, subsistem às experimentações da poesia visual. Concretismo, surrealismo, o que é vanguarda rapidamente perde seu peso. A poesia prescinde da palavra, via arte conceitual, mídias eletrônicas, Internet, Web, outras.

Dentro desse universo, dificilmente hoje se responderá com absoluta precisão a qual é o espaço ideal da poesia do século XXI. O que nos leva a um outro questionamento: num mundo cada vez mais globalizado e urbano, onde o viver e fazer se localiza nas cidades, qual linguagem poética o descreve com mais perfeição dentro do espaço urbano? Entre as várias e possíveis respostas a esta pergunta, com o risco de todas estarem certas ao mesmo tempo, existe uma expressão que se destaca: a cultura hip-hop. Os próprios membros desse movimento não se enxergam como poetas, ou envergam sua obra como poética. Os motivos não são a parte mais importante desta explanação.

A produção de textos para as letras de música RAP converge para uma poesia urbana, com linguagens do cotidiano, essencialmente coloquiais, com metrificação e rimas pobres, dando maior importância ao ritmo. As letras sobrevivem às músicas como verdadeiros poemas. Poemas crus, muitas vezes se utilizando de palavras chulas, calão, expressões idiomáticas de gangue ou gueto e estrutura gramatical longe da linguagem formal. Esta aparente “pobreza” do português dito correto se apropria da maneira como as pessoas do meio em que vivem se expressam. São o espaço para experimentação por excelência, dada sua forma de preocupação com a forma, a palavra e o significado se confundem, o cotidiano, meio crônica jornalística, meio prosa poética, conta a vida das periferias da grandes e médias cidades, a vida suburbana, o êxodo forçado, a sensação de acampamentos provisórios e de refugiados de guerra. A vida suburbana.

Os próprios Rapers não se vêem como possíveis poetas. Ao cantar as crônicas da vida e do trabalho, dão-lhes um caráter mais profético e apocalíptico, funcionam como trovadores modernos, cristalizando em seus trabalhos os anseios de suas comunidades.

Existem pontos que tornam difícil a sua absorção: seu isolamento em determinados locais geográficos delimitados, o comportamento de gueto, a falta de uma leitura mais direcionada à literatura. As raízes desse comportamento os separam do que chamamos de literatura, o veículo de expressão não é o livro, nem a palavra escrita. Isso talvez os impeça de romper uma linha falsa e burra de isolamento, de abandonar a idéia de que o único espaço de existência é a periferia. O centro das cidades e os aparelhos públicos não são reservados unicamente às elites culturais; devem ser também o local de encontros populares. Os espaços públicos são o espaço de excelência de todas as manifestações artísticas.

Devem ser combatidos todos os preconceitos, todos, principalmente aqueles voltados contra si mesmo. Essa cultura existe e resiste, em alguns casos de forma estruturada e organizada, quase sempre em forma espontânea. Deverá também ser estudada pelos teóricos, caso contrário estes correm o risco de perder o bonde da história.

Os movimentos da cultura hip-hop, o RAP, o grafite são expressões poéticas na medida e na forma, na ruptura de cadeias de comando. Ganham as ruas, atingem os corações e mentes dos mais jovens, o que a poesia em sua forma tradicional faz em muito menor escala e eficiência. Mesmo de forma rudimentar, criam sua estética própria. Numa analogia, não era Homero um homem mais próximo do povo? Contador de histórias de heróis, analfabeto, que acabou com o tempo ganhando a forma escrita e foi ensinado nas primeiras academias. Não se estranham nomes como Ferrez, que salta da música para as livrarias. Em seu encalço virão outros.

Serão nossos contadores de história urbanos os aedos da nova era?
 


   

 

     


 

 

Edson Bueno de Camargo
Nasceu em Santo André – SP, em 24 de julho de 1962, mas suas raízes estão na cidade de Mauá – SP, onde mora desde seu nascimento. Embora sua produção seja muito grande, é um poeta praticamente inédito. Publicou em 1981 um pequeno livro em forma de fanzine intitulado Cortinas, com poesias suas e de Cecília A. Bedeschi. Poemas do século passado é sua primeira publicação individual. Mais recentemente, participou da antologia poética As cidades cantam o Tamanduateí que passa, da Prefeitura do Município de Mauá, com o poema “O Rio”. Publica junto com os amigos escritores da Oficina Aberta da Palavra, grupo de Mauá – SP, o fanzine aperiódico Taba de Corumbé. Participa de projetos elaborados a partir da Secretaria Municipal de Educação Cultura e Esportes da Prefeitura de Mauá – SP, em especial do Núcleo de Literatura e da Oficina Aberta da Palavra – Inventário Poético da Cidade de Mauá.

www.secrel.com.br/jpoesia/ebcamargo.html
www.palavreiros.org.com.br/diamundialdapoesia/brasil/saopaulo/
www.paralerepensar.com.br/link_edsoncamargo.htm