As crises em andamento em relação à Educação (em vários momentos pipocam greves de professores prejudicando a sociedade e impedindo que ela tome consciência de como conduzir seus anseios), que deveriam estar sendo resolvidas nas mesas das escolas, constantemente emperram na Justiça (de forma premeditada para esfacelar o ânimo dos formadores de opiniões), com a nítida impressão de que foram programadas para causar um caos sem precedentes entre os jovens já sem grandes esperanças mesmo quando portadores de seus diplomas. Na verdade, estas crises vieram de longe em dois sentidos: tanto no nível como no tempo. A prática da "ditadura" impera na maioria das entidades de orientação estudantis e as decisões são tomadas pelas administrações sem consultar alunos, pais, professores e funcionários de apoio.

Milhares de escolas básicas públicas (que deveriam ser exibidas na tv no horário nobre) estão literalmente caindo aos pedaços. Goteiras, janelas empenadas, vidros quebrados, instalações sanitárias entupidas (risco de doenças), fios prontos para um curto, tacos soltos, quadros pendurados com parafusos de menos e outras dezenas de componentes que trazem um alto risco potencial de acidentes graves para seus usuários. Outros agravantes para torná-las inviáveis: filas desumanas nas matrículas organizadas nas madrugadas frias, indicação de escolas longe das residências dos alunos, merenda de baixo nível (a verba é desviada antes de chegar às escolas), falta de livros nas bibliotecas, quadros-negros (verdes ou brancos) sem manutenção (o toco de giz ou o pincel seco não deslizam sobre a superfície estragada), falta de carteiras (dois ou três alunos em cada), corte nas verbas de cursos de aperfeiçoamento dos professores e, claro, o congelamento de um salário imoral para quem tem o prazer (isto é o que ainda as mantém em funcionamento) de ensinar. E por falta de condições (verbas e material) não conseguem se aprimorar para dar aulas com uma qualidade mínima para formar um cidadão preparado para viver em sociedade e com conhecimento adequado para lutar por oportunidades de trabalho decente, suprir as necessidades da família e defender a pátria contra as raposas internacionais que patrocinam esta degradação coletiva para manterem volumosos os celeiros de mão-de-obra barata.

Mas estas mazelas não são exclusividade do nível básico. Visite as instalações do Pedro II, da UFRJ ou da UERJ (passo por elas regularmente). O quadro de abandono é similar (ou pior). E para garantir que o funcionamento seja inadequado mesmo que haja um sacrifício elevado de mestres e alunos, reitores impopulares são colocados no comando (lembra do Vilhena?) para garantir que o ambiente de entusiasmo não evolua. Dentro deste cenário, não é de surpreender que nossos jovens se sintam desestimulados e os mais fracos de mente e com família desestruturada se tornem presas fáceis das drogas.

Pensam que isto é o pior? Pois saibam que entidades de alto gabarito (IME, Agulhas Negras e outras) em passado recente (que também sofrem sabotagem para provocar a queda de qualidade de seus serviços), estão reduzindo a pressão sobre as matérias para que consigam formar turmas com mais de dez alunos, para encobrir a falência total do sistema educacional. Por isso já não temos patriotas como os valorosos lutadores de cinqüenta anos atrás. No lugar do hino que poucos ouvem nas escolas, estão aprendendo as letras que revelam que realmente estamos "dominados" por "cachorras popozudas" e "soldados dos bondes". Nossos ídolos não são (já foram?) os valentes patriotas que no passado tombaram por uma pátria independente. Nossos jovens idolatram atletas botinudos, apresentadoras de programas de auditório (ou mictório?) e artistas que exibem suas partes íntimas durante o jantar da família mental e moralmente fragilizada (pois já não encontra sustentação na Religião, denegrida por templos com fins lucrativos e a prática elevada da pedofilia).

Não fica difícil imaginar como anda a cultura em nossa pátria. Teatros abandonados, cinemas falidos, bibliotecas sendo devoradas por traças, museus com goteiras. Alguns valentes sites tentam criar um canal de sobrevivência das letras, assim como outras tantas entidades culturais patrocinam heroicamente concursos literários, tendo em vista que não há incentivo de leitura de livros (armas perigosas que podem abrir mentes e formar opiniões contrárias ao regime que nos conduz). Todos este veículos sobrevivem com água no queixo. Qualquer marola mais forte os afoga. Não há nenhuma linha de crédito que os beneficie. Quem se arrisca a patrocinar uma dessas entidades chega a receber "gelo" dos demais integrantes da máfia do poder. Em paralelo despejam as palavras estrangeiras em todas as campanhas publicitárias, trazendo-nos mais dificuldades em absorver a linguagem nativa.

