Estava caminhando pela a densa névoa
Quando resolvi recolocar meu olhos guardados no bolso
E gritei assustado quando vi que estava pisando sobre cabeças
Muitas cabeças, de homens, mulheres, velhos e crianças
Dei um pulo e me agarrei a algo preso no teto
Assustando-me novamente quando percebi que era uma mão
Mão sem corpo, que aproveitava para alisar meus dedos
Que me passou para outras mãos, muitas mãos...
Que de mão em mão me guiaram até uma janela aberta
E quando atravessei caí numa sala de vidro
Onde bebês quebravam relógios com marretas
E um deles me dirigiu a palavra numa língua estranha
E todos me apontavam, chorando, e chorei também...
E de repente uma luz me cegou até eu tontear
Percebendo que alguém estapeara minha nádegas
Sentindo-me sujo, com frio e com fome...
Mas logo me levaram a um colo quente me dando carinho
E me excitei ao sugar meu alimento do seio.
  
 


 
       
     
   
   

 


Três e pouco, não consigo dormir
A madrugada é amante inconfiável
No vazio do meu vazio caio junto com a angústia
Tendo apenas a insônia como cobertor

Roubaram-me a luz porque acreditei nela

A tristeza é o único antídoto para ela própria

Hoje a noite não foi feita para corações sinceros

Nossos dias às vezes são mais escuros do que após o poente
Então masco uma ilusão para anestesiar a dor
Olhando pela janela do meu quarto escuro
Perdido no negrume só sei que ainda existo porque toco-me
 


 
       
     
   
   

 


Acenos. Sorrisos. Desculpas
Flores. Suspiros. Insinuações
Dedos. Músculos. E tiros no peito
Sangue, suor, sêmen, lágrimas...
O corpo se liquefaz em gestos
Que mesmo o escuro não consegue apagar
O toque não tem sexo
Nem o beijo de olhos fechados
Ou o olhar que me seduz
Pois meu desejo é desejo de desejo
E o instinto nunca será extinto
A lua é tão feminina quanto o sol
Pêlos são amêndoas quando se quer
Navalhas também brotam do que é cálido
Perfume e sabor não têm morada certa
E sempre procuramos o caminho ao seio

O corpo exige a autonomia outrora sua
A carne não apenas trai, também revela
No tremer dos teus lábios respiro minha vontade
Mas agora somente me abrace, sem pressa...
 


 
       
     
   
   

 


Durmo tanto tempo durmo tanto mas é diferente pois não estou tão qual quando antes só que agora tudo é igual antes hoje foi um dia comum outro dia talvez mas agora tornou noite quando tenho tempo armo fugas mas às vezes acho que nada é de fato nada mais faz frio agora restam cílios voando pelo vento tenho cobertor tenho estórias tenho martelos e faz calor mas seco está também está e está que também não creio e onde estamos é apenas outro detalhe não detalhado pois qualquer lugar é qualquer lugar sempre lugares-comuns pois sempre perdidos estamos como tempo estamos mas já faz tanto tempo que nem sei Talvez ainda tá tempo ou talvez quem me dera mas continuo talhado às vezes rindo às vezes Chorando às vezes gritando às vezes calado tantas vezes já foram e fui e voltei e retornei e Não consegui tesouro algum do que me prometeram sem juramento e eu tive julgamento me Julguei me condenei me prendi depois me fugi e agora novamente outra mais uma vez estou Repetidamente aqui mas ainda onde estou para aonde vou mas só me bastaria está ao seu Lado mas não estou então nada me basta nada me gasta nada me sobra agora quero Descansar pois não consigo descansar e semeio adulterados sorrisos pra vê se colho algum Colho algo colho qualquer coisa talvez nada colho talvez coisa nenhuma há aqui mas chove Hoje choveu ontem choverá amanhã mas manhã não amanheceu e hoje ainda é um pouco Ontem e talvez não seja nada que quero do não quero do que acho que quero do que Poderia não querer rabisco rabiscos rabiscando rebuscados sonhos gastos iludidos de uns Outros tantos mais nus olhar o olhar ocular em óculos cego e tateio cego artificiais estrelas Artificialmente sobrevivo descalcificando a áspera aspereza tão leve que posso senti-la em Meu peito agora e tocá-la senti-la tê-la sempre sempre áspera aspereza sem aspas dos nossos Delitos acondicionados em vazios cômodos abertos estão as palavras as desculpas as veias Os cortes os desejos os adeuses sem deuses continuo o que não sei de exato resta apenas o Desconhecimento esse nosso detrito extemporaneamente contemporanizado fora de época Nas mesmas meias desculpas meas culpas mas dessa vez não foi nossa culpa da culpa mas Chega de desculpas sempre culpando hoje está calmo tudo caos tudo raro ar rarefeito feito Algo desfeito em algo sem efeito ou foi muito bem feito para você por não querer me ouvir Me olhar me cheirar me degustar me tatear não querendo meus sentidos meus cinco sentidos Mas tudo é mesmo sem sentido e eu fiquei sentido sentindo nada mais sem ti do alto caio e Caio e apenas caio e decaído estou permaneço assim tão qual nada pois não quero de vez em Quando até que é bom mas deixa pra lá dessa vez novamente nada é certo decerto apenas Incertezas mas tudo é assim mesmo porém eros não me avisou aquele bêbado filho da puta E apenas percebi isso quando tudo foi tão errado porque era tão certo o bem e o mal em Beijos de namoro num domingo à tarde mas de nada tenho medo e de ninguém preciso Apenas de mim mesmo apenas me procuro contudo não sei onde estou e onde não estou não Me acho e acho que não sei nada pois não encontro nada além do encontro não marcado Que me atrasei e dessa vez foi pior mas não sei mas pensando melhor não sei mas talvez Quem sabe mas realmente não sei e só sei que estou sozinho agora só estou quatro paredes Mal pintadas mais o teto olho para e vejo apenas meu cubicular cinza céu de telhas ou não Tenho algo tudo está estranho cada vez mais frio talvez um pouco de fome talvez um pouco De medo talvez não eu esteja apenas exagerando talvez passe tudo passa mas dessa vez Passou rápido demais e eu fiquei passado passando algo passado mas a solidão sempre é a Mesma nossa solidão só estou com frio estou com fome estou com medo por favor salve-me
  
 



 
         


 

     


 

 

Geraldo Ramiere
Tem 22 anos e mora em Planaltina, DF. Escreve poemas e contos. Ainda não tem livro publicado. E o que mais pode dizer de si? Sobrevive... eis tudo e apenas.