aquele exato ponto

sobre a massa
que deve estar úmida,
sobre o tato (o toque?)
e o olfato

aquele exato ponto

o cuscuz tendo achado
seu tempo preciso
– "tempo, tempo,
tempo, tempo" –
quando seu cheiro intenso
nos envolve

aquele exato ponto

antes ou depois
desse momento mágico
esfarela, perde
ou jamais alcança
o devido viço

aquele exato ponto

sobre um caldinho
que pode ser um
molho de carne
ou outro
(quanta ambigüidade
neste capítulo
dos caldos na arte
de fazer comida...)

aquele exato ponto

sobre ovo
cuja gema
penetra docemente
salgada
pelo cuscuz
adentro

aquele exato ponto

como:
"deixa que a minha mão errante
adentre
atrás, na frente, em cima, embaixo
entre..."

 


 
       
     
   
   

 


no deserto
domingo
as vacas mugem
meu noturno
belo
horizonte.

 


 
       
     
   
   

 


não sai
pra comprar
pão?

não escolhe
cebolas
na feira?

não passa mão
em chitas
na loja?

não joga papel
de bala
por aí?

não se pega
cantando
no ponto?

nunca
um rabo de olho
distraído?

nunca um oi
desatento
a quem nunca
viu?

pastel na feira,
pingo de café
na blusa,
nada?

esbarro de sombrinha
em dia
de chuva,
nem?

não dá um rolê,
não vai à esquina?

não sente quenturas,
nem corre frio?

 


 
       
     
   
   

 


subindo
a rua
bovinamente
as vacas
mugem
retocando
a cidade.

 


 
       
     
   
   

 


na minha
memória
noturna
você não é
tampouco
tempo.

 


 
       
     
   
   

 


a cobra
apenas
obra
a sua
dobra.

a cobra
calma
apenas
dobra
a sua
alma.

 


 
       
     
   
   

 


a minha não,
foi tranqüila
nem parecia,
essa minha
tosca angústia
é coisa tardia.

 


 
       
     
   
   

 


quero
desenlace
não
quero
você
apenas
como
paráfrase

 


 
       
     
   
   

 


Quantos amantes terá
aquela mulher que fita
o mar perto de mim?
Quantos homens terá possuído
a quem se entregou
que leitos, que carícias
seu belo corpo conhece?

Sua dignidade
molha o mar
talvez em busca de
sinuoso horizonte
feito de passado e
– percebe-se –
de presente
antes de nada

Quantos amores carrega
nas dobras do tempo
esta mulher
– que nos escapam?
Seu jeito de perscrutar
o vôo do pássaro
que pesca agora mesmo
recende a aventura, sabor
e mistério.

Quantos ruídos
marulhos
quantos gemidos
emite esta felina
que nos torna
frágeis inocentes
que nada sabem
do mel e do amor?

Quando se afasta
abandona insosso
e árido o oceano
e deixa cálidas
as vidas
de todos nós que
a olhamos em silêncio
enamorados.

 


 
       

 

     


 

 

zeca
é baiano e mais não conta.