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Ainda não é hora de julgar o governo Lula. Tentando minimizar as conseqüências da inversão econômico-financeira dos últimos anos, é possível que ainda venha a traçar rumo que, se não for definitivo, seja pelo menos mais correto. Por enquanto é impossível deixar de concordar com o professor Mangabeira Unger, que vem de Harvard tentando ensinar aos brasileiros como sair da mediocridade em que estamos imersos: crescimento econômico baixo e frágil, negativo até, gestos pouco conseqüentes de política social, e, o pior, abdicação da política de desenvolvimento em troca de uma aprovação internacional porque não estamos querendo muito. A tudo isso se soma a inconformidade da grande imprensa que, submissa a dificuldades financeiras, divulga erros e defeitos sem mostrar soluções; e a fragilidade dos partidos políticos que sobrevivem de benesses; e a ganância dos poderosos que continuam conchavados aos endinheirados, tudo levando ao silêncio do Direito diante do Poder. Foi Unger quem idealizou a campanha de Ciro Gomes e, no trívio atual do pensamento político, é o único a apresentar soluções novas para velhos problemas. Ele é quase impiedoso quando mostra a semelhança do atual governo a uma pequena burguesia entusiasmada com os confortos vulgares do Poder, os robes de algodão egípcio, as comilanças intermináveis, a prodigalidade de brincadeiras, bebedeiras e choradeiras, sem a competência necessária para fazer, construir e inventar. Ele ressalva a pessoa do Presidente, com quem a população se identifica. Mas adverte, citando o provérbio turco: “Quando o machado entrou na floresta, as árvores disseram:'O cabo desse machado é um de nós'”. Se ainda não é hora de julgar, nem por isso se deve deixar de advertir um governo que tem discurso de preocupação com os pobres, mas continua prodigamente confiável aos que controlam o dinheiro público e miliardariamente se enriquecem com o dinheiro da atividade privada. No ano que passou, bancos foram as únicas instituições que lucraram absurdamente, mesmo sendo negativo o índice de crescimento da economia. E como é impossível humanizar a economia sem que a poupança interna se faça também produtiva, a frouxidão que permite o acumpliciamento político com o dinheiro agiota não pode ser o desejo de qualquer governo que tenha propósito de mudança. Mesmo porque ganhar dinheiro sem produzir é especulação prejudicial ao trabalho e à produção. O Brasil tem grande parcela de grandeza reprimida. A energia e o talento das inteligências que não se submetem à mediocridade partidária perdem lugar, governo após governo, para a lassidão e o deboche da coisa pública. O rumo do futuro seria ir ao encontro dos valores postergados pela mediocridade. O que, aliás, pareceu ser a intenção do candidato. Para isso, o presidente não se pode perder na sinuosidade da burocracia que vem conduzindo o Brasil para a mesmice. Nem pactuar com a frouxidão das mentes e dos corpos bem nutridos. Não ceder o espaço das conquistas sociais e começar a substituir o velho e gasto pelo seja certo, necessário e urgente.
Os partidos estão desacreditados. Quem escolheu o
presidente votou no homem que conhece o ranço do trabalhismo, e quer ver
esse ranço substituído pela capacitação de pessoas e recursos que tornem o
país menos dependente da confiança dos endinheirados. Se inventar é
preciso, invente-se a democracia de produção, que dê a todos os
brasileiros a oportunidade de produzir, para ter o direito de consumir.
Como a China, também emergente, está fazendo. |