E para culminar, mantém latente o estado de pânico, desespero e desestímulo entre os componentes que sustentam a estrutura da disseminação do saber entre os alunos. Os salários congelados e ridículos traduzem o menosprezo que os dirigentes possuem pelo povo (mas não esquecem de legislar em causa própria, propondo 15º salário até para quem foi cassado por manipular o painel eletrônico do Senado). Com dois meses de antecedência (antes do início do ano letivo) não sentam para negociar com os professores e, assim, criam as condições para que as greves prolongadas aconteçam no meio do processo já combalido.
Tal procedimento se faz necessário para que o processo de manter o povo na obscuridade continue em andamento. As elites do poder não desejam correr o risco de um despertar cívico em massa, que causará a descoberta por parte da população, do quanto foi espoliada por dezenas de anos. Se ainda tivesse sido pelo bem do país, vá lá. Mas para sustentar mordomias de ratazanas permanentes dos gabinetes que não sabem sequer lavar um copo, é doloroso.

E esta política de abandono e menosprezo pelo povo resulta na falta de oportunidade que nos conduz à miséria e à revolta por parte daqueles que percebem que estão sendo varridos para baixo do tapete junto com a lama dos escândalos que pipocam nas altas esferas dos governos e são engavetados cinicamente apesar do clamor (?) público. Na verdade, empurrados para favelas inchadas que acabam servindo de ótimos esconderijos para os bandidos das armas de fogo. Os bandidos que portam canetas de ouro continuam instalados em entidades sociais bem refrigeradas, na posição de dirigentes de nossos destinos. Aos "alienados mentais" fabricados e sem oportunidades de crescerem dignamente como seres humanos, são oferecidos programas do tipo "xuxelândia", "gugulândia" e "Big Bobo Brasil N" – onde N = qualquer algarismo enquanto der audiência.

Só nos resta abaixar a cabeça e permanecer colônia à espera de um messias de alguma história da carochinha? Mas nossos heróis não são Tiradentes, Dom João VI, Caxias, Oswaldo Aranha, Monteiro Lobato, Carlos Lacerda, Assis Chateaubriand nem Barbosa Lima Sobrinho. São eles: Rambo, Mickey, Pateta, Mandrake, Vingador do futuro e outros do mesmo baixo quilate. Em comum, suas mensagens subliminares de hipnose do povo que já não sabe mais identificar sua cidadania e dignidade e fica "agradecido" quando há alguma promoção no kit de sanduíches do Mc (pato ou corvo?) Donald's.

Afinal de contas, quando nossas crianças terão direito de estudar e brincar usando nossos valores e nossas culturas tradicionais? Por quanto tempo mais teremos de gerar crianças famintas para garantir o estoque de escravos dos níqueis? Como poderão elas crescer sem medo depois de ouvirem canções de ninar cujas letras são negativas: assustam (Boi da cara preta), ameaçam (Marcha soldado), acusam (A canoa virou), desgraçam (O cravo e a rosa)?

 

Haroldo P. Barboza
Matemático, Analista de computador e Poeta
Setembro / 2002

 

P.S.: E a mudança da presidência nos deu a impressão que poderíamos iniciar a longa caminhada em direção à dignidade. Não estávamos esperando mágicas para consertar em 4 anos o que foi arrebentado durante 5 séculos (com mais força nos últimos 20 anos). Apenas ficamos na expectativa de que a embarcação mudasse de rumo pelo menos uns 30 graus. Mas infelizmente a máfia do poder segue o trajeto para nos manter eterna colônia enquanto nosso dirigente máximo se deslumbra com as portentosas viagens ao redor do mundo.

Poderosa arma
As letras são as balas do povo
A palavra, seu poderoso canhão.
Se o tiro atinge a mosca do alvo
Muda o rumo da nação.

 


 

 

     


 

 

Haroldo Pereira Barboza
Autor do livro Brinque e cresça feliz (Editora Litteris – Janeiro/2003), é formado em Matemática, trabalhou em Informática e escreve sobre temas diversos (política, humorismo, esporte, comportamento, ficção científica e dramas) quando não está jogando bocha, sinuca ou xadrez. Nascido em 21/07/45. Casado com Irene dos olhos verdes. O filho Marcelo também segue a Matemática. Tem mais de 18 trabalhos premiados (3 medalhas de ouro) e publicados em 8 antologias desde 1997, além de 35 artigos publicados na imprensa e 150 matérias expostas em sites culturais. É membro da UBQ, Suipa, Tijuca Tênis Clube e Fazenda Clube Marapendi.