“Deixa a tua cara amaldiçoada, peste,
e principia de uma vez. Vamos,
o corvo, em seu grasnar, clama a vingança”

(Hamleto)
 

   
   


Entre as mãos,
Entre os dedos...
E entre os dedos,
vossas cabeças vivas
de olhos e bocas arregaladas.

E eu lhes pergunto:
– Onde é que estão as pessoas?
E os senhores não respondem,
ou murmuram velhas e antigas fórmulas.

Meus Senhores...
As pessoas estão entre o ser,
                      e o não ser...
Que os senhores repetem,
Que os senhores recitam,
               – há tanto tempo –
sem perceber que atrás,
               ou melhor,
                  entre
        o jogo das palavras,
            está a palavra
      – única e verdadeira –
Maior do que o tamanho das letras.
Maior do que toda a posteridade shakespeareana.
Maior do que Shakespeare, até!...
Até se Shakespeare
não a houvesse escrito,
      – e não escreveu –
a palavra continuaria existindo
      – incólume –
      – inalterável –
Apesar de todo esse intelectualismo
      – perfeitamente inútil –
Apesar de toda essa hipocrisia,
      ostentada como...
um nó de gravata.

Eis uma questão,
      – Meus Senhores –
que quando respondem,
rodeiam como a colher
      – da criança –
raspando no prato da sopa
      que não comeu.

Façam um favor:
         – porra! –
não me sujem a mesa.
Comam, gota a gota,
            letra a letra,
os pedaços da sopa de vossas existências.

Doce ou amarga,
haverá de ser menos insossa
do que vossas idéias,
amarradas como nós de gravata.

Doces ou amargos,
         abram essas goelas
         e engulam-se.

E se lambuzem com a sopa
         – que não comeram –
com a existência
         – que não existiram –
com o ser
         – que não foram –


Com medo do veneno
Com da palavra que não foi dita.
Com medo do veneno
Com da questão.

Parem!
        – Por favor –
Com essa hipocrisia de gravatas
 – grandes, coloridas e largas –

Parem com essas bravatas
e não me discutam mais
e não a origem da colher
e não – do ouro ou da prata –

Não me discutam mais
e não o ser ou não ser.

Por favor!
     Engulam a sopa e murmurem:
        – eis a questão –

Com todos os pontos, reticências e dois pontos,
Comigo:
Eis a questão. Eis a questão... Eis a questão:

EIS A QUESTÃO!

 


 
       
     
   
   


palavra,
palavra
palavra
palenta,
palenta
paluta
de labuta
sol a sol:
só palavra.
látego de consciência,
premência que escalavra
sílaba à sílaba
a fibra da alma bruta
que brota
       lenta,
         lenta,
de uma palavra
           muda.

farfalhantes palavras
de florescente consciência
que lavra,
que lavra
palavra,
  fruto da língua
gélida e morta.
muda lambida
de flor e desejo
desabrochando ensejo
                    de vida.

muda a lenta
muda a luta
da palavra muda.

silêncio de semente
florescendo aos ventos,
farfalhando aos tempos.

sim à palavra
     que muda,
à sílaba escrita,
à sílabainscrita
na consciência
        que brota
da semente
da flor muda
e transcende
o suor da labuta
e o sangue da vida
          que luta
          que luta
em lenta
e muda
palavra
semeando
em branca folha
farfalhante consciência
do ser lenta,
do ser lenta,
do ser a labuta
do porque luta.

 


 
       

 

     


 

 

Raul Longo
Nascido em 1951 na cidade de São Paulo, atuou como redator publicitário e jornalista nas seguintes capitais brasileiras: São Paulo, Salvador, Recife, Campo Grande e Rio de Janeiro, também realizando eventos culturais e sociais como a “Mostra de Arte Sulmatogrossense”, (Circulo Cultural Miguel de Cervantes/SP), “Mostra de Arte Latinoamericana” (Centro Cultural Vergueiro/SP) e o Seminário Indigenista (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul/CG).
Premiado em concursos literários nacionais promovidos pelo Unibanco, Rede Globo e Editora Abril; pelo Circulo Cultural Miguel de Cervantes; e pelo governo do Estado do Paraná. Publicou Filhos de Olorum – Contos e cantos de candomblé pela Cooeditora de Curitiba, e poemas escritos durante estada no Chile: A cabeça de Pinochet, pela Editora Metrópolis de São Paulo. Obteve montagem de duas obras teatrais: Samba/Jazz of Gafifa, no teatro Glauce Rocha da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, em Campo Grande; e Graças & glórias nacionais, no Centro Cultural Vergueiro, em São Paulo.
Atualmente reside em Florianópolis, Santa Catarina